quinta-feira, 21 de julho de 2011

O esporte mata!

(parte I)

Anos atrás caiu em minha mão um texto do médico José Róiz, que depois fiquei sabendo, era o nome de um livro seu que levava o título: “O esporte mata!”. O médico dizia coisas corajosas nesse tempo de supervalorização do esporte, da imagem, do culto ao corpo, como "O homem não foi feito para correr”. Mas não pensem que fazia como fazem alguns arautos do esporte competitivo que enriquece uma minoria e infecta a maior parte do espaço midiático, tratando o tema superficialmente, visando apenas audiência e/ou lucros. Róiz fundamentava suas teses, sendo médico e pesquisador. Volta e meia, algum aluno me pergunta: ‘Você torce para algum time de futebol professor?’. ‘Torço... Torço para que o futebol acabe!’. Mas não aquele futebol popular, jogado nos terrenos baldios ou campinhos e quadras mundo afora, mas esse futebol ‘espetacular’, de disputa (do ‘pão e circo’), que engorda cofres de muitos ‘mafiosos’ por aí, além de criar ícones e/ou ídolos, ‘heróis semideuses’ de uma realidade nacional mesquinha que concentra renda nas mãos destes, enquanto muitos trabalhadores passam por necessidades básicas dentro do mesmo país. Muitos dos meus alunos questionam os motivos de eu torcer pela seleção argentina no futebol, e quando isso acontece, simplesmente digo que é por causa do Maradona e do que ele simboliza: um homem de carne e osso, devido aos seus ‘deslizes’, além de ter sido um grande jogador. Pelé, ‘o rei’, representa uma suposta ‘pureza’, um exemplo vivo do desportista saudável, idealizado, enquanto Maradona é o real, o homem além do ‘trono’, da ideologia mentirosa que inventa um super-herói que deve servir de exemplo.  No Brasil, geralmente quando se comemora um gol, ou quando um jogador dá entrevistas, o pagode ou o sertanejo universitário são o fundo musical. Dias atrás, num jogo da Copa América pela televisão, em meio à torcida, uma enorme bandeira argentina trazia escrito em letras gigantescas: ‘Rock’. Ta aí mais um motivo para a minha simpatia ser maior pelo futebol de los hermanos.  Mas não é só no futebol que esse ‘encantamento alienante’ da massa acontece. Outros esportes ‘iconizados’, geradores de grandes lucros e vinculados pela grande mídia, também servem de instrumento de manobra da massa. Porque na televisão, jornais e revistas, o esporte tem um grande espaço, enquanto outras manifestações culturais, como literatura e música, tem seus espaços reduzidos? 

(parte II)

Depois de ter escrito e publicado a primeira parte desta crônica (que na verdade são duas – mas isso pouco interessa), e ter recebido alguma(s) critica(s) sobre ela(s) - e alguns elogios, estou cá novamente para terminar com ela(s). De fato o tema é polêmico. E como não haveria de ser, já que estamos falando de algo quase ‘intocável, irredutível’, algo priorizado, elevado ao status supremo e maior (aqui no Brasil pelo menos)? Embora eu tenha deixado claro de que tipo de esporte eu estava falando na ‘parte I’, ainda tiveram aqueles que se revoltaram. Desportistas? Fanáticos? Não sei. Se bem que o tipo de esporte do qual eu me refiro é predominante nos meios: o de disputa, de competição, que gera status e grandes lucros, e que é utilizado ideologicamente para um convencimento, uma manutenção, uma manipulação. Além do já ‘clássico’ futebol, existem os modismos. Nas principais páginas da internet, lá estão eles. E mesmo que você não queira saber deles, no mínimo é obrigado a ver. Futebol, Fórmula 1, 2, 3, 4, Vôlei, Basquete, Vale Tudo, Vale Nada, etecétera... (este último não é um esporte!). Eu, criticando assim, até parece que não gosto de nada, não é? Até gosto, mas vejo ‘esse esporte’ além da mera atividade física. Vejo nisso o alimento de um ego, um eu-imagem idealizado, a ideologização de uma saúde inventada, dos corpos ‘perfeitos’. O homem sendo devorado pela imagem – imagem daquilo que não se é. Além do classicismo metafísico-filosófico, o culto ao corpo, ao esporte de competição, são heranças da Grécia antiga. E o mesmo esporte que mata - não só o corpo - mata também outras possibilidades de outras ‘artes humanas’ terem seu espaço, quando ele ocupa quase todos, como uma infecção generalizada, um fungo, uma bactéria. Efeitos? Muitos: ‘fabricação de ídolos e ícones; reprodução de valores individualistas e de status social como disputas, concorrência, sede de vitória; frustração quando se perde ou não se supera o que foi idealizado: tapeação da realidade. Mas eu também, raramente, jogo minha bolinha, meu carteadinho. Mas isso nem de longe é a mesma coisa. No lugar do esporte, queria ver pela televisão ou nas páginas dos jornais, mais arte e cultura. Depois dos 40 anos de idade, são raros os atletas saudáveis. Maltrataram tanto o corpo condicionando-o para competições que acabam tortos. Enfim. Posso um dia até morrer pela falta de esporte. Mas jamais morrei por ele.


