sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A disputa


















Violência, espetáculo, arte e superação nos esportes, jogos e afins...

As Olimpíadas foram criadas na Grécia antiga, assim como o conceito de filosofia, e ambas as criações perduram até os dias de hoje. Muitas vezes eu problematizo a disputa ou a competição em alguns de meus textos, o que muitas vezes não é compreendido por alguns leitores. A questão das minhas análises no caso da disputa, não é a disputa em si, a prática, o esporte, o jogo em si, mas sim, o que há em torno disso, no caso, a forma com que isso é tratado e concebido pela ideologia que atua através dos aparelhos midiáticos, ou seja, o ‘espetáculo’ (também não como entretenimento, mas como formador de opinião e reprodutor de concepções e ‘verdades’). Há sim interesses de grupos de poder nessa massificação e reprodução de valores e ‘verdades’. As Olimpíadas estão aí, ocupando certos espaços na grande mídia, dissimulando valores, como os conceitos de ‘belo’, de superioridade e inferioridade. Não raras vezes, a disputa é alimentada por certa xenofobia e ufanismo pelos meios de comunicação de massa, engordando pré-conceitos e criando ícones que irão servir de referência para a legitimação de supostas ‘verdades’. Isso atua como determinismo e reducionismo das práticas e valores humanos. Eis o grande ‘X’ da questão. Diferente, por exemplo, como é feito o ‘esporte’ em algumas culturas indígenas, onde o espírito competitivo, de combate, tem fundamento na alegria, diversão e busca de superação de certos limites. Assim também pode ser, e é, em alguns aspectos dos esportes ‘oficializados’ em jogos, como os olímpicos, neste caso: “O prazer de disputar como potencial humano de superação de si mesmo e interação com o meio”. É costume separar o homem da natureza, mas para o filósofo alemão F. W. Nietzsche, essa separação não existe. A natureza também é violenta, e no homem, essa ‘violência’ então, também se manifesta. Aí vem a disputa enquanto equilíbrio do excesso dessa ‘violência’, dada pelos gregos antigos através de jogos. A manifestação da violência em forma de disputa, nos jogos, lutas, esportes, debates de idéias e na arte, como um tipo de ‘representação’, tornando o conflito e a discórdia ‘belos’, um potencial de superação humanas possível de ser vivido - uma espécie de ‘regulagem’ da natureza violenta do homem, e não só dele, mas sim, da própria natureza que se manifesta. O mundo, assim, vive em guerra, mas uma guerra pela superação, pela continuidade e melhoria de certa realidade. A própria filosofia, segundo Nietzsche, nasceu como uma espécie de combate, onde as idéias se confrontavam entre si e com o meio. Um bom exemplo dessa ‘guerra’, desse confronto ou combate, é a disputa de palavras entre os repentistas, onde quem ganha é a criatividade e a arte. Mas quando a disputa não é sincera e não carrega em si certa ‘ética’, aí deixa de ser uma disputa enquanto potencial humano, passando a reduzir-se a mera discórdia (ponto para a mediocridade). Competir com os próprios limites é uma forma de experiência humana. Segundo a filósofa brasileira Viviane Mosé, a boa luta é aquela que aumenta a nossa potência e nos faz adquirir outras capacidades. Nas palavras de Mosé: “Se a face violenta de nossa humanidade não pode ser negada, então porque o homem não limita e ordena essa violência por meio de uma disputa bela, ética e artística?”. Eis a diferença entre uma coisa e outra.

Herman G. Silvani



sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Nas redes sociais, todos são agentes...
















