sexta-feira, 8 de junho de 2012

Sobre fragmentação & práticas...

 

 

Este é o título de uma série de livros que eu conheci com as crianças. Algumas das minhas alunas (as de 10 a 12 anos de idade), na verdade. Um livro de literatura e ilustração infanto-juvenil (mas que também serve para adultos – muito mais literário e criativo do que muito romance por aí), do escritor e ilustrador estadunidense Jim Benton (mas poderia ser Tim Burton). Nessa série, a personagem central é Jamie Kelly, uma menina que mora com sua mãe, uma péssima cozinheira, seu pai e seu cachorro Fedido. A trama contém vários outros personagens. Nela se abordam temas ‘corriqueiros’ do dia a dia, como numa novela, onde, muitas vezes a mesquinharia ou a mediocridade, as intrigas pessoais, são o mote das ‘estórias’, mas de uma forma criativa, bem humorada, recheadas de ironia e/ou sarcasmo, diferente muitas vezes da ‘vida real’. A diferença toda quem faz, neste caso, é a abordagem e a forma e uso da linguagem. O autor cria suas ‘estórias’ inteligentemente, onde, no fim, existe certa crítica ao cotidiano familiar, escolar e social. Questão cultural e de posicionamento. Da mesma forma que esses livros parecem uma reprodução de valores individuais de uma sociedade industrial, utilitarista, reducionista, determinista, onde seus agentes, quando não pregam, pensam de forma fragmentada e praticam a ‘politicagem’ (seja ela ideológica ou filosófica), eles também, através da sátira, questionam e/ou criticam essa mesma ‘norma’ social, ou seja, este andamento cultural cotidiano que prevalece na sociedade contemporânea. Valores daquilo que alguns marxistas e afins, convencionaram chamar de ‘individualismo pequeno burguês’, coisa típica da dita ‘classe média’, que se vê refletida no modelo de vida ‘burguês’, rico ou da ‘classe alta’, como preferirem, passando a reproduzi-los e legitimá-los, em concepções e práticas. Mas as crianças, um pouco ‘selvagens’ ainda (leia-se as ‘Crianças Selvagens’ de Hakim Bey), ainda não ‘viciadas’ nessa ‘reprodução’, não obedientes totalmente a essa prática cultural, conseguem resistir frente a isso - enquanto o mundo adulto - e seus adultos, com suas pretensões intelectuais e/ou de ordem moral, caem direitinho na armadilha e tornam-se, muitas vezes, criaturas mesquinhas, alimentando a mediocridade que envolve a sociedade. Referente a este assunto, não precisamos ir muito longe. Hoje, a ‘globalização’ também se faz na comunicação, ou na troca (ou imposição) de informações, sob tudo pela internet, principalmente pelas redes sociais (leia-se facebook), e as distâncias se encurtam. O uso dessa ‘ferramenta’ (internet/rede social), pode gerar possibilidades, ampliar o pensamento e conhecimento sobe as coisas, sobre o mundo, pode socializar e/ou democratizar a informação, tornando-a livre, como acontece em alguns aspectos, mas também pode fragmentar ainda mais as informações, o pensamento, as ações. Salvo as crianças e algum idoso que, por acaso participe da rede, os demais (incluí-se aqui, jovens e adultos), precisam praticar o bom senso e certa prudência quanto ao uso deste ‘instrumento’ ou ferramenta. Mas acontece de algumas criaturas sem muita noção do medíocre, da vulgaridade ou banalidade no uso da informação-comunicação, saem pelo mundo virtual distribuindo suas mágoas, dores, frustrações, como se estivessem deitados num divã. Geralmente esbarram em questões em que mal conseguem pensar sobre elas, porém, movidos por uma petulância na falta de bom senso, acabam por tornarem-se agressivos (pior, numa agressividade sem inteligência, pois com ‘inteligência’, muito do que é agressivo em seu interior, torna-se, potencial ‘crítico’ e desconstrução). Para que isso aconteça, deve-se contar com o bom uso da linguagem - e a linguagem é uma via perigosa. Portanto, quem faz uso de certas armas deve ter o cuidado (a prudência) de saber para que lado faz alvo e no que atira. É muito comum o tiro sair pela culatra. Nisso, não canso de me deparar com sujeitos que entram em algum assunto exteriorizando suas mediocridades, suas frustrações, sua ignorância. Estúpidos! Acabam por somar na fragmentação das idéias, da informação e da comunicação. Acabam por se tornarem reprodutores da banalidade. E antes que me interpretem mal ou desvirtuem o que está sendo dito, não estou dizendo aqui que todos tenham que ser teóricos ou intelectuais na hora de adentrar em algum debate ou escrever e publicar certas coisas na net, mas, no mínimo, ter certa cautela, bom senso, certa prudência e conhecimento do que se está abordando, defendendo ou atacando, além de estar um pouco ligado na forma, modo e conceitos que utiliza, para não cair em armadilhas da linguagem. Quem vai com muita sede ao pote pode acabar se afogando. Por isso, como diria Nietzsche: ‘E quem hoje ri melhor, também ri por último’.



As palavras ecoam
A teoria do Caos não escolhe vítimas – são elas que escolhem a si próprias
Levemos em consideração a teoria do Caos, onde ‘as palavras ecoam’. Quem consegue perceber isso e passa a considerar essa percepção, esse conhecimento, também passa a agir com certa consciência de si, do espaço e do outro, e isso é um tipo de inteligência que devemos praticar – ou incluir nas nossas práticas cotidianas, em outras palavras, a ‘coerência’. Muito da prática filosófica se tornou segmentarismo e determinismo devido a fragmentação do pensamento. O idealismo platônico nos diz: ‘Quanto mais o conhecimento é abstrato, maior ele é’, e a influência deste pensamento marca a produção de conhecimento na história da humanidade (a partir dele). Segundo a filósofa Viviane Mosé, o idealismo platônico afirma que ‘quanto mais o conhecimento é abstrato, distante do movimento da vida, quanto mais ele é distante dos corpos, dos processos, maior ele é’, e isso deságua na valorização da idéia e não da vida – caracterizando a abstração do pensamento: Eis o idealismo! Esse processo de abstração do pensamento na sociedade (assim como em determinados espaços de leitura e afins) que privilegia a palavra, acaba ‘mediocrizando’ o pensamento em si, ou seja, a própria filosofia. É preciso perceber o todo para evitar cair em discursos medíocres – e esse é um ato de prudência e de inteligência. A reprodução de valores e ‘verdades’ ideológicas se dá nos discursos, geralmente em formas de texto e idéias vulgarizadas pela sujeição do ‘todo’ ao ‘particular’, reproduzidas em diferentes espaços: televisão, rádios, revistas, jornais, redes sociais, blogs e afins.