sexta-feira, 15 de julho de 2011

...dezeducar.com.br

O governo da sacanagem

A greve terminou? Ela continua? Agora é parcial? Pois é! Ta difícil de saber. Era pra ter terminado, mas o governo, outra vez, deu mostras do seu ‘valor’. Sacaneou valendo os professores. A base do governo direitista contrariou a categoria e esmagou a oposição esquerdista na votação. Se não me engano, vi pela televisão: 28 votos a 8 - e a irritação dos professores acabou em violência. Outra vez seguranças e a polícia. Para defender os ‘nobres’ violentaram os ‘mestres’. Vi pela televisão um professor, já velho, desgastado pelos anos de trabalho, se esvaindo em sangue. Que proeza do Estado, daqueles que deveriam prezar pelo trabalhador. ‘Representantes da lei’, que piada! Professores neste país são os bandidos, enquanto eles, os sacanas, são privilegiados. Não existe justificativa para tal ato. Estamos aqui falando de alguém que teoricamente ‘ensina’, alguém que dedicou parte da sua vida para a ‘educação’ dos filhos da sociedade, inclusive da ‘classe burguesa’, dos senhores parlamentares, da polícia e do governador. ‘Que consideração né senhores?! Baita coisa vocês fazem! Isso me enche de orgulho! Deve encher de orgulho também seus pais não é? - seus filhos, os filhos desses professores, as crianças que precisam deles para crescer culturalmente’. Um professor humilhado! Imagem típica de uma sociedade decadente. Decadência pelos valores oriundos de interesses privados daqueles que comandam essa sociedade. Que papelão! ‘Santa Catarina, um belo Estado!’ - só se for na sua riqueza natural. Enquanto os professores voltavam para as salas de aula o governo fez a sua manobra e os ‘ilustres’ parlamentares então se reuniram e ferraram com os ‘mestres’. ‘Os professores se revoltaram!’ – foi a notícia dada pela apresentadora da RBS, ‘batendo nos vidros da assembléia com as mãos’. Foi pouco, muito pouco. São professores, lembrem disso – ah se fossem guerrilheiros! Mas, além de professores, são seres humanos, e cá entre nós, ninguém é de ferro. Eu por exemplo, já não sou mais um homem de chutes e ponta pés. Larguei disso quando abandonei as artes marciais. Hoje existem outros recursos além do corpo. Os chineses já inventaram a pólvora e eu adoro a pirotecnia! Guerra é guerra! Respeito e carinho se dão para aqueles que merecem: as crianças e seus risos - hoje, seus rostos estão tristes por verem seus mestres sendo mal tratados. Para os burocratas sacanas do Estado, um não coletivo e tombos estrondosos – eles merecem!


Sou um bandido, mas podem me chamar de professor!