Como todos já sabem (ou deveriam saber – pelo menos os que se ocupam desse meio), o facebook se tornou um ‘instrumento’ de propagação de informações, idéias e debates, além daquilo que é ‘individual’, é claro. Mas acontece que algumas criaturas tratam este ‘meio de comunicação’ como se fosse uma propriedade privada (e é, mas não dos que dele se utilizam, senão já não seria privada, e sim pública), ou como um latifúndio da informação-comunicação, só seus, e estes, como sendo os proprietários ou fazendeiros. Mas o facebook tem um único (ou poucos donos reunidos em torno das suas ações e interesses privados). Dá pra se dizer que ele é uma empresa ou serviço privado que serve ao público no compartilhamento de informações. Até a troca e difusão de certos conhecimentos (através de idéias e troca de informações culturais), são possíveis nesse meio. E não é só um ou dois indivíduos que pensam que, pelo simples fato de terem um perfil na rede social em questão, são donos do espaço. Talvez não tenham ainda se dado conta que abaixo das postagens estão as palavrinhas ‘funcionais’ desse meio: ‘curtir, comentar, compartilhar’. E se elas estão ali, não é por enfeite, é? Então! Certa feita, por exemplo, postei algo em um Grupo, desses de ‘discussões’, e minha postagem foi excluída sob alegação de que ali não era o lugar. Então, se fosse só isso, se compreenderia, mas não, existiam outras postagens no mesmo sentido. E daí, como fica? Então, o problema não era a ‘fuga de assunto’ da minha postagem, mas sim, o conteúdo dela. Fato! Chegamos aí numa questão de uso dos meios. Sempre defendo a idéia de que ‘você usa os meios ou os meios te usam’, então, sou dos que usam, e não raras vezes, fui (e ainda sou) alvo de ‘críticas’ por essa ‘prática’. Parto do ponto de que esse meio, se não servir para a propagação de idéias e questões de certa relevância sócio-cultural, só serve para a auto-contemplação e narcisismo, além da reprodução de moralismos e mediocridades. Além das discussões e troca cultural e de informações que o facebook proporciona, também serve para questionamentos. Mas a falta de senso crítico de alguns e a importância às mesquinharias, assim como a reprodução de mediocridades, contamina o meio. Pior é ver algumas criaturas que se portam como ‘inteligentes’ caírem nessas práticas reducionistas, mais preocupados com suas próprias dores (dores essas que os cegam fazendo com que não assumam suas faltas), do que com o ‘monstro’ que os engole. Pra esse povo, fica o recado: ‘revejam seus focos ou assumam de vez seus lados no jogo’, pois, de uma forma ou de outra, TODOS estão integrando algo...



sexta-feira, 27 de julho de 2012

Corrida eleitoral no facebook



Começou a corrida eleitoral. Aos poucos (ou nem tanto), candidatos despenham-se na luta pelas poucas vagas na câmera de vereadores, menos ainda, no executivo. E a política ‘oficial-institucional’, é disseminada pelos meios de comunicação de massa, incluímos nisso, as redes sociais. O (al)face book, principalmente, tornou-se um meio de divulgação, troca de informações e idéias, conhecimentos, mas também, de interesses privados e mediocridades “a granel”. Mas este é outro assunto para outro momento. Está rolando nessa rede social em questão, um tipo de “movimento” contra a campanha eleitoral pública nele próprio. Em contra partida, outros se posicionam de forma a acreditarem numa “politização” desse espaço – esse dualismo nas posições comprova que o homem tornou-se um ser político, independente da sua razão. Já que aqui falamos de um dito “meio de comunicação”, privado, é certo, mas que “aceita” (limitadamente), posições e participações públicas (ou do público), já que é isso – e é assim, me posiciono ao lado daqueles que usam a rede para a “democratização” do “debate” (mas vejam bem, do “debate”, do diálogo, das discussões, e não dos determinismos ou reducionismos – pois muitas vezes, a coisa se confunde). Porém, vejo que muitas pessoas ainda precisam “superar” alguns “vícios” ou reproduções para que bem usem esse meio ou “instrumento”. Então, o problema não é o instrumento em si, assim como o conhecimento, mas sim, o modo que eles são utilizados, feitos e propagados. Aquela história: “boas referências, não necessariamente fazem um bom caráter”, infelizmente! Se existisse uma forma, com alguns critérios, para que se “conquistasse” o espaço da “comunicação virtual”, as coisas seriam mais coerentes e dariam resultados mais, digamos, humanizados. Mas, prevalece a questão “coisal” nisso, geralmente, devido à “irresponsabilidade” de alguns em se tratar de certos temas. Um mar de pré-conceitos, ignorância e informações descontextualizadas se reproduzem de forma intensa pela rede. Uma pena! Às vezes penso que o Brasil não está apto a livre expressão e comunicação. O fato é que isso tudo “alimenta” o “espetáculo”, o “monstro sistema”, e alguns que se acham ou se dizem “elevados”, acabam por cair em discursos e reproduções. Mas apesar de tudo isso, ainda assim, devido à realidade atual, fico do lado da idéia de que, facebook é sim lugar de debate e propaganda político-partidária. Meu fundamento? Sim, o tenho: “Tem tanta coisa bem pior rodando por aí, e que pouco se critica, pelo contrário, se tolera”. Então, já que “tudo” é “festa”, dancemos. A música é outra, mas o baile o mesmo. O que é que custa pelo menos ter a “utopia” (o que não significa impossibilidade) de politizar o face, não é? Então... “Abre a gaita gaitêro!”.



* Publicado em 27/07/2012 no jornal Folha do Bairro - Chapecó-SC


Herman G. Silvani



domingo, 15 de julho de 2012

Só pra constar...