O lugar da pseudo-filosofia – ou da fragmentação filosófica
















Os que habitam o mundo ideal não percebem a guerra que há aqui fora
Negar a aplicação do pensamento, das experiências nos espaços abertos e propícios a isso, tendo em vista a noção do todo, afastando o pensamento e a teoria ou o debate filosófico da realidade cotidiana, do dia a dia, é admitir a existência de uma ‘superioridade’ de pensamento, ou seja, uma divinização do lugar do pensar e do pensador, como bem entendia Platão. Uma das problemáticas a enfrentar no contemporâneo, é justamente a fragmentação do pensamento, das idéias. É preciso retomar o pensamento, o conhecimento, como algo ‘universal’ (mas não generalizante – há uma diferença nisso). Para isso, são imprescindíveis as referências ou a soma dos conhecimentos e leituras de mundo adquiridos no caminho e pelo tempo. O pensador contemporâneo Hakim Bey nos fala do uso dos conhecimentos passados e contemporâneos, como uma forma de política (ou como posição), ou seja, na eleição daquilo que é coerente com cada situação e a forma que isso pode ser usado na desconstrução dos determinismos e na destruição dos reducionismos que amesquinham a razão, a sensibilidade e a realidade. O corpo sócio-cultural deve ser visto como um todo e não como partes separadas. O pensamento fragmentado, particularizado é um pensamento fabril, ou seja, como se vivêssemos numa fábrica onde cada parte é dissociada da outra, sendo que, o mundo é um complexo de valores e diversidades. Portanto, cabe ao pensador, ao filósofo hoje, transcender a abstração da realidade. Cabe a ele(s), trazer, como assim fizeram alguns filósofos, o pensamento, as idéias, a filosofia, ao mundo físico-material-real, ao cotidiano, ao dia a dia. O idealismo platônico tem mais presença no pensamento do que a crítica a ele próprio, e, percebendo ou não, muitos reproduzem essa via, essa prática. Então, é uma questão ‘política’ a nível de pensamento e prática desconstruir essa ‘realidade’. É preciso, como querem alguns pensadores, retomar a filosofia, ou seja, o pensamento do todo, e superar essa fragmentação em partículas isoladas do saber. O saber não pode estar submetido a mesquinhez do particular, do privado. O saber só tem sentido quando objeto da alegria, da felicidade humana.  E como bem anotou Thoreau: ‘A felicidade só existe quando compartilhada’.



Subestimando o outro: prática comum de rebanho

Em 3 semanas, foram 4 pessoas do mesmo ciclo de ‘amizades’ ou interesses, que me vieram testar-desafiar-aporrinhar. Mas eu, como alguém calejado de estrada, já que não nasci ontem e desde novo ascendi para as possibilidades, andei todo esse tempo recolhendo inutilidades pelo caminho, incertezas, peças interessantes para minha própria construção – e ainda não estou acabado, tenho a consciência, muito pelo contrário, a cada passo dado um novo aprendizado, um novo conhecimento.  A questão é que, por eu ser alguém ‘disposto’ ao novo (e ao velho), às diferenças e transformações, por eu chegar ao ponto de poder optar e escolher algumas das minhas práticas sócio-culturais, e assim, devido as escolhas, naturalmente, ter certas posições, sendo um ser político e não territorializado (leia-se política além do conceito predominante, vulgar e institucional), assim me tornar um ‘homem de guerra’ (fazendo jus ao meu nome e sua constituição) e não um passivo espectador e/ou idealista da fragmentação do pensamento, muitos me vêem como um radical. Pois bem, admito, sou um. Mas radical, longe de ser sinônimo de intolerante ou fundamentalista. Portanto senhores, não confundam as coisas. Radical vem de raiz. E eu, como ‘um radical’, parto, muitas vezes, das raízes das coisas – ou no mínimo, as considero. De que serve a leitura (leia-se leitura aqui como uma prática ou experiência, uma visão, audição, olfato e paladar, além dos olhos percorrerem as linhas em publicações – ler-se a si e ao mundo) se não utilizada para o compartilhamento com o outro e o mundo? E é simplesmente isso que faço em meus textos, assim como, quando subo em algum palco para, com a banda tocar, comunicar, interagir com os demais, expressar – trabalhando e usando certa linguagem para isso. É o mesmo em sala de aula e, até mesmo, num bate papo despretensioso de bar. O pensamento individualista de superego, neste caso, não cabe e nem vem de mim, mas talvez da cabeça - e pela visão habituada - dos que antecipam o conhecimento sobre o que vêem e pensam que eu represento. Estou além da representação, tenham certeza. Aliás, todos estamos. Não se pode deixar-se guiar simplesmente pela ‘aparência’, ou pelo ‘eu acho’, muito menos pela influência de terceiros, principalmente daqueles que mal se conhecem - quem dirá conhecer os outros. Há muitos ‘faladores’ por aí, e ‘alguns’ comunicadores, inclusive na internet. Alguns, hoje amigos e/ou conhecidos, também, antes mesmo de me conhecerem, devido as minhas posições-exposições públicas, ou devido a rumores de terceiros, achavam que eu era ‘assim-assado’. Mas, bastou uma conversa, uma troca de palavras e idéias, para que a ‘percepção’ mudasse. Hoje conto com muito desses no meu ciclo de amizades e afins – as afinidades juntam as pessoas para algumas práticas sócio-culturais que acabam em bons resultados. Mas outros vieram, e antes mesmo de realmente saberem, já caíram em ‘achismos’ e reproduções, subestimando este escriba que voz fala. E eu não suporto muito os que subestimam. Para estes, sempre tenho palavras a dar – ou um silêncio mais perturbador do que qualquer termo que se use-aplique. E foi isso que aconteceu. Adquiri o respeito dos mais prudentes ou coerentes e uma maior dificuldade de relacionamento por parte dos mais egocêntricos que não baixam a guarda pra nada, talvez por medo de serem reconhecidas as suas fraquezas. Isso não seria um problema. Mas algumas pessoas preferem a vida nas sombras, sempre se esquivando da realidade, dos outros e de si mesmas. Pedem conforto e proteção, e o medo as assola os dias. Pobres criaturas! Mas não é com pena que se resolvem essas situações. Talvez com algum tratamento psicológico ou com o tempo mesmo. Uma superdose de estrada sempre ajuda nessas chancelas. Algumas abordagens foram muito interrogativas. Perguntas e mais perguntas. Sobre a minha pessoa, minha relação com o meio e com as coisas, com as pessoas, com o mundo. Meu pensamento (e isso me deixou ainda mais certificado – eu penso! Hehe!). Outras, com um tom de ameaça. Dessas eu acabei rindo, pois o medo não estava em mim e sim no tom do outro. No fim, acabei tirando tudo de letra, não levando tão a sério esse tipo de teste. Isso representa o quão nossa organização social carece de fundamento, e o quanto o idealismo platônico gerencia a cabeça de certas pessoas. Muitos são habituados a seguir, ou seja, escolhem um líder e um ou mais inimigos ou alvos. Passam a ser porta-vozes e/ou representantes desse líder numa guerra imaginária entre dois lados, sendo que a guerra acontece em outro âmbito, bem maior, que, diga-se de passagem, está muito além do individual-pessoal. O problema é perceberem isso. E essa diferença transparece geralmente nas produções. Textos e suas fundamentações, argumentos, coerências ou não, mostram esse embate, essa diferença toda em ‘pensar o mundo’ e a ‘si próprio’. Veremos adiante, brevemente – e didaticamente, um pouco do que me refiro.