Sou um bandido. Dos bons. Estudo arduamente na arquitetura dos meus planos. Trabalho durante horas para executar com precisão e arte o meu trabalho. Não posso errar, nunca! Sim. Sou um bandido. Lido com aquilo que quase mais ninguém quer. A maioria prefere fugir do perigo. Eu não. Encaro o problema com coragem. Sou bandido. Sim. Sou professor. E é assim que sou tratado aqui. Inimigo número um do Estado. Perseguido e perigoso. Quando caio nas garras do Estado, sou submetido, humilhado, mal tratado. Políticos e autoridades são meus tiranos. Quando não me ferram com leis e a diminuição do meu espaço de atuação, me ferram na porrada mesmo. Não querem deixar com que eu melhore minha condição. Minha arma até que é boa, de grosso calibre e leva o nome de conhecimento. Sei que muitos dos meus colegas de trabalho andam por aí desarmados. Como vão atingir seus fins desse jeito? Mas não dá pra generalizar. Conheço tantos que, como eu, andam armados até os dentes. Eu atiro pra quase todos os lados, mas não se enganem, não atiro no escuro, nem em vão. Não gosto de desperdiçar munição. Tenho uma boa mira. Às vezes erro, mas, modéstia parte, quase nunca. Já pratiquei muito. Já estudei muito. Conheço meus alvos à distância. Mas o Estado não valoriza essa minha virtude, acha que estou aqui por brincadeira: “Crianças não são brinquedos e as escolas não são parques de diversão, nem circo. A educação não é uma mercadoria e o professor não é um vendedor, nem é um escravo do Estado”. Eu também tenho dificuldades na vida. Por mais bandido que eu seja (ou que o Estado me considere), também sinto dores pelo corpo, escovo os dentes, fico alegre e fico triste, tenho contas pra pagar, como, bebo, (sobre) vivo. Posso ser um bandido, mas não um zumbi ou um personagem fictício. Sou de verdade. Tenho carne e tenho osso. Tenho necessidades e sentimentos, como o presidente, o governador e o prefeito. A diferença é que estes ganham muito mais do que eu e lidam com números – eu com pessoas! Eles não sabem, e se sabem, ignoram minhas necessidades. Meu trabalho, por mais ‘insignificante’ que agora, para eles, possa ser, os deu condições de avançar na vida. Já ‘aprenderam’ o suficiente para me sacanear – ou não aprenderam nada! Pois bem. Então é isso! Se eles, os governantes, os da lei e da ordem são os mocinhos, nessa batalha, eu só posso ser o bandido. Um bandido em vias de extinção. Enquanto a humanidade acomodada adormece para a sua própria desumanização.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

O chão é o limite

Beijo a lona ainda no primeiro assalto. De longe, você ri. Um riso de embaraço. Apavorada você agora se cala. Não agüenta o espetáculo. Meu sangue se esparrama pelo ringue. Eufóricos, todos gritam pelo nome do adversário. O meu, até eu esqueci. Quem sou eu já não interessa. Já fui ‘o astro’. Agora sou ‘o fracasso’. Mas eu suporto. Sempre suportei. Meus tombos sempre foram duros e solitários. O vermelho que sai da minha boca cáustica não é sangue. Antes fosse! É a tinta liquidificada da alma que verte nesse instante. Estou zonzo como um porco bêbado - e assim quero continuar. A dor me tira a razão deste mundo cheio de números falantes – e eles se chamam pessoas. Continuo pensando que são partes de uma equação. São tão simbólicos! Quase nada reais. Eu me dissolvo com a chuva ácida que cai lá fora e molha aqui dentro. Você não entende essa realidade. Ela não é sua. Não é de ninguém. Lembro de quando era alguém além deste corpo cansado, maltratado, decadente. Eu já fui belo. Eu já fui jovem e tive dias alegres. Uma alegria que, depois de anos, fui perceber, era forjada. Inexperiência de um sonhador. Utópico, idealista, acreditava na humanidade, participando do espetáculo sem ao menos perceber que eu era coadjuvante. Para os olhos cegos de toda essa gente – como os meus, eu era ‘o ideal’. Os que gritavam por minha ajuda esqueceram meu nome. Os que idolatravam minha imagem passaram a me ridicularizar. Os que diziam me amar esqueceram-se de mim. Nada daquilo tudo era verdade. Nada do passado realmente aconteceu. Tudo foi cena, teatro. Tudo foi espetáculo efêmero arquitetado para o entretenimento. Um entreter débil de cabeças domadas. Eles fizeram festa de mim. Minha imagem foi exemplo de sucesso enquanto eu, este que vos fala aqui de dentro, sempre fui um nada, assim como todos vocês também são. Nunca gravei o nome de ninguém. Nunca quis saber da vida privada daqueles com quem tive relação. A minha vida era A Vida – as demais, existências da carne em movimento limitado. Apanhei valendo da história. Apanhei como um cão magro e sarnento no meio da cachorrada por uma cadela no cio ou um pedaço apodrecido de osso. Agora renasço em outro plano. Não num plano divino ou extra mundano. Mas num plano paralelo onde vejo tudo mesmo não sendo nada. Curado da cegueira, sou um novo ser, sem presença, distinção nem substância física. Sou aquilo que você não percebe, só sente. Sou aquela parte da memória que você gostaria de apagar e que lhe tira o sono. A rasura da sua consciência.


Marchas...