..enquanto meia dúzia de sujeitos tentam, de forma medíocre e besta, detratar minha pessoa e as 'produções' a que me despenho, por motivos medíocres (dores de cotovelo, falta de fundamento e de argumentação), pior, alguns metidos a 'roqueiros', pretendentes a 'filósofo' ou 'escritor', 'atletas/lutadores' (os que deveriam ter bom senso e praticar a tolerância e a consciência), devido aos meus pensamentos (olha só.. eu os tenho!), minhas crônicas (será que sabem o que é isso?), e/ou ações, em contra partida, encontro, a toda semana pessoas que vem me falar com respeito, admiração e até carinho.. do meu trabalho, das produções de que faço parte, do que escrevo.. só sexta e sábado foram tantas.. (e estou produzindo para isso/elas).. isso comprova que existem pessoas dispostas ao diálogo, ao questionamento, as relações.. em contraponto a outras que investem seu tempo no deságue das suas dores, mágoas, estigmas e frustrações, e por uma carência na interpretação, ou por interesses individuais (de ego e ideológicos), distorcem os pensamentos, as análises.. é preciso ter certo 'conhecimento', além de tato e sensibilidade para a compreensão (um problema para muitos, que deveriam buscar a superação das ignorâncias e não reproduzi-las estupidamente pelos meios).. é fácil ter o ser humano como alvo, ainda mais quando não se pode com seus pensamentos ou com suas ações.. ataques pessoais e de forma agressiva, coisa típica de uma sociedade embrutecida, assim como parte de seus agentes.. mas, ando cercado de pessoas dignas e coerentes no que pensam e praticam, e as agradeço por essa 'troca'.. o mundo deve ser feito de relações e não de imposições... enfim.. não há fim.



quinta-feira, 12 de julho de 2012

Minha crônica para o 'Dia Mundial do Rock'...





















Rock, um Grito!

Hoje é Sexta-Feira 13. Um dia diferente. Apesar de que, para aqueles que vivem esperando a sexta chegar, ela se torna um dia qualquer. ‘Mas ela não é um dia qualquer? Como qualquer outra Sexta-Feira?’ É. Bem, deve ser! Mas essa sexta, como já disse, é um dia diferente. ‘Que bagunça Herman!’ Deixa eu tentar explicar. Além de ser sexta, e de ser 13, é o dia em que se comemora o “Dia Mundial do Rock”. E eu, como ‘bom roqueiro’ que sou (será?), não poderia deixar de lembrar e registrar de forma crônica esta data. O rock, como é popularmente conhecido, é um ritmo musical. Mas, além disso, também pode ser (e é!) uma visão e/ou uma postura diante do mundo. Essa ‘música’ que veio do Norte da América, cruzou fronteiras, barreiras e horizontes e chegou até aqui no interior de Santa Catarina, nasceu de um ‘Grito’. Um grito ‘universal’ que ecoa até hoje. Ainda nas plantações de algodão nos EUA, o negro escravo trazido da África, como forma de expressar suas dores, angústias, por sua cultura deixada pra trás, passou a entoar um canto, um lamento, e dentro disso, seu grito (um grito de dor e de libertação). Esse grito, além de expressar, foi (é) uma forma de resistência. O canto, o lamento, passou, com o tempo, a se chamar blues, outro ritmo ou estilo musical muito popular e universal. Uma música ‘tipicamente’ negra. E foi pelo blues que o rock também se fez música, ou seja, da pra se dizer que o rock surgiu de (ou como) uma variação do blues. Com o tempo, o rock passou a inspirar comportamentos e a se ampliar enquanto conceito. Adentramos aí nas décadas de 1950, 60 e 70, depois, com a soma de todas as variações desse ‘fenômeno musical-cultural’, chegamos até os dias atuais. Por mais que alguns ainda tentem reduzir o rock ao supérfluo, ou a simplesmente um ritmo, ele se mostra muito além disso. Algo que suscita certas visões de mundo e certa postura sócio-cultural. TODA a música pop contemporânea (aquela que é vinculada pelos meios de comunicação de massa), a partir do surgimento do rock, passa a ter características suas em algum sentido. E os jovens ainda carregam consigo a rebeldia típica que se encontrou (e se encontra) em torno desse ritmo - questão de linguagem e comunicação. E a música tem a sua própria linguagem. Nisso, quando alguém se vê parte dessa história, acaba se encontrando com outros que também tiveram esse sentimento, essa forma de sentir, pensar e atuar no mundo. Ou seja, o rock interliga pessoas, grupos, sentimentos, visões. Portanto, como ‘bom roqueiro’ (que digam meus vizinhos!) – e não só isso (que digam os que me conhecem), agora vou plugar minha guitarra e em acordes vibrantes, soltar o meu grito...