O Espelho – ou, o inferno são os outros


"A maioria dos homens vive uma existência de tranquilo desespero." H. D. Thoreau

‘O Espelho’ é um belo filme, poético-literário, psicológico e com um magnífico trabalho fotográfico, de um dos grandes diretores do cinema-arte, o russo Andrei Tarkovsky. O espelho a que me refiro tem haver com o filme, mas não é dele que vamos tratar agora. Não será preciso citar Freud, nem seu discípulo Lacan, ou qualquer outro psicanalista para adentrar no tema pelo menos. Sejamos diretos e enxutos na linguagem e tratamento do assunto – mas não incoerentes ou imprudentes.  Pensando a questão e forma mais ‘analítica’ e ligando o tema ao texto anterior, chegamos ao individualismo (do tipo ‘pequeno burguês’ como o querem os marxistas) como prática sócio-cultural, assim como, a tomada de partido pessoal, ou a ação ‘pessoalista’ de caráter reducionista-determinista, referente a debates que deveriam partir do local para o todo ou vice-verso – prática típica da sociedade utilitarista fabril e o pensamento que a segue (‘filosofia’ fragmentária). Em psicologia se usa o termo ‘projeção’, que neste caso significa atribuir ao outro aquilo que queremos que ele tenha, tanto em qualidades que não possuímos, como os defeitos que temos e não sabemos lidar ou não podemos suportar. Sem perceber, ou devido a algum trauma ou frustração, muitas pessoas tornam a projetar seus sonhos e pesadelos nas costas dos outros: são os pais que desejam os filhos como eles; o sujeito que vê no outro o que gostaria de ser, ou deseja a vida do outro pra si, etc. Fazer com que o outro seja o nosso espelho é viver parcialmente. Em função de um sentimento de inveja, ou devido a transferências de suas frustrações ao outro, muitas pessoas comentem verdadeiros equívocos, quando não passam a pensar e atuar de forma mesquinha e com uma ira profunda contra o outro, si mesmo e o mundo – o que muitos chamam ‘rebeldia sem causa’, onde se perde o foco, a abrangência do olhar e do pensamento, transformando-se em algo fragmentário, direcionado e pessoal. Uma possível ‘solução’ para este problema de ordem psicológica, social e cultural, ma também ‘conceitual-teórica’, seria "virar o espelho" para a própria direção e perguntar se a crítica feita de forma leviana não se encaixa a si próprio: Será que aquilo que não nos agrada no outro ou suas práticas, não seria algo que gostaríamos de ter/fazer e não temos/fazemos? Não adianta simplesmente "quebrar o espelho" que reflete nossos defeitos ou fraquezas. É necessário aqui um ajuste de auto-estima, e o primeiro e primordial passo para a superação de si, neste caso, é assumir-se, e não direcionar ou transferir ao outro suas próprias faltas – no caso, largar as muletas. Nisso também reside uma questão de ética. Mas não aquela ética comumente pensada, onde se age simplesmente movido por uma regra de conduta ou moral. Mas a ética dentro da coerência: conhecimento/saber-pensamento-ato. Nisso, faço das palavras da filósofa Viviane Mosé, as minhas: ‘Ético, é o ser humano que entende, que cada gesto dele tem um desdobramento infinito’ (leia-se teoria do Caos), ‘e que esse desdobramento vai, em algum momento, recair sobre ele’.  ‘Ético, portanto, é o ser humano que entende que não há nada isolado, e que por isso, presta atenção nas pequenas coisas’ – complemento: ‘e passa assim, a não mais subestimar o outro’.

hgs.




domingo, 3 de junho de 2012

Um abraço nas possibilidades

Essas contradições! Elas nos pegam de surpresa. Mas, uma contradiçãozinha de vez em quando, pode servir como geradora de possibilidades - quando essa é proposital, é claro! E o mundo virtual da internet, do (al)face book está cheio delas. Pior que uma contradição mal dada, só uma incoerência. Falta de cautela nas publicações e/ou postagens? Ou falta de conhecimento mesmo? Fato: falta de fundamentação, argumentação e reflexão sobre as temáticas tratadas, publicadas ou postadas. O excesso de informações e o modo medíocre com elas se propagam, acabam gerando um problema de comunicação. Algumas ‘verdades’ assim são exteriorizadas, baseadas em velhos, redundantes e passados conceitos. Projetam-se mundos e ‘verdades’ ideais, que são compartilhados devido às velhas crenças, aos velhos ‘conhecimentos’ (ou a falta deles!). Muito discurso, muita reprodução. Valores estacionados no tempo que predominam sobre a desconstrução deles, dos conceitos, das formas e modos de (des)construir o pensamento. A história é feita de versões dos fatos e não de ‘verdades’. Se se busca ‘verdade’, isso não significa que, necessariamente, elas existam. E o historiador, tanto como o filósofo, deve saber disso, e a partir disso, buscar seus caminhos enquanto ‘pesquisador’ e ‘pensador’. O cidadão ou indivíduo, independente do que seja ou de sua função na sociedade, também tem seu conhecimento. Todos tem. Porém, também, todos precisam atentar para ele – o conhecimento – para que ele não se torne ‘verdade’, ou, em outras palavras, ‘determinismo’. A verdade pode ser tão subjetiva quanto à existência do diabo, e o determinismo acaba em imposição de valores, culturas, pensamentos, uns sobre os outros, o que, por sua vez, acaba dando a ‘direção’ da sociedade e seus ‘saberes’. Por isso é que, às vezes, acabamos por reproduzir vulgarmente idéias, conceitos e ideais que acabam refletindo em práticas. Sofremos no contemporâneo, a fragmentação do conhecimento e, conseqüentemente, a fragmentação do pensamento.  É preciso voltar a olhar o mundo de forma abrangente, com grandiosidade e não reducionismos. Um bom observador, um bom pensador que analisa e percebe o mundo a sua volta, com todas as suas diversidades, é um ser sensível, que munido de referências variadas, acaba por relacioná-las entre si e com o meio, e a partir disso, passa a viver mais intensamente os momentos. Isso é ter consciência histórica e de si e certo conhecimento do seu meio, além de ter uma boa relação com o outro.  Na atualidade lidamos com algo nunca experimentado antes, ou seja, a variedade e ‘democratização’ das informações através da internet. Então, façamos um uso, no mínimo, interessante disso. As possibilidades estão aí, basta que as abracemos com vontade.



quinta-feira, 24 de maio de 2012

Um poema feito na rua...

