Tempos atrás acontecia no Brasil - no tempo do FHC, o último presidente da era pré-Lula-lá - a Marcha dos prefeitos à Brasília. Nessa marcha, prefeitos de todo o país iam reivindicar mais investimentos aos municípios, que pareciam à beira da falência. Creio que tenha sido o início do tempo das marchas contemporâneas. Hoje, no contexto econômico brasileiro, essa marcha, especificamente, já não parece mais necessária. Mas outras marchas surgiram. Entre elas estão a Marcha da maconha, Marcha das vadias, Marcha da Liberdade, Marcha para Jesus, Marcha Paraguai, Marcha militar, Marcha ré (ou Parada Gay), entre outras. Quase todas em busca de seus direitos e/ou interesses.  O que acontece é que algumas têm seus reais motivos de serem, já outras, aproveitam o oportunismo para espalhar suas ideologias. Não vou aqui distingui-las, pois a questão é ‘elas’, e não ‘algumas delas’. Algumas dessas marchas são importantes. Outras, interessantes. Já outras, oportunistas - e essas servem de reforço ideológico para a manutenção de algum status ou poder. Adquirir mais súditos e/ou fiéis pela ‘causa’ e ou ‘ideal’. É por isso que muitos se manifestam - outros, pelas causas desconhecidas. Mas esse ‘fenômeno’ contemporâneo vai tomando conta das ruas, e ainda é cedo para uma análise sociológica, filosófica, antropológica e até mesmo histórica, que dê conta das variáveis disso. A Revolução Francesa, tanto quanto as idéias Iluministas e a Comuna de Paris, através das idéias, ainda estão presentes nos nossos dias. O filósofo iluminista Voltaire defendia: “Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-lo”. Essa é uma das máximas que legitimam o que conhecemos por ‘liberdade de expressão’. Depois veio os anos de 1960 com as manifestações jovens, o Maio de 68 francês, o rock e a Woodstock, o feminismo, as ruas de São Francisco nos EUA, etc. Tudo contribuindo, somando para que as marchas e/ou mobilizações e movimentações populares acontecessem. O MST (Movimento Sem Terra) vive em marcha. Mas essa é ainda uma marcha ‘maldita’ para o sistema capitalista, principalmente para os latifundiários. Algumas, além de reivindicarem, geram lucros ao comércio. Não estou dizendo que isso tira o teor ‘libertário’ das marchas, só estou considerando aspectos. Seria estrondosa uma Marcha dos favelados, dos Indígenas, dos Moradores de rua, dos Loucos, dos Malditos, Marginais & afins. A marcha dos Invisíveis, daqueles que não servem ao lucro nem ao discurso ideológico...


sexta-feira, 8 de julho de 2011

Não, eles não morreram!

Os Mamonas Assassinas estão de volta. Sim, é verdade! Uma surpresa! ‘Aqui, em primeira mão e com exclusividade’. E os créditos são meus. O maior furo de reportagem do ano. Durante anos, todos acreditaram na morte dos ‘astros’ na queda daquele avião, mas os Mamonas estavam em Hollywood, desfrutando da grana adquirida com o sucesso. Jogada de marketing. Gastaram quase tudo por lá e agora voltam com um filme para retomar a carreira. Ficarão mais alguns anos azucrinando meus ouvidos pelas rádios, televisão e pela boca daqueles que cantam suas músicas por aí. Mas eu suporto. Ouço coisa pior hoje em dia, muito pior! Não preciso nem dizer, não é? Se dissesse estaria me repetindo. Vocês que me lêem diariamente ou semanalmente, já sabem. Mas o fato é que, aquela queda daquele avião dos Mamonas foi só uma brincadeira. Invenção do Rick Bona-Dio, eu acho (preciso averiguar melhor isso). Vejam só minha tese: Inventaram a queda do bendito avião. Usaram atores para fazer crer que os Mamonas aviam mesmo morrido. Como afirmo isso? Ué, simples! O Bonadio tá vivo! É jurado daquele programa que fabrica ídolos pra indústria do entretenimento. Além disso, eles, os Mamonas, acabaram de fazer um filme! Então! Tá aí! Isso comprova minha tese. O que me faz ser o melhor jornalista do Brasil. Sou um gênio! Admitam, foi uma baita relação: Como é que os Mamonas fizeram um filme se eles estão mortos? E o Bonadino que é produtor, também tá vivo, até aparece falando na tevê?! Essas foram minhas perguntas iniciais. Aí desenvolvi essa tese. Sou mesmo um gênio, não sou? Outro dia li na internet que os Mamonas iriam terminar a banda se não morressem. Então? Tá aí mais um motivo para eles sumirem por uns tempos. O filme, certamente será um sucesso, já que trabalharam a idéia de que os Mamonas foram uma das melhores bandas de rock da história do Brasil, e muitos acreditaram. É isso. Assim é que se faz! Pra convencer a maioria não é difícil. Como eu escrevo pra uma minoria, vai ser difícil convencer sobre essa minha tese, mas, eu tento. O mundo não anda cheio de teorias conspiratórias, mensagens subliminares? Então? Aqui está mais uma. Mas essa é verdadeira. EU garanto!