·        Publicado no jornal Folha do Bairro, 13/07/2012.


domingo, 8 de julho de 2012

“A luta do século” (ou ‘Gerações em conflito’)














* Um continho contemporâneo de ficção para dias mais felizes - ou um delírio crônico meu para o divertimento da espécie...

O pai não via a hora da luta começar. Passou dias na espera. Até na hora da transa habitual com a mulher tinha flashes da dita luta. No transito chegou a quase bater o carro distraído pensando no grande momento. Já o filho, ao nascer vestiu, mesmo sem saber do que se tratava, a camiseta do time do pai. O orgulho do paizão era esse filho: “Esse vai ser jogador de futebol! Artilheiro! Assim como o Neymar! Se não for jogador, então vai ser lutador de MMA! Um campeão! Assim como o Anderson Silva! Vai viver cercado de mulher e ter uma vida boa! Vai se dar bem na vida o garotão!”. Mas o pai, orgulhoso de tudo isso, não era nada disso. Nunca foi bom no futebol - quem dirá na luta! - e também nunca se deu bem com as mulheres. Acabou estudando administração e montando uma empresa de seguros. Na semana da luta, compartilhava numa rede social toda sua angústia e desejo quase incontrolável pela chegada do dia daquela que foi chamada intencionalmente pelo narrador-publicitário da maior rede de tevê nacional como “A luta do século!”. Chegou o dia, e o dia parecia interminável. As horas passaram se arrastando e o pai quase teve um colapso nervoso. Mas sobreviveu. Ficou acordado até a madrugada incentivando o filho para ver o ‘espetáculo’ que segundo ele seria. Semanas, dias e horas de espera. Até que enfim a luta começou, e em alguns minutos terminou por nocaute técnico. O filho sonolento, mas um tanto vidrado, menos que o pai, porém, muito curioso, como a maioria das crianças que ainda mantém certo interesse e dúvida pelas coisas dadas, iniciou um diálogo com o pai: ‘Terminou pai?’ O pai: 'A luta do século' acabou!’ O filho: ‘Mas... Foi só isso pai? O pai: ‘Claro filho, esperava o que?!’ O filho: ‘Ah, sei lá! Algo mais empolgante! Uma luta melhor! O cara errou a cotovelada, caiu e ficou encolhido esperando o outro bater nele!’ (silêncio por parte do pai). Nisso, o narrador da televisão, numa euforia adestrada grita: 'Os gladiadores do terceiro milênio!' E o filho pergunta ao pai: ‘Mas cadê os leões pai?’ (mais silêncio por parte do pai que pensou: ‘Malditas aulas de história!’). O narrador prossegue num tom de satisfação, vingança e ódio: 'A luta do bandido americano contra o herói brasileiro!' O filho volta a perguntar ao pai: ‘Quem o lutador brasileiro salvou pai?’ (silêncio e suor por parte do pai). Nisso, uma voz rouca e enfraquecida grita da cozinha: ‘Não salvou ninguém meu neto, mas aliviou as frustrações e o orgulho ferido de parte do povo brasileiro. Pelo menos pra agora! Amanhã é outro dia e eles estarão mais calmos e obedientes para irem aos seus trabalhos, mansinhos, mansinhos... Mas daqui um pouco a frustração volta todinha...' O filho constrangido pela falta de respostas do pai, olha para ele - que agora deprimido desliga a tevê - e diz: ‘Pai, vou dormir, ainda sou criança e não entendo esse seu mundo de faz de conta’.


* Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência (como se fazia nos 'bons tempos' da ditadura militar...)