A visão em vermelho

...e ela via o mundo com os olhos mais embaçados que os meus.
Sorriso largo na boca ensebada. Aroma de carne viva na rua.
Quadris disformes nos passos descompassados. E eu a amava.
Em meu peito eu cravava esperanças.
Um verme mais querido do que qualquer santidade. Divino e vulgar.
Como eu gostaria de beijar aquele ventre dilatado
De tanta fúria, de tanto fazer.
O trabalho na rua só a tornava mais pura pra mim.
O vermelho do batom gasto, o verme-vermelho do sangue sujo.
E eu a amava.
Fazia versos, canções absurdas pintadas em muros quase verdes de limbo.
Enquanto um e outro a passava
Eu no meu canto só querendo
Covarde, estúpido, quase morto.
Verme de verso imundo nunca enxergava direito.
Eu, só eu. Sonhava dançando dentro daquela boca melada
Que cheirava a pileque de vodka barata, e continuava...

...e ela via o mundo com os olhos mais embaçados que os meus.




sexta-feira, 18 de maio de 2012

Da escola de guerra da vida *

Depois de algum tempo da minha saída um pouco ‘polêmica’ (ou polemizada?) do jornal Voz do Oeste, onde eu era cronista diário, por motivos ‘obscuros’ de cunho político, eu, enquanto cronista em páginas de jornais impressos, estou de volta. Aqueles que exerceram pressão sobre o jornal onde eu publicava, por interesses ou por não respeitarem nem entenderem de crônica e do livre exercício da linguagem, muito menos de ‘liberdade de expressão’, seja por um moralismo imbecil contra a forma dos textos e suas linguagens ou por não tolerarem críticas, considerações e/ou impressões sobre determinados temas e situações na cidade de Xapecó (falta bom senso e certa ‘elegância’ humana, certa flexibilidade e tolerância quanto a argumentos ou opiniões – fundamentadas, diga-se de passagem – da parte de alguns que se acham ‘donos’ de uma verdade única e absoluta), de certa forma, contribuíram muito para meu fortalecimento, pois, como diria o velho e sempre novo pensador alemão Friedrich Nietzsche: ‘O que não me mata me torna mais forte’ - e eu, vivo, volto com força e vontade e alegria criadora (contratado) para as páginas de outro jornal. Só que desta vez, ao invés de serem textos diários, serão semanais, já que o jornal é publicado toda sexta-feira (Ufa!). Trata-se do jornal Folha do Bairro, um dos mais lidos da cidade, editado no maior bairro de Xapecó, também chamado de ‘o grande bairro Efapi’.  É possível que um ou dois desafetos (como já acontecera), retorcidos nas suas frustrações, voltem a desabafarem seus prantos sobre este escriba que lhes convida ao diálogo e a leitura, mas isso não é relevante - só para constar. Enfim, semanalmente estarei no Folha do Bairro com minhas crônicas cotidianas, algo em prosa e poema, entre outras ‘maldições literárias’. Como diria um velho combatente: ‘ou você ocupa os espaços, ou deixa que os espaços lhe ocupem’. Escolho a primeira opção. E cá estou. De pé, me divertindo (pois fazer o que se gosta é divertido), e gerando certo movimento. É isso.

“Que importa que eu acabe por ter razão! Eu tenho razão demais. – E quem hoje ri melhor, também ri por último”. (Crepúsculo dos ídolos – Nietzsche).


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1º Ato:


Antes de mais nada...

       Hoje não é uma data comemorativa. Não é feriado nem dia santo: nem Páscoa, nem aniversário do município ou Natal, nada disso. Hoje é um dia destes comuns que acontece em qualquer semana, e eu passo a fazer parte deste veículo de comunicação. Estou contente, pois gosto e necessito escrever. O jornal me chamou para publicar minhas crônicas nele e cá estou eu - novamente! 
       Olá! Me chamo Herman, nome de identidade, provavelmente dado pelos meus pais.  Sou professor de História, Filosofia, Linguagem, Redação e Geografia em escola(s) aqui da cidade; também de Literatura e Construção Textual em cursos e oficinas – caso alguém me chame pra isso. Além disso, sou compositor e guitarrista da banda de rock ‘Epopeia’, também aqui de Xapecó, e assessor do Sinproeste (Sindicato dos Professores - da Rede Privada de Ensino - da Região Oeste de Santa Catarina). Gosto de literatura e poesia, cinema e fotografia, vinho e gastronomia. Escrevo, ou pelo menos tento. Alguns dizem que cometo atentados à pretensa dita ‘boa literatura’, mas penso que isso seja só intriga da oposição. Me arrisco na poesia, prosa e nisso (a crônica). Acho que meu cachorro pensa que eu sou o melhor escritor do bairro, pois geralmente, quando estou escrevendo, ele deita aos meus pés e fica por ali, olfatório me observando. De minha parte, creio que eu seja o melhor escritor da rua (se bem que eu nunca li ninguém aqui por perto). Peguei gosto pela escrita lendo. Os donos da escrita técnica, formal e/ou culta, os fiéis puritanos da gramática, que me desculpem, pois, erros tolos (impercebíveis ou não), outros intencionais, alguns até estridentes, acontecerão neste espaço, certamente. Portanto, já estão avisados – ‘a prevenção é sempre um ato de prudência’ - e estou tentando sê-lo (um prudente). Mas é aquela coisa, aquele chavão que diz que ‘quem sai na chuva é pra se molhar’ – e eu adoro chuva! Pretendo aqui, fazer o uso livre - e caótico, da linguagem escrita, um pouco próxima a da falada, pois, além de trabalho, necessidade e livre expressão, além de gosto ou paixão, faço da crônica um exercício de escrita para mim e de tolerância, reflexão e diversão para os leitores. Já escrevi e publiquei em alguns muitos veículos de comunicação por aí – e escrever é isso, um risco. Um caso de amor e ódio, coerência e contradição. Pode ser um começo, mas nunca um fim. Portanto leitores, cá estou, sintam-se a vontade para um diálogo - deixo minhas linhas para suas apreciações. Me sinto bem vindo. Obrigado!