‘Palavras da perdição!’ (só não digam Amém)

Abro jornais. Abro revistas. Abro a internet. Abro a caixa de ferramentas... Aí fica difícil e eu não me contenho diante de tanta estupidez - ainda mais depois de matar uma garrafa de um delicioso Malbec argentino. Não dá! Quanta merda jogada no ventilador por essa gente que (de)forma opinião, deusdocéu! Às vezes fica difícil não concordar com Hugo Chávez: algumas pessoas mereceriam ser mesmo silenciadas. Deveriam se botar em seus lugares. ‘De boca fechada são poetas’ (e isso serve para a escrita também – neste caso seria a palavra desenhada e publicada): “(...) gostei mesmo foi que o clube já mandou o recado: cortar o cabelo. Dou força, homens usam o cabelo ao estilo cadete. Homens. É isso aí, moçada espanhola, boa!”. Palavras (escritas) de Luís Carlos Prates, publicadas em um veículo de comunicação por aí, referindo-se ao cabelo do jogador Neymar, quanto ao rumor da sua possível contratação pelo Real Madri. Depois das palavras aluadas do prefeito sobre ‘o fim da bandidagem’ em Xapecó e dos vários comentários preconceituosos e bestas de alguns ‘jovens’ referindo-se ao povo indígena no face book do vereador Sergio Badá Badalotti, agora foi a vez (outra vez) do ex-comentarista da RBS. Essa afirmação que sugere que, para ser homem tem que ser isso ou aquilo, revela um outro lado da coisa. Esse determinismo, essa forma absoluta de afirmação, de um tipo de defesa de determinada conduta e/ou estética ‘correta’, geralmente é coisa de quem é enrustido. Aqueles que escondem o jogo, sabem? Tipo... ‘Sou muito macho!’, ou, ‘Odeio viado!’. Nesse tipo de afirmação-defesa-ataque, há algo velado. Um medo, uma tentativa de afastamento de algo que não se quer assumir. Quem já viu o filme ‘Beleza Americana’, no papel do pai ex-militar e a sua atitude no contexto da estória, sabe do que eu estou falando (quem não viu, eu indico). O que é ser homem? O que é ser ‘culturalmente inferior’? Ser homem ou ser mulher depende de algumas variantes, inclusive, é também uma construção histórica e esses conceitos não podem ser tratados assim, nesse discurso simplista e redutivista. Tem horas que boca fechada é sinal de prudência. Como cantou Baby Consuelo no tempo dos Novos Baianos: “O mal não é o que entra... é o que sai pela boca do homem!”.


Preconceito na rede

“Só se perdoa o diferente, pois se eu busco o semelhante, que pensa e age como eu, estou em busca de mim e não do outro”. (Jacques Derrida)

As redes sociais estão cheias de idiotas preconceituosos. Às vezes tenho até vergonha de sair pra rua e saber que parte dos que transitam são bestas ambulantes e que, como eu, são classificados de seres humanos. Navegava na internet em busca de pauta para um texto, especificamente no (al)face book, quando li nos comentários de um vereador local, manifestações de pessoas (na maioria jovens), sobre a questão da demarcação das terras para os indígenas aqui em Xapecó. Ser contra ou favorável, até aí, tudo bem - desde que se tenham argumentos fundamentados, sem ‘achismos’ ou preconceitos. O debate é sempre salutar quando é feito de maneira dialética. Mas, não é isso que acontece geralmente. A falta de conhecimento, somada a falta de bom senso e a estupidez, acaba gerando um ‘simplismo’ optativo que deságua na reprodução de valores imbecis. Alguns comentadores no face book do vereador em questão, falaram dos indígenas como estes fossem ET’s – sim senhoras e senhores, em pleno ano de 2011. Muitos ainda vomitaram conceitos, como o de ‘evolução’, sem contexto algum. Tipo, ‘precisamos evoluir!’, ou ‘índios querem terra, mas não querem trabalhar’, etc. - como se fosse simples assim. Como é difícil compreender uma cultura e aceitar as diferenças. Falta de estudo, estrada, experiência... e laço. Sim, falta de laço! O que esses pais fizeram (ou deixaram de fazer) para que essas criaturas com mentalidade retrógrada pensem dessa forma? Eu não sei. Não sei mesmo! Por isso preso pela desconstrução de determinados valores nas salas de aula. As crianças, sim, elas podem mudar isso, só elas. Mas é uma luta, ardente, ousada, daqueles que miram a transformação. Indígenas, bem antes de qualquer outro grupo social, já habitavam este chão. Ambos, indígenas e colonos, foram ludibriados, passados para trás, por uma elite coronelista-colonizadora, depois, comercial-industrial, lá no início, e com o aval da Igreja. Depois a coisa foi aparecendo, e hoje ainda, muitos pensam daquela forma. Num país de latifúndios e discriminações sócio-étnico-culturais, esses reprodutores que se manifestam em redes sociais de forma preconceituosa, deveriam ser banidos. Isso me dá motivos para ser favorável a um tipo de ‘limitação’ nestes meios...