sexta-feira, 6 de julho de 2012

Casei com a noite
















Eu sou a favor do casamento gay. Desde que eu possa comer e beber de graça. Aliás, se for nesta condição, me boto a favor de todo o tipo de casamento – mas me convidem, viu?! Não, não é preconceito meu. É porque casamentos não me dizem respeito. Pra mim, as pessoas deveriam apenas se reunir ou unir, conforme suas afinidades, suas necessidades e seus sentimentos, tudo com muita sinceridade e sem rodeios ou idealismos. As convenções servem muito para a manutenção de um modo de vida equivocado. Mas tudo bem, eu respeito. É tradição. É jogo. Faz parte -  dizem! Tenho cá minhas dúvidas. Mas, vou dizer que sim para que você se sinta bem. Quem sou eu pra dizer o contrário, não é? Vejam só! Um cronista. Simplesmente um cronista. Um reles mortal que ganha seus dias escrevendo isso - crônicas.  Um poeta do absurdo que volta e meia arrisca em versos errantes. E eu sempre erro. O resto é certo – se é que resta alguma coisa! Mas como eu ia dizendo, sou a favor. Sim, a favor. Só isso – a todos os casamentos do mundo desde que não me deixem de fora. Adoro a farra. Comer o bolo, beijar a noiva e tombar de porre. Um belo programa para um final de semana entediante. Ação. Ação é saber que se está vivo e em movimento. Ontem eu também casei. O nome da felizarda: ‘Noite!’. Ela é negra. Ela é linda. E tem certo brilho no olhar. Os gatos fazem dela sua mãe protetora quando saem à caça. Os bandidos se ocultam em sua sombra. Os amantes se embriagam de prazer sob seu céu. Ela é negra. Ela é linda. Eu penetro nela todos os dias - aliás, todas as noites. Ela sempre vem pra me afagar. Me trazer sono e descanso. Me tornar mais calmo e distante desse mundo sujo cheio de gente limpa. Eu não suporto as gentes limpas que desprezam a noite. São tão sem graça com seus olhares de neve. São tão sem risco. Seus sorrisos de tão frios parecem não ter vida. Essa gente limpa. Que se acha limpa. Como ser limpo vivendo num mundo sujo? Mas há beleza ainda neste mundo. Nem tudo está perdido. A Noite quando vem, me traz essa esperança. Sem palavras, ali, no silêncio da sua negritude. No infinito da sua existência. E eu penetro nela. E eu passo a integrar seu predomínio notívago. Seu manto cobre o mundo e eu me cubro com ele. Sou um homem casado e ela se chama Noite. Não, no nosso casamento não houve festa. Nem comida, nem bebida. Apenas, nossa união. Apenas nosso delírio e a cegueira que ela trouxe consigo. Eu casei com a Noite e já não tenho mais medo do escuro.



sexta-feira, 29 de junho de 2012

Violência naturalizada...




















Chapecó pertence ao mundo. Foi essa a resposta que obtive quando comentei algo no facebook sobre o aumento estrondoso dos homicídios por aqui. Alguém ao lado da atual administração quis me dizer que a violência não é exclusividade nossa. E eu concordo. Porém, não vejo isso com tanta passividade assim. Se fosse só isso, nem comentaria. É fato que a violência se distribui pelo globo, mas pensar assim, tão pequeno e simplificado, acaba naturalizando esta (in)‘verdade’. Como se não fosse possível tratar dessa situação, pelo menos a amenizando. Mas como? Não tenho respostas, mas sim, algumas questões que podem provocar ações frente a isso. Questões de não naturalizar, não divinizar a violência, tipo: ‘Deus é quem sabe!’. Bem, vamos a elas: Onde estão os programas e projetos sócio-culturais, educativos, interativos para, pelo menos, amenizar essa situação? Sendo que, parte dos crimes está vinculado a menores de idade e suas faltas de perspectiva, de consciência política, social e cultural? Numa sociedade segmentada, competitiva, exibicionista, exagerada, consumista, individualista, repleta de mediocridades, esse é o resultado. A cidade de Xapecó, como tantas, cresce em seus altos prédios, ditas câmeras de monitoramento (ou de vigia?), mas não cresce em seus espaços de convivência, seus espaços culturais, artísticos, de pensamentos e possibilidades. Nem todos vivem de discurso e 'pão e circo', nem tampouco de submissão ou medo da repressão. A repressão nunca adiantou e nem vai adiantar – NADA!. Com mais investimentos públicos em áreas HUMANAS, quem sabe, cresceremos realmente - para além do concreto. Caso contrário, a 'batalha' nas ruas que ‘só faz vítimas’ continuará. Um modelo de sociedade como a nossa, como diz um velho pensamento anarquista, “cria suas vítimas para depois penalizá-las”. Em Xapecó, o assassinato de um policial militar nos últimos dias gerou certa polêmica. De uma forma ou de outra, esse 'cidadão' (pois além da farda está o homem), perdeu sua vida defendendo o que? Pra quem? E os agentes do crime, fizeram o que fizeram em nome de que? Pra que? Vejam, nada disso seria pessoal, mas se torna com o discurso ideológico em torno do fato. Um discurso que tira o 'foco' do problema, que é sócio-cultural, tornando-o menor, particularizando-o, sendo que ele está além do ‘ato-fato' e das pessoalidades. E a ordem social, assim como o Estado que a legitima, saem ilesos dessa ‘farra’. Mas não morreu um símbolo, uma farda, nem um policial, pois haverá outro para substituí-lo. Morreu um homem, um pai, irmão ou amigo de alguém - esse, insubstituível. E não serão punidos os 'vulgarmente' chamados marginais, serão punidos os filhos, os frutos dessa mesma sociedade. Ambos saem perdendo, para a ‘saúde doente’ dessa ordem. Uma pergunta: Porque um policial 'precisa' trabalhar em horários de folga como 'segurança'? E a valorização do trabalhador? (isso não acontece só na área da dita 'segurança pública'). E o Estado, não deveria ser responsabilizado por isso? 