Folha do Bairro - 18/05/2012


Herman G. Silvani




segunda-feira, 7 de maio de 2012

Análise sócio-histórica do contexto sócio-político mundial – ontem e hoje

...ou, simplesmente um blefe delirante de linguagem para além do racionalismo cientificista de ordem utilitarista cartesiana, e da moral judaico-cristã




O mundo da tradição política institucional-oficial ainda respira. Mas muito do que era pulmão agora é bolsa de ar. Ofegante, mas respira. Nos EUA, Obama, o primeiro presidente negro (ou afrodescendente) do país, com suaves passos na religião e cultura muçulmana, entra de corpo e alma no liberalismo contemporâneo. No Brasil, guardadas as devidas proporções, acontece algo semelhante. Dilma, a primeira ‘presidenta’ (ou presidente) mulher da história, também caminha com suaves passos, mas só que, ao invés da relação com a cultura muçulmana, aqui é com as concepções atuais da esquerda marxista. Enquanto isso, a China dita ‘comunista’, resplandece aos olhos do mundo globalizado com seu Estado ‘socialista-capitalista-imperial’ forte. Um misto de economia planificada social, exorbitantes lucros com ascensão econômica e tradições milenares enraizadas (culturalmente falando). Na Grécia, cadeiras do parlamento divididas entre ‘socialistas’, ‘sociais democratas’ (nova democracia – com maquiagem e perfume novo) e, surpresa! Os conservadores de extrema direita: ‘neonazistas’. Agora é a luta para um governo de coalizão (ou colisão? – devido as divergências ideológicas, seguindo uma lógica – que nem sempre existe e/ou funciona - ta mais pra isso!). Já na Europa, a França acaba de passar por uma eleição que derruba Nicolas Sarkozy, representante da Social Democracia ‘a la francesa’, que acaba substituído no poder por François Hollande, do partido socialista. Um novo desenho para um ‘novo mundo’. Quer dizer, não tão novo...



“No edifício do pensamento não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça. Em contrapartida, que belo travesseiro é o Caos!” (Emil Cioran)

A velha Grécia que nos deixou de herança a filosofia (além do culto ao corpo), principalmente com o ‘triunvirato’ da antiguidade clássica: Sócrates, Platão e Aristóteles (praticamente um suposto trio de mafiosos da razão – ou suposta razão), e que ‘inventou’ a política e o modo de pensar nos moldes ocidentais que a gente conhece, e de certo modo, ainda segue até hoje - já não sabe encontrar o caminho para sua ‘salvação’, principalmente econômica (até a velha nação desses três ‘grandes pensadores’ rendeu-se ao capitalismo liberal e a social democracia ‘a la francesa’ - e a contradição disso tudo preconizada pelo velho comunista Karl Marx). Nisso tudo, historicamente falando, podemos organizar cronologicamente uma sucessão de fatos que nos trouxeram até os dias atuais, com todos os vícios, crenças, ideais, medos, modos e práticas muito presentes e que se mantém em vida ativa hoje, aqui e agora. Começamos pelo ‘banimento’ ou tentativa disso (pode ser também, maldição) da filosofia pré-socrática. Na Idade Média, também chamada ‘Idade das Trevas’, onde o conhecimento humano (filosófico-científico-racional) era ‘proibido’ (entre muitas outras proibições), restaram apenas algumas fagulhas literárias e filosóficas da antiguidade, geralmente contidas (porém, utilizadas) pela Igreja e pelo ‘poder real’. Depois absorvidas pelos filósofos da Igreja, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino (leia-se Escolástica), e transformadas em direção e/ou apontamentos cristãos. Para o filólogo-filósofo alemão Friedrich Nietzsche, Platão é um exemplo de pensador ‘pré-cristão’: “(...) o conceito de ‘bom’ já é seu conceito supremo -, que gostaria de aplicar a todo o fenômeno Platão, antes de qualquer outra, a dura expressão ‘patranha superior’ – ou, caso preferirem, idealismo”. Mas foi com a Reforma Protestante de Martinho Lutero que as coisas começaram a se encontrar. Ou seja, podemos traçar um perfil, espécie de linha do tempo, apontando os caminhos para se chegar mais precisamente aos dias atuais, no que diz respeito aos pensamentos, crenças, ideologias, valores e moral. Depois da expansão das novas idéias cristãs (leia-se protestantes), frente ao conservadorismo tirano do catolicismo medieval, já com a burguesia liberada da sua ‘pena eterna’, podendo atuar de forma mais livre nos rumos da sociedade e cultura, inclusive da política e principalmente economia, com a decadência do feudalismo e todo aquele contexto ‘sagrado’ do período medieval, é que vem o Renascimento em busca dos valores greco-romanos deixados para trás, lá na antiguidade clássica, inclusive o pensamento, ou seja, a filosofia. Um desses valores é o Humanismo que, além de ser corrente na Grécia antiga, também foi profetizado por ícones religiosos como o próprio Cristo – cada qual com sua peculiaridade, mas ambos tendo no homem, no ser humano, um motivo para a mudança de cenário. Com as Cruzadas e o claro interesse católico-cristão de tomar a cidade sagrada de Jerusalém, disseminar a fé católica e impedir o avanço do protestantismo pelo mundo, os cristãos puderam entrar em contato com a cultura muçulmana, e através dela, abrir-se mais para a ciência e o pensamento filosófico. Foi com os muçulmanos que os cristãos tiveram acesso a filosofia grega. Nisso, a alta burguesia, a maçonaria e os cavaleiros medievais, passaram a ter forte influência dessa filosofia. Então veio a Contra-Reforma católica e a fusão desses elementos e contextos, deu a luz às trevas. A Idade Média, definitivamente estaria encerrada. Mas, muito do pensamento, crenças e algumas práticas medievais, persistem ainda hoje.