sábado, 2 de julho de 2011

“Palavras da Salvação!” (ou O fim da bandidagem)

“Os bandidos terão que mudar de profissão ou mudar de região, porque aqui em Chapecó não tem mais lugar para bandido”. Não, não são minhas essas palavras douradas. Não tenho capacidade pra tanto (ainda bem!). Eu não sou bom em discursos. Essas palavras vieram do Sr. ‘nosso’ prefeito (talvez num momento de euforia devido à grandeza do empreendimento), segundo uma reportagem deste mesmo jornal (Voz do Oeste, 28 de junho, 2011. p.03). Portanto, antes que eu seja posto em dúvida, não estou inventando nada. Falando nisso... ‘Bandidos’... Quem são eles que não tem nomes nem rostos? Onde eles vivem? De onde vieram? Porque assim são chamados (ou se tornaram)? Uma raça? Uma etnia? Xapecó também é constituída e foi formada historicamente por bandidos – ou pela ‘bandidagem’. Me refiro aos que, no passado, usurparam caboclos e indígenas, expulsando esses povos das suas terras, corrompendo e/ou submetendo suas culturas a um conceito metafísico e fraudulento de ‘progresso’. Progresso capitalista. Progresso da ‘violência social’, da degradação do meio ambiente. Progresso material à custa de alguns grupos sociais. Belo progresso este! Ainda que o Sr. prefeito admitiu que ‘bandidagem’ é uma profissão. E, da forma que as coisas são, realmente é. Cobrar ‘boa conduta’ onde não existe certa ‘igualdade’ social, de condições e oportunidades, é uma piada – de mau gosto. Oportunidades! Sim, elas existem! Mas não são iguais – nem a pau! Dizer que pros ‘bandidos’, aqui na terra do ‘linchamento que muitos querem esquecer’ (outros nunca nem souberam), não tem mais lugar, é desconsiderar a própria história da cidade. Olhem em volta! Vocês acham que estamos vivendo aonde? Transferir o ‘problema’ para outras regiões, também não é algo estimável. O ‘problema’ é nosso, é daqui. Investimentos materiais vão realmente tornar Xapecó um paraíso da não criminalidade? Desculpem meu ceticismo, mas eu duvido! A ‘bandidagem’ não está separada da sociedade, ela é parte da nossa formação cultural e histórica, e está mais próxima de nós do que imaginamos. Em termos literários, nossos melhores personagens foram chamados de ‘bandidos’.


Ah! Esses ferrugens da moral...