* Publicada em 29/06 no jornal Folha do Bairro.



terça-feira, 26 de junho de 2012

Um pouco da história cultural da região...




I FESTIVAL DE INVERNO DA UFFS

Campus Chapecó – Centro



Oficina-diálogo:



“O rock autoral-independente a partir da produção local:

história e aspectos em torno dessa manifestação cultural”



Com o professor Herman G. Silvani

 





Áreas temáticas: Juventude, Comportamento, Indústria Cultural, Produção.



Local: Auditório Bom Pastor

Dia: 28/06 (Quinta-Feira), 19h.


Mais informações:

http://www.uffs.edu.br/index.php?site=chapeco&option=com_content&view=article&id=2651%3Aoficinas-do-festival-de-inverno-iniciam-nesta-segunda-na-uffs-campus-chapeco-&catid=285%3Anoticias&Itemid=842


* Agradeço aos alunos, professores e a UFFS (Universidade Federal da Fronteira Sul) pelo
 convite. Certamente será um bom momento de estudo, diálogo, discussão/debate e
diversão.



Sobre heranças, aparelhos repressivos & reprodução


A manutenção da ordem em ‘Vigiar e Punir’ – pela reprodução e seus agentes

Anos atrás li o livro do filósofo e/ou historiador, que tem dedos na sociologia, antropologia e psicanálise, Michel Foucault, e que leva o título de ‘Vigiar e Punir’. Nele, de um modo geral, Foucault faz um estudo das formas de vigia e punição dos ditos ‘criminosos’ pelas instituições. Aqueles que, por algum motivo, são considerados e tratados como ‘criminosos’, passando assim, viverem submetidos pela força da lei. Um livro que dialoga com um ‘clássico’ da literatura mundial, outra obra que li anos atrás - trata-se de ‘1984’ de Georg Orwell, que virou um bom filme nas mãos de Michael Radford (também diretor de ‘O carteiro e o poeta’). Em ‘Vigiar e Punir’, Foucault trata de um modelo disciplinar de ordem e conduta que veio sendo desenvolvido ao longo da história humana, um “modelo disciplina”, no qual, é representado pela figura arquitetural da disciplina por excelência: o Panóptico. O Panóptico é uma “máquina” criada para manter em vigilância as pessoas que por algum motivo infringiram leis ou possuem alguma patologia. Escolas, prisões e hospitais, são exemplos de instituições que se utilizam da idéia do Panóptico, nas suas arquiteturas e modos de funcionamento. Nesses modelos cada vigiado ou punido tem seu lugar, sua jaula, e deve estar sempre visível, policiado por aqueles que são os olhos do ‘Grande Irmão’ (Big Brother - leia-se ‘1984’). Observando certas publicações na rede social mais famosa do mundo, se percebe a reprodução dessa “máquina”, dessa forma de coerção e tentativa de imposição de força e/ou poder, e de intimidação. E essa forma de pensar, atuar, se posicionar no mundo, também está cravada nas concepções e heranças intelectuais, de valores e morais, dadas pela crença, pela submissão e/ou concordância das ordens sociais, através das instituições e da família e seus agentes. Essa forma de violência, que não é só física, é também moral, torna-se prato cheio para outra reprodução, a do ‘espetáculo’ (leia-se ‘Sociedade do Espetáculo de Guy Debord), alimento diário dessa mesma ordem socio-cultural. Nesse caso, a violência é um ‘mercado’, servindo de ‘espetáculo’ sensacionalista oferecido pelos meios de comunicação de massa, distribuída como ‘pão e circo’ para a população que acaba gostando da ‘farra’, onde a ‘criminalidade’ alimenta todo um sistema burocrata que anda em círculos (judiciário, executivo, legislativo) com burocracias e formas legais de violência. É a violência dizendo combater a ela própria, e este combate sendo seu próprio alimento – e ela crescendo e engordando.

