“A quem lhes despedaça as tábuas de valores, ao infrator, ao destruidor. É este, porém, o criador”. (Assim falou Zaratustra – Nietzsche)

O racionalista René Descartes com seu ‘Penso, logo existo’, estabeleceu algumas regras para o seu método cartesiano (a comprovação científica toma definitivamente o lugar de ‘deus’ nas descobertas e estudos humanos – mas não totalmente). O terreno estava pronto para a Ilustração Iluminista reforçar ainda mais o Humanismo. França e Inglaterra na direção de uma ‘nova filosofia’ universal, mais adaptável ao tempo moderno. São desse período, pensadores como Voltaire, John Locke, Rousseau, Montesquieu, Adam Smith, depois Kant, entre outros. Junto aos demais já citados, responsáveis por parte significativa do que pensamos, acreditamos, reproduzimos e praticamos hoje, tudo somado ao cientificismo e contribuição de Darwin. Três grandes momentos da história moderna concretizaram de vez essa via, esse caminho até o contemporâneo. Falo da Independência dos Estados Unidos, da Revolução Francesa e da Revolução Industrial Inglesa – e eis o capitalismo na sua forma mais abrangente e dinâmica (segundo o historiador Eric Hobsbawn, a ‘única’ revolução mundial foi a Revolução Burguesa). Todos com fortes traços Iluministas. Filhos desses momentos históricos e soma de todas essas idéias e/ou filosofias – e ideais – são os pensamentos utópicos e ‘revolucionários’, os ditos socialismos: utópico, libertário (ou anarquismo) e científico. Tomas Morus e Erasmo de Rotterdam deram um primeiro sussurro do que viria a ser a sociedade igualitária, antes mesmo dos ilustradores iluministas desenharem suas teorias. Depois vieram os pensadores ditos utópicos, que já propunham uma sociedade de cunho socialista: Saint-Simon, Charles Fourier, Robert Owen, entre outros. Vestígios do que viria a ser o socialismo libertário (anarquismo clássico) vem também da Grécia Antiga. Os ‘banidos’ e/ou ‘amaldiçoados’ filósofos cínicos como Diógenes de Sínope e Crates de Tebas, advogaram por formas anárquicas de sociedade, mas pouco resta de seus escritos, obscurantizados pela filosofia iconizada de Platão, Aristóteles e Sócrates. Foi com pensadores como Proudhon, Kropotkin, Bakunin, Max Stirner, Errico Malatesta, Emma Goldman, Louise Michel, entre outros, que o anarquismo criou corpo prático. Disso surge o anarco-comunismo, anarco-feminismo e a primeira ação sindical da história, o anarco-sindicalismo. Nos Estados Unidos, o pensamento libertário tem marca forte no nome de Thoureau e sua ‘Desobediência Civil’, obra que viria a influenciar lutas de libertação (e abandono) pelo mundo todo. O socialismo científico (ou comunismo), foi uma teoria desenvolvida pelo sociólogo e filósofo Karl Marx, em parceria de Friedrich Engels. Essas teorias libertárias influenciaram vários movimentos, revoltas e revoluções pelo globo. Entre elas podemos citar a Comuna de Paris, a Guerra Civil Espanhola, Revolução Russa, Cubana, Chinesa, entre outras. Contemporâneo a Marx e a alguns anarquistas, Friedrich Nietzsche criticava ambos os socialismos, assim como todo o racionalismo e cientificismo vigentes na época, além do cristianismo e da moral judaico-cristã, muito presente ainda nos dias atuais. Nietzsche, de um modo geral, no meio de toda essa convulsão teórica, dessas turbulências ideológicas e atividades revolucionárias eclodindo pelo mundo, teceu duras críticas aos seus contemporâneos, os quais, para ele, eram (ou pelo menos a maioria), reprodutores da concepção judaico-cristã de sociedade, tendo fundamento no idealismo filosófico, comprovado na crença e busca da ‘sociedade ideal’ (ou perfeita), um tipo de paraíso terrestre. Para Nietzsche, até o marxismo e o anarquismo tinham (ou tem) fundo cristão e/ou idealista, circundados pelo pensamento platônico e aristotélico, entre outros. Grandes pensadores surgidos depois desse debate/embate teórico hoje são discutidos e utilizados nas problemáticas da humanidade. Além de Nietzsche, Thoureau e Marx  (depois releito e reforçado por Gramsci, Walter Benjamin e a Escola de Frankfurt), três dos pensadores mais problematizados e ainda utilizados atualmente, independente da forma e espaço onde e como isso se dá), temos nomes como Foucault, Deleuse, Derrida, Bauman, Debord, entre outros, que são muito estudados e aplicados em teses e práticas sociais, culturais, acadêmicas e afins pelo mundo, todos, de certo modo, influenciados, direta ou indiretamente pelos pensadores citados acima. Porém, apesar dessa ‘ótica’ (um tanto sintética), se atentarmos e fizermos uma leitura crítica do cotidiano e das relações de poder que exitem nele, inclusive na superestrutura (niveis políticos-ideológicos-religiosos-culturais), fica visível a prevalência, na esfera da herança ancestral filosófica, do pensamento grego de Platão e Aristóteles. Além disso, temos a carga racionalista cartesiana muito presente (leia-se Descartes), além dos valores e concepções judaico-cristãos que vigoram acima de qualquer forma de desconstrução sócio-cultural a nível de pensamento e concepção.

 


Não, ouça, o que aconteceu foi o seguinte: eles mentiram para ti, venderam-te idéias de bem & mal, fizeram-te perder a confiança em teu próprio corpo & sentir vergonha por teus dons de profeta do caos, inventaram palavras de desprezo para teu amor molecular, te hipnotizaram com distrações, te entediaram com a civilização & todas suas emoções usurárias”. (Hakim Bey)

 

 

Por mais que existam pensadores ainda não (e talvez nunca) enfatizados no âmbito das inovações teóricas e contestação (se bem que as atuais práticas de movimentação culturais-políticas que andam surtindo efeito, vem daí), como Hakim Bey, por exemplo, ainda é certa ‘tradição’ e/ou valores tradicionais-clássicos que prevalecem na ordem do dia do pensamento ocidental. Talvez o super-homem a que Nietzsche desenhou no seu Zaratustra, sendo a própria superação de si (e não alguém superior pela raça ou força física, como o quis o Nazismo alemão de Hitler – mas sim, pela força interna de negação e destruição dos valores estacionados na tradição milenar), esteja ‘descançando’ na maldição de poetas como Rimbaud, que ficou caracterizado como o anti-herói da poesia moderna, que está além das palavras e formas – ou seja, na linguagem, na destruição do passado tradicional e na construção de um momento moderno-atual. Rimbaud, eu o vejo: é o andarilho que Nietzsche traz como o super-homem, livre das redomas do passado e pronto para um novo tempo – um agente do Caos a que Hakim Bey a todo momento cita nas entre-linhas do seu personagem que só existe enquanto narrador oculto na própria falta do ‘eu’. Na prática, Rimbaud enquanto existencia e trajetória, foi a negação do ídolo (e consequentemente, do seu culto), pois, ao contrário de um ‘deus’ redentor de toda a humanidade, aspirado pelos idealismos e filosofias que iconizam um ídolo salvador e/ou revolucionário (seja Jesus, Lênin, Hitler, ou quem for), um paraíso, ou no mínimo, um lugar melhorado de mundo – mas sem destruir as bases ordinárias deste mundo, apenas reformando-as – foi o andarilho que abandonou a casa para viver o risco, em busca do novo, de novas experiências que o pudessem tornar senhor de si mesmo - de si próprio, deixando a maldição de seu nome e sua tragetória como herança maldita, além de uma linguagem nova e ainda pouco compreendida ao mundo, algo que realmente gera movimento, caos, transformação, e não apenas reformas. Se as bases são as mesmas, pouco adianta (ou nada adianta) mudar as formas. É preciso desconstruir, ou se preferirem, destruir uma estrutura, para então criar algo novo que realmente seja contemporâneo, no seu sentido mais utópico, profundo e/ou sincero de ser.