Poderia falar de políticos e seus partidos como se fossem uma raça, citando genes e DNA, com o ‘espetacular’ sensacionalismo vicioso, como fazem alguns colunistas mundo a fora – ou Xapecó adentro. Poderia, com o olhar perpendicular, sempre ‘reto’ e vindo do lado masculino-patriarcal (ou machista, se preferirem), racionalizar a vida, como fazem alguns colunistas mundo a fora – ou Xapecó adentro. Poderia também, atuar como se fosse um bom conselheiro comportamental, dizendo pras meninas, por exemplo, como deve ser sua conduta sócio-cultural para que atinjam uma ‘boa vida’ ou o sucesso social e financeiro, como fazem alguns colunistas mundo a fora – ou Xapecó adentro. Poderia assim, ser medíocre. E talvez, até seja um pouco. Mas só um pouco. O problema é ‘os muitos’. Eles se proliferam por aí, em ‘alguns’ veículos de comunicação. Vivem de suposições e falácias, quando não, tentativas medonhas e frustradas de moralizar algo. São tão moralistas que só enxergam as suas supostas verdades, estacionadas, estagnadas, mortificadas, empoeiradas - fraudulentas. Baseiam-se em pesquisas tão fraudulentas quanto as suas verdades. Também, estão sempre atentos ao supérfluo - duvido que parem para pesquisar, ler, experimentar. São tão óbvios no que pensam! E quando ‘dizem’ ou escrevem, reproduzem, reforçam pré-conceitos e o ‘senso-comum’. Arautos da repetição. São tão desprezíveis aos olhos vivos do poeta que não se contenta com o pouco disso tudo. Eu, como uma bactéria, estou no mundo deles (mas não só eu). Pelo menos simbolicamente ou virtualmente, através dessas linhas mal traçadas que infectam, nem que seja minimamente, o ‘mundo da comunicação’. Informar é pouco. Muito pouco. Através de uma ‘pirotecnia da linguagem’, nestes textos doentios e cheios de curvas (que talvez não sirvam pra nada), eu reinvento um pouco do mundo. Um pouco. É o que me cabe. É o que eu tenho pra dar. Antes um ébrio do que um moralista! Os ‘consertadores do mundo’ escondem suas faces por detrás da moral. Não queiram vê-las assim como eu vejo. Vocês, certamente, perderão o sono.


segunda-feira, 27 de junho de 2011

Um quase cronista!



















Nada é eterno. Tudo passa. Tudo o que é sólido. A vida é um sopro – e ela só existe em termos físicos, materiais. Por isso amigo, viva agora! Não demore pra dizer qualquer coisa. Diga já. Antes que seja tarde e depois não dê mais tempo pra dizer. Uma besteira, bem grande. Qualquer coisa! Já falei. Diga, diga! Ainda há tempo... Ao contrário de L. C. Prates, não dou a mínima pra manuais de auto-ajuda. Prates era muito indignado na telinha, por isso, talvez, a auto-ajuda o faça bem. Às vezes atirava no escuro. Pegava pesado ‘com’ e ‘sem’ conhecimento dos fatos. E o bicho pegou. Não pela sua falta de conhecimento, mas pelo modo de dizer. Ouvi dizer. Também não sei. Não estou para ‘gorar’ o ex-comentarista da RBS. Falando nisso, Prates agora está sendo publicado em um jornal aqui da cidade. ‘Coisa de louco!’ como dizia um caboclo amigo meu. Bebia mate sentado na porta do rancho e largava suas críticas sem meias palavras. Eu só ouvia. Gostava da forma ‘não sensacionalista’ dos seus ataques verbais. Era um autêntico cronista. A diferença é que nunca esteve num veículo de comunicação (além de não ser sensacionalista). Não, não estou relacionando Prates com o sensacionalismo televisivo, isso é malícia da sua mente. É só uma crônica – de péssima qualidade, diga-se de passagem, (e sem humor algum), percebam! Mas preciso dizer antes que o sopro da vida se encerre. Por isso, digo agora, de forma crônica e antes que alguém bata na minha porta me oferecendo algum livro ou manual de auto-ajuda ou de alguma religião que prega a salvação da alma porque o corpo não interessa, antes do final do mundo, que pelos detritos do calendário maia, é no final do ano que vem. Que venha! Tá bom, tá bom seu José, não sou nenhum Prates ou um Arnaldo Jabor (ainda bem!). Nem mesmo um Xico Sá ou um Mirisola. Me conformo comigo mesmo, um homem interiorano que mal rabisca seus textos em troca de festas nutritivas e algum troco pro trago. Um maldito entre muitos benditos. Um pervertido entre muitos puros. Um errante entre muitos moralistas. Tudo isso e muito mais. Não nego. A vida é curta demais pra que eu me explique, portanto, encaro os fatos. Economizo tempo não tentando me justificar. Coitado de mim! Enfim... Isso é o mais próximo que eu já cheguei de um texto de auto-ajuda. Estou aprendendo! Aos poucos, aos poucos...

Bang-Bang!

Histórias do Velho Oeste: Anunciação...