Tendo certa sensibilidade para perceber isso, fica claro o quanto essa ‘ótica’ - a do ‘bem’ contra o ‘mal’ (ou do ‘certo’ contra o ‘errado’), a do ‘normal’ contra o ‘anormal’, do ‘saudável’ contra o ‘doente’, do ‘sagrado’ contra o ‘profano’, vigora em nossa sociedade. Uma via de duas mãos (ou de mão única). Pior é que a maioria dos que reproduzem essa ‘visão’, utilizam-se de um discurso nada fundamentado, apenas, um discurso, muitas vezes, de caráter fascista, pró o ‘eixo do bem’ contra o ‘eixo do mal’. Um ‘neofascismo’ nasce desse tipo de pensamento, que não é bem um pensamento, mas uma reprodução de valores, sentimentos e alguma mágoa ou frustração histórica, pessoal e de vida. A família é a instituição que mais vigia e controla o ser humano, mesmo por estar mais próxima dele e guiar seus primeiros passos, interferir e influenciar nas suas primeiras vontades e crenças. Desde o momento em que a criança nasce ela está sendo vigiada pelos pais, e ao crescer e se tornar jovem e depois adulto, as cobranças continuam, agora também, por parte da própria moral inculcada ‘a’ e ‘em’ si - ao ‘sujeito’.

















Muitas pessoas que se expõem nas redes sociais, muitas delas vindas, geralmente, de uma ‘tradição’ familiar religiosa, militar, conservadora e/ou moralista, fazem uso, mesmo sem saber, dessa “máquina”. Isso explica um pouco a predominância da reprodução (‘normalidade-legitimada’) sobre a criação (‘anomalia-criminosa’). Tenho parentes e conhecidos próximos (mas não tão próximos) que trabalham na ‘área repressiva’ do Estado - de agente carcerário à policial federal de alto escalão - e nem todos absorvem e comungam desses pensamentos ou reproduzem essa prática (a de vigia, repressão e punição), só o fazem porque faz parte das suas ‘obrigações’ (mas também, isso pode ser pensado como uma escolha, não somente obrigação). Porém, vejo pessoas que fazem questão de evidenciar seu cargo, sua função como sendo algo ‘superior’ ou ‘autorizado’ pela lei, utilizando isso como uma ‘vantagem’ dentro da estrutura hierárquica social. Aí vem o exibicionismo público e a tentativa de intimidação contra os que pensam e atuam para além dessa reprodução.  Enquanto isso, pensadores como Jiddu Krishnamurti, Antonin Artaud, Friedrich Nietzsche e o próprio Foucault, assim como outras pessoas no seu cotidiano, em suas análises, seus estudos, através das suas problematizações, linguagens e práticas diárias, se armam contra essa via determinista-reducionista, onde o ‘obediente’ se sobressai ao ‘rebelde’ (a luta do ‘bem’ contra o ‘mal’ – sendo o ‘bem’, ideologicamente o exemplo moral a ser seguido, e o ‘mal’, o que contraria, subverte, contesta, desconstrói).



Exemplo de reprodução de caráter neofascista presente nas redes sociais:


















Percebam o uso dos termos e pré-conceitos na forma escrita: onde a afirmação ‘não me misturo’ com os termos ‘viciado’* e ‘vagabundo’*, são formas descontextualizadas de constatação (ou carecem de fundamentação para saírem do âmbito do discurso ideológico e passarem para o da problematização dialógica), somadas a interrogativa abaixo, direcionada ao receptor, e por fim, a imagem ‘armada’ que se reporta a um personagem danoso e repressor de um filme (leia-se ‘Tropa de Elite), como se ele estivesse ‘correto’, do lado do ‘bem’, contra o ‘mal’, conclamando aos demais ‘corretos’ a compartilhar a postagem.

* Viciado: diz-se daquele que tem um vício; dependente químico (no sentido da postagem); no caso, no Brasil, concebido e/ou tratado como doente (em estado ‘anormal’), por tanto, passível de tratamento médico e que não responde totalmente aos seus atos;
* Vagabundo: do Latim VAGABUNDUS, “pessoa que anda sem destino”, de VAGARE, “errar, andar ao léu”, mais o sufixo -BUNDUS, “propenso a, cheio de”. Também, ‘Vaga-mundo’ (aquele que vagueia pelo mundo; livre).



