 


“(...) uma das primeiras coisas a compreender é que o poder não está localizado e que nada mudará na sociedade se os mecanismos de poder que funcionam fora, abaixo, ao lado dos aparelhos de Estado, a um nível muito mais elementar, quotidiano, não forem modificados”. (Michel Foucault)



Bem, já divaguei demais, entrei em caminhos obscuros, terrenos inóspitos  e outros quase impossíveis. Mas, o que eu quis com tudo isso? Não vou responder, pois não tenho respostas: “Não sou um homem de respostas!” (certezas e convicções? Muito poucas! – alguma luta...) – disse hoje a uma aluna que me perguntou algo que não pede respostas dadas, e sim, dúvidas e buscas.


Obs.: Sim, é claro, deixei de fora alguns ‘personagens’ importantes dessa feijoada acidental. Eles gritam por detrás dessas linhas tortas... Ouça!



"Eu tô te explicando/Prá te confundir/Eu tô te confundindo/Prá te esclarecer" (Tom Zé)



Herman G. Silvani

 

 

 

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Trabalho?

1) “Sejamos preguiçosos em tudo, exceto em amar e em beber, exceto em sermos preguiçosos.”

2)”O trabalho é a causa de toda a degenerescência intelectual, de toda a deformação orgânica. Comparem o puro-sangue das cavalariças de Rothschild, servido por uma criadagem de bímanos, com a pesada besta das quintas normandas que lavra a terra, carrega o estrume, que põe no celeiro a colheita dos cereais.”

3)” Os filósofos da antigüidade ensinavam o desprezo pelo trabalho, essa degradação do homem livre; os poetas cantavam a preguiça, esse presente dos Deuses.”

4)”Jeová, o deus barbudo e rebarbativo, deu aos seus adoradores o exemplo supremo da preguiça ideal; depois de seis dias de trabalho, repousou para a eternidade.”

5)”O provérbio espanhol diz: Descansar es salud (Descansar é saúde).”

6) “A nossa época é, dizem, o século do trabalho; de fato, é o século da dor, da miséria e da corrupção.”

7) “Introduzam o trabalho de fábrica, e adeus alegria, saúde, liberdade; adeus a tudo o que fez a vida bela e digna de ser vivida.”

8  )”Que se proclamem os Direitos da Preguiça, milhares de vezes mais nobres e sagrados do que os tísicos Direitos do Homem; que as pessoas se obrigue a trabalhar apenas três horas por dia, a mandriar e a andar no regabofe o resto do dia e da noite”

9) “O  trabalho desenfreado é o mais terrível flagelo que já  atacou a humanidade.”

10) “A paixão cega, perversa e homicida do trabalho transforma a máquina libertadora em instrumento de sujeição dos homens livres: a sua produtividade empobrece-os.”

* “O Direito à Preguiça”, livro do francês Paul Lafargue - genro do Marx escrito em 1880, foi uma resposta a um outro que proclamava o Direito ao Trabalho.

 

 

 

domingo, 29 de abril de 2012

dedico este poema aos idealistas...

Os bons tempos do matadouro

meu avô carneava boi como ninguém.

a banha, o cheiro forte do sangue coagulado
as vísceras e as entranhas espalhadas pelo chão do matadouro
os olhos mortos, parados
a disputa dos cães pelos restos
a buchada aos porcos, as moscas em volta
o coração aflito

eu era menino...

quem nunca esteve num matadouro
sabe pouco da vida
e da morte, menos ainda

a realidade é um naco de carne no osso duro da vida.


Herman G. Silvani



Fuga I:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

O eco do urro que vem de longe


Alguns vão embora simplesmente para fugirem da rotina. Outros para fugirem de seus fantasmas, de seus medos. Alguns também vão embora para fugirem dos outros. Outros ainda, vão embora para tentar se encontrarem, mas geralmente, não encontram nada além do que já eram antes. Há nisso uma categoria piorada, que é a dos que vão embora para fugirem de si mesmos. Fugir de si mesmo é tentar ser um outro que não se é. É querer sair da realidade desenhando uma outra mais idealizada. Alguns, com suas fugas - e/ou pretextos, vêem no ‘outro’ aquilo que na verdade são, mas não admitem, nunca (tem aqueles também que desejam muito ser ‘o outro’, mas suas capacidades e limites físicos, mentais-intelectuais não permitem). É um espelho doloroso ter que encarar a si próprio, quando não se aceita ou admite ser o que se é. Então, a maneira mais fácil (porém medíocre e covarde) é mesmo fugir, debandar, como se fosse abandonar, ir embora do lugar que até então ocupava, ir embora de si. E quantos por aí fazem isso! Só vão chegar onde sempre estiveram, só não aceitavam ou admitiam. Alguns acabam voltando, outros, nunca mais (amém!). Muitos voltam transformados, modificados, melhorados, mas nem todos. Tem aqueles que também voltam iguais ou piores do que foram. Alguns nem chegam ao destino, acabam sucumbindo pelo caminho. A fuga é comum na prática humana. Assim como é comum também, não se assumir, não se aceitar, não querer encarar ou saber lidar com suas pendengas, suas frustrações, suas dores, suas fraquezas e faltas. Ninguém é completo e/ou muito mais do que seus atos. O homem é limitado, geralmente aos seus atos, ao que pensa e pratica, ao que diz, fala e escreve – até ao que produz (quando produz!). Bons livros, boa música, boa arte, infelizmente se provou, não faz ‘toda a diferença’. É preciso mais que isso. O uso que se faz das coisas pode ser um uso-disfarce, como muletas que apóiam o andar, como máscaras que disfarçam o semblante decadente ou o riso dissimulado. E quantos riem-se por não poder chorar. E quantos choram por não saber do riso. Vítimas de si próprios se esbatem e rastejam pelos becos e largas avenidas de qualquer cidade, seja ela interiorana ou a capital mais populosa de um país. Pessoas, assim como o caráter, são o que são em qualquer lugar do mundo, o que muda é a paisagem (mas não confundam isso com determinismo). O determinismo nem sempre vigora, aliás, são os deterministas que dizem que tudo é o que é e que a história não caminha. Desprestigiam a história por se considerarem acima dela – por isso, e bem nisso, deixam de viver o momento (no presente é que a história acontece, o mais é escrita, retomada e memória), que é bem o oposto do ideal. Não sabem, ou por algum motivo ignoram o fato de que existem vertentes históricas. Vivem fiéis e presos ao tempo cíclico da história, talvez, por acreditarem ou só conhecerem esta forma de se pensar, perceber e conceber o tempo. Mas o tempo é caótico e não cíclico nem linear. O tempo é espiral e caminha em sentidos variados e disformes. Os arautos da reclamação e justificação, da negação de determinados fatos, aqueles que se amarram em discursos ‘filosóficos’ e reproduzem mais do que criam (talvez por não conhecerem outras possibilidades – e certamente por não terem vocação para criar), detratam tanto a riqueza material de alguns poucos privilegiados, que se mostram os mais atormentados por ela. Detratam tanto a política que acabam não percebendo que são eles os  seres mais mediocremente políticos que existem (além de analfabetos políticos – leia-se Brecht). Qual é a diferença de um medíocre pré-conceituoso (que odeia gordos, sendo ele próprio um – tamanha falta de se auto-perceber – numa posição miserável de miopia controvérsia), com um mero e passivo espectador da política (institucionalizada ou não) que o fode diariamente e que se orgulha em dizer ser um ser apolítico?  