No começo, eram índios e caboclos, os nativos desta terra. Naquele tempo já não havia lei, mas havia certo respeito. Os índios caçavam e plantavam. Os caboclos plantavam e caçavam. Cada um na sua. Até se davam bem quando se encontravam. Claro que, volta e meia, uma peleia acontecia. Meu avô sabia disso tudo, pois viveu o final desse tempo. Mas como as coisas mudam, o tempo passou e as coisas mudaram. Meu avô viu seu pai ser expulso da terra e os índios serem maltratados, usurpados, explorados, mortos. Plantava e colhia erva mate. Lidava um pouco com gado. Mais pra lavrar a terra mesmo. Minha avó na lavoura: mandioca, batata, feijão, etc., etc. Dava pra viver, e bem! Mas eles chegaram. Trouxeram consigo a ganância. Uma promessa de terra fértil, solo rico: ouro, prata e diamante. E isso era verdade - tirando o ouro, a prata e o diamante. Não julgo os imigrantes pobres por isso. Julgo sim, os ricos colonizadores e suas ambições. A mentira das companhias colonizadoras para invadir e cercar o espaço que agora é totalmente privado. E os índios e os caboclos ficaram na saudade. Quando criança eu passei fome. Quando criança eu passei sede. Mas meus pais, que muitas vezes deixaram de comer e beber, não deixaram que eu sucumbisse no tempo. E eu cresci. E eu me tornei homem criado. Pêlo duro e temperamento indomado. Recebi um legado como herança. Tá no sangue. Tá na alma e em alguma cicatriz que ficou do meu tempo de guri. Um homem como eu, e que passa seus dias no Velho Oeste, precisa de três coisas na vida: uma boa montaria e um bom e verdadeiro amigo. No caso, um cavalo e um cachorro. A terceira e última: um bom pau de fogo. Isso mesmo, uma arma, um revólver. Sem isso fica difícil sobreviver. Sim, sobreviver! Porque aqui ninguém vive. Coronéis e as famílias que circulam em torno destes - como moscas varejeiras em torno da carniça - depois de sacanearem valendo os índios e caboclos, de enganarem os imigrantes mais pobres, criaram um mundo que é só pra eles, com porteiras e aramados, capangas e excessos. O que eles não sabem, é que isso tudo não dura pra sempre. Muitos, assim como eu, são herdeiros do passado e estamos aqui, no presente, bem debaixo de seus narizes, quase invisíveis e prontos para a peleia.


Histórias do Velho Oeste VII, o baile

Meus olhos entupidos de poeira. Não via dois palmos a frente. “Estou morto!”, pensei. Todas as pessoas do salão me olhavam com espanto. Não haveria de ser diferente, o baile fora interrompido por minha causa. Marieta observava tranquilamente o baile nas costas de Jordanio, aquele almofadinha, filho de papai e mamãe, donos de terras aqui aos arredores, madeireiras e membros da elite local. Eu, um mero forasteiro com lenço – vermelho - mas sem documento, suspeito de alguns incêndios na cidade, cheguei ao baile com a única intenção de me divertir um pouco. Mas um caboclo estrangeiro, estranho e suspeito num baile familiar, onde se concentra todo o poder em sobrenomes, só poderia dar no que deu. Logo que entrei porta adentro, percebi que pisei em terreno inóspito. Me danei! Mas já era tarde pra voltar atrás, e já que estava lá dentro com todos os olhos me mirando, resolvi ficar. Não teve jeito. Fiz a besteira de ir até aquela reunião de coronéis e seus agregados e submetidos. Estava feito... “Quem entra num baile tem que dançar!”, já dizia meu velho pai, caudilho de marca maior. Mirei a prenda mais bonita do salão e fui me chegando, devagarzinho. Marieta era filha de um bolicheiro braço direito de um coronel. Tomei uns tragos pra deixar de lado qualquer paranóia e me despenhei na empreitada. “Com licença moça! Aceita dançar esta marca comigo?”. Marieta arregalou seus grandes olhos verdes e sua pele assumiu um tom pálido a deixando ainda mais bela. Não percebi que a moça estava acompanhada quando fiz este gesto. Jordanio que estava logo atrás de Marieta, tomava sua cerveja numa roda de amigos, todos muito bem trajados e com ares de superioridade militar. Percebi o erro, mas não retrocedi. O semblante indeciso de Marieta assumiu um misto de desespero e simpatia. Um meio sorriso da moça pra mim foi o suficiente para fazer Jordanio perder as estribeiras. Virou-se num só pulo já sacando da sua faca de prata. Mas ele não esperava que eu fosse mais rápido e que minha adaga fosse mais precisa. Antes mesmo que ele me cutucasse, enfiei a adaga no pulmão do bicho. Uma poça de sangue se formou bem na frente de Marieta, que sem reação alguma parecia me agradecer com seu silêncio gritante...

Continua...