Da minha parte, como professor de humanas e sociais e da área das linguagens, como produtor artístico-cultural e comunicador, trabalho a ruptura desse ‘dualismo’ em muitos dos meus textos que publico, minhas composições musicais e produções, e em sala de aula com meus alunos, através da ‘desconstrução’ (des+construir: desfazer a construção de; em última instância, destruir). Utilizo-me de pensamentos e conceitos, assim como frases, textos e imagens como instrumentos desta ‘ação’. Tem uma frase que volta e meia vem me bater na cachola, desde o tempo em que produzia fanzines, tocava em bandas punk e atuava junto a movimentos anarquistas, que diz: “A sociedade cria suas vítimas para depois penalizá-las”. Artaud, por sua vez, vem nos dizer: “A sociedade não tolera a loucura, pois ela enuncia verdades insuportáveis”. Volta e meia, pensando em concepções como essas, escrevo em letras grandes no quadro, uma frase simples, porém contemplativa, que formulei neste sentido, e para uma compreensão mais, digamos, ‘didática’, ‘dialógica’ e ‘dialética’, problematizando a questão com os alunos: “Ninguém é mocinho ou bandido o tempo todo”. Considerando sempre que nossa ordem social foi cunhada acima de estruturas morais religiosas (sob tudo judaico-cristãs), pensamentos idealistas (platonismo), racionalismo científico-tecnicista (cartesianismo), e conduta militar. A partir de obras artísticas e filosóficas, de criadores-pensadores como Nietzsche, por exemplo, entre outros (onde muito do seu pensamento vai dar suporte para essa ‘desconstrução’, partindo do seu ‘para além do bem e do mal’), se criam possibilidades que contrariam a forma determinista do ‘pensar’ e ‘agir’, presentes na reprodução e estagnação de certos valores e ‘verdades’.

“Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente” (Krishnamurti)


hgs.


sexta-feira, 22 de junho de 2012

O que muitos não querem entender...













O MMA é uma luta? Uma arte marcial? Um espetáculo? Os três, eu diria. Ser uma luta e/ou uma arte marcial, até aí, tudo bem. O problema é o espetáculo. Até não seria problema se não fosse feito da maneira medíocre e massiva que é. O MMA na televisão é a versão masculina para aqueles reality-shows femininos de top models, onde o culto ao corpo e o reforço ao gênero ou sexo humanos como um determinante, um reducionismo, constitui uma ‘verdade’ - tipo: ‘é simples, é isso!’. Não, não é tão simples assim. Mas não vou fazer aqui o papel de sabichão determinista ou reducionista como faz a ideologia que está por detrás de todo este espetáculo – ou vocês acham que tudo é apenas entretenimento, lazer? – ao invés de responder, já que não estou pra isso, vou provocar questões ou problematizações - então pergunto: ‘O que é ser homem?’ e ‘o que é ser mulher?’. O que caracteriza cada qual além do sexo (do biológico)? No programa da rede globo ‘UFC: Ultimate Fighter Brasil’, um Big Brother de lutadores de MMA, a reprodução de valores ‘masculinos’, como o machismo (a exaltação do papel do masculino como superior sobre o feminino - ou o enrustido disso tudo), é descarada, claro, para os que a percebem. Como já havia dito e não me canso de repetir, apesar de alguns não quererem entender e continuarem me enchendo o saco por isso, não tenho nada contra (mas nem a favor) ao dito MMA. A questão é outra. E isso já deveria estar mais do que claro. Além da massificação e dos espaços midiáticos, que, diga-se de passagem, funcionam com concessão do Estado, ou seja, permissão a partir de um acordo com fins de ‘diversidade’ cultural e educativa na televisão, contando que esse ‘instrumento’ é um forte ‘educador’, ‘formador’ de opinião e reprodutor de concepções, além de poder também ser, um instrumento de acesso cultural-intelectual, essa massificação diz sim respeito a todos. E nisso, todos os que estão em dia com suas consciências ou acordados para isso, são no mínimo cúmplices dessa realidade. Esperar que algo divino aconteça e mude isso, ou se posicionar de modo que faça parecer que estar fora ou longe disso é uma resistência, não passa de pretexto. Quem sabe uma covardia ou, em últimos casos, comodidade, pois quem foge aos posicionamentos já está tomando uma posição e, como todos os outros, está na ‘dança’. Em se tratando de ‘disputa’, até seria algo interessante e fundamental para o ‘crescimento’ humano. Mas, disputa enquanto potência (vontade de potência), ou seja, superação de si mesmo e não concorrência individualista almejando uma suposta superioridade humana e os ouros das ‘vitórias’. Do modo que é concebido esse ‘espetáculo’, não faz mais do que reproduzir e somar na manutenção de um sistema, onde a diversão toma caráter ideológico de status social e serve de alimento a valores medíocres.

Herman G. Silvani

                                                             Jornal Folha do Bairro - Edição: 22/06/2012