“O livro é um espelho: se um asno o contempla, não se pode esperar que reflita um apóstolo”. (C. G. Lichtenberg)

O fato é que ‘algumas pessoas’ precisam se resolver melhor, depois, talvez (mas não tão provável), elas possam sair das suas tocas com suas cabeças erguidas, se auto-reconhecendo e se aceitando, se assumindo – abandonar, além das convicções e idealismos, as muletas. Até lá, o ‘individualismo de cunho pequeno-burguês-capitalista’ – que, diga-se de passagem, ainda predomina culturalmente, seja na reprodução dos valores ético-morais ou nas práticas sociais e individuais (e porque eu devo me cuidar com esses ‘termos ultrapassados’? - pormenores tornados importância e alvos por aqueles que vivem da mesquinharia particularista de dado contexto – respondo: porque, incrivelmente, muitas pessoas ainda ultrajam essa indumentária – que coisa!), vai estar vigorando no menu dos dias. Outra síndrome que afeta ‘aquele(s)’ que se acha(m) ‘superior(es)’ como seres de valor apurado (quando não passam de criaturas rastejantes, obedientes e imóveis frente a ordens sócio-culturais que os tornam mais produtos desse meio do que qualquer outro ou outra coisa), vai corroendo por dentro esses sujeitos, derretendo gordura (mas nunca o suficiente), apertando os pulmões e atrofiando o cérebro (pobres criaturas que sonham e ainda reproduzem Platão com toda a convicção mediana que os trai tolamente a cada tentativa frustrada de um novo vômito - o vômito é interno, sempre foi).


Enfim, já me estendi demais. Se não gostasse tanto das palavras, certamente não o faria, mas... Agora vou prosseguir minha noite de domingo com a última taça de vinho que já divaga incerta na minha frente, junto a minha companheira e suas ‘curvas’ - e bem menos gordura do que isso, eu é que diga! (infelizes daqueles que não tem nem brisa de idéia do que seja isso, pobres criaturas!) uma estrada perigosa – e como eu gosto de me arriscar (nessas curvas) para além da segurança do mundo medíocre das quatro paredes em que tantos fazem seu calabouço.


...e os cães? Ah! Os cães justificam um velho chavão que eu adapto agora e que fica assim dito: “Quanto mais eu conheço ‘alguns’ homens (?), mais estimo meus cachorros”.

E os urros se ouvem cada vez mais fragilizados, no fundo de algum poço de uma província (que é um pensamento) por aí... 


yá!



terça-feira, 10 de abril de 2012

A festa dos prós & dos contras

* imagem by Eric Drooker

“Ei Herman, você que é cronista, é contra ou a favor ao aborto?” Não sei. Ou, nenhuma das opções. Posso não ter opinião sobre isso, não posso? Ou isso também é um crime? Nem tudo o que tenho são convicções, opiniões, posições. Certezas, poucas! Só porque escrevo e leio diariamente, isso não significa que eu seja um campo fértil de opiniões. Conhecimentos, até tenho alguns, mas nem todos são confiáveis. Talvez nem eu seja tão confiável. Você é? Quando um assunto polêmico como o aborto se torna bandeira, seja ele de grupos liberais moderninhos e feministas, seja ele de instituições e igrejas conservadoras e/ou retrógradas, ou mesmo um mero motivo de polêmica para se ter assunto, tudo isso se torna um grande ‘espetáculo’. A natureza não tem leis (“apenas hábitos”), e todas as leis não são naturais. Natural é copular, gerar vida, sentir e trocar prazer e experiências. Nisso, o aborto interrompe uma caminhada natural. Agora, proibir o aborto, através de lei ou por uma moralidade ou moralismo qualquer, também não tem nada de natural. Nos dois casos, a natureza não prevalece. A questão deve ser outra. Cada caso é um caso específico, particular. Cada caso tem um contexto próprio, único, e dentro disso, nunca se sabe. Daí vem a minha falta de opinião. A polêmica do aborto está nas páginas do livro do Espetáculo. Portanto, prós & contras remam juntos no mesmo bote. Um bote em alto mar com um furo bem no meio, prestes a afundar. Algo ou alguém sempre se dá bem com isso. Mas algo tão particular assim, como o aborto, não pode ser bandeira de luta alguma. Crime, pecado ou não, é conforme a crença e a consciência e os valores de cada um. Uma situação não se compara a outra. Portanto, tenhamos cuidado com os ataques e com as defesas. Estamos armados e com as armas apontadas para o próprio nariz, num baile de máscaras, partidário, inconsciente (ou com a consciência do interesse, da hipocrisia e/ou do sensacionalismo), com a luz apagada e dançando embriagados, onde uma opinião é apenas uma forma de se sentir incluso numa festa onde não fomos convidados.