sexta-feira, 14 de março de 2014

Levante!
















Só é revolução se alterar valores, modificar a cultura. Digo isso a partir de certas leituras, análises e debates. Não como uma conclusão, mas como uma perspectiva. Caso contrário, falamos em ‘levante’ - a exemplo do EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional), movimento de resistência camponesa e indígena do México, e do pensador e literato Hakim Bey. A revolução tornou-se território, ou seja, um item do discurso pretensioso de polos de poder que, no fundo, buscam a tomada desse poder institucional (diga-se de passagem). Muitos desses ‘revolucionários’, no fim, não passam de burocratas administradores e economicistas. Penso que, quando falarmos em revolução, devemos falar em uma ‘transformação sociocultural ou superestrutural, e não meramente econômica ou infraestrutural’. No contexto a que se aplica, revolução, geralmente, é sinônimo de substituição de poder. Na obra ‘A Revolução Francesa’ do historiador Eric Hobsbawm, consta: “Há um mundo anterior e outro posterior à Revolução Francesa”. Para Hobsbawm, uma revolução modifica as relações, não só econômicas, mas sob tudo, culturais. Nisso, a única revolução da história ocidental, talvez tenha sido a revolução burguesa, que modificou, além da economia, o modo de vida, a educação, a cultura, onde seus valores e modos prosseguem até hoje. Então, por enquanto, nos cai bem algumas desconstruções cotidianas, rumo a um levante que gere possibilidades para algo realmente novo, portanto, e aí sim, revolucionário. 


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 14/03...



Leituras do Cotidiano, 14/03


Não é Black Bloc... É Orange Bloc!

O bloco dos Garis é campeão no carnaval 2014 nas ruas do Rio de Janeiro.

Em bloco e cantando, resistem e avançam, mesmo contra a vontade do seu sindicato pelego, que fez corpo mole frente a uma condição deplorável. Os Garis cariocas deram exemplo, usando o corpo e a música como forma de expressão, uniformizados, com irreverência e cantando sambas compostos com letras que falavam das suas realidades, a modo de informar e/ou provocar o debate na população. Fez-me lembrar de um fato histórico, quando na Revolução Zapatista Mexicana, Emiliano Zapata e seu grupo avançavam frente às tropas inimigas entoando cantigas. Exemplos do uso da 'arte' como meio de comunicação, resistência e forma de criar corpo – várias e diferentes vozes formando uma só voz, numa mesma canção. A voz da resistência. Eis o que grande parte dos movimentos precisam aprender e praticar. Ou seja, valorizar e dar mais atenção ao fator artístico-cultural, pois, parafraseando um trecho do texto bíblico: ‘nem só de pão vive o homem’. A vida é bem maior e vai além do fator econômico infraestrutural. Enfim... Viva a luta e resistência dos Garis!


Religião: política, negócio e falta de respeito com o outro...

Domingo de manhã. Acordo no susto com um buzinaço, fogos e alguém falando no alto falante. Uma carreata. E não era política. Pelo menos não nos moldes convencionais pré-eleição. Uma igreja em carreata em pleno domingo de manhã, era isso. Enquanto trabalhadores descansavam em seus leitos. E o respeito? E a consideração ou atenção para com o outro? Jesus era truculento, mal educado e individualista assim? Respeitar o próximo, parece que não existe nesse tipo de organização religiosa e política. Sim, eu falei política! Pois religião é política, ou pelo menos faz política, e da pior forma. Impor aos outros aquilo que lhe é próprio, dessa forma, com barulho, perturbando o sono, o descanso, o momento de paz alheio. Vão acordar o diabo! Se bem que esse tipo de ‘irmandade’ dorme abraçada com o dito cujo. Por isso e outros, sou a favor da cobrança severa de impostos e restrições a esse tipo de organização lucrativa, a modo de Estados de caráter 'socialista' como Cuba, China e Venezuela (já estou imaginando os urros: ‘ah, esses ditadores!’), pois, antes de qualquer espiritualidade, são empresas privadas e espaços políticos de doutrinamento (e não libertação como discursam hipocritamente). Enfim, como diria o pensador: 'o diabo é deus quando está de férias' - e os 'irmãos', sabendo disso, se aproveitam da situação. Crentes? Sim, nas suas ambições, ganâncias e faltas de escrúpulo para com o outro. Reforçarei em letras grandes: RELIGIÃO, antes de tudo, é uma INSTITUIÇÃO POLÍTICA!


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó, 14/03...



sexta-feira, 7 de março de 2014

Esse mundo automático...

















Não gosto do mundo automático onde as trancas dos carros já não são mais manuais. Em que, num botão da chave, como num controle remoto e num gesto mágico, as portas se trancam ou se abrem. Onde não precisa mais se rodar a maçaneta ou manivela para que o vidro do carro se abra. Basta apertar um botão. Será que as crianças do agora sabem o que é uma maçaneta ou uma manivela? Tenho minhas dúvidas. O mundo automático ao tempo que facilita a vida do homem moderno, civilizado e todo aquele papo, o torna gordo, obeso, doente, acomodado. Não se levanta mais a bunda do sofá pra trocar o maldito canal do televisor. É, eu estou envelhecendo como um velho rabugento. Obrigado por lembrar! Eu aceito essa condição como quem aceita ideias que não são suas e que são empurradas goela abaixo pela ideologia política e publicitária do nosso neutro e bem feitor jornalismo brasileiro. É claro que é sarcasmo seu imbecil! Como imbecil menor, ainda me despenho em tecer uma que outra crítica, além do meu regime comodista de engorda. No fim, penso que somos todos imbecis num jogo de damas onde quem vence tem o direito de esnobar e sorrir, e quem perde, o direito inviolável de aceitar a derrota de boca fechada. Mas eu sei que não é bem assim. Somos homens fortes, firmes na nossa condição de reprodutores da espécie. Até os que não funcionam direito ou que não funcionam mais, fazem parte desse ciclo vicioso. E entre linchamentos, ‘justiceiros’ e outros bichos, insistimos nos erros.


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 07/03...



Leituras do Cotidiano, 07/03


Opinião, ideia, referência e palavra...

Como professor de humanas e sociais, linguagem e cronista um pouco conhecido, questionado, lido, ovacionado, repudiado, o que for, me surgem várias questões, semanalmente. Pessoas que me escrevem ou me encontram por aí, perguntam, opinam, sugerem, etc. Eis que algumas questões se repetem, e eis que, resolvo transformá-las numa ‘resposta’ geral, a modo de ‘esclarecer’ – ou confundir ainda mais!

‘De onde surgem suas opiniões?’

Quase nada do que digo ou escrevo são meras ‘opiniões’ minhas. Eu diria que, antes são ideias e impressões vindas dos lugares onde estive, das leituras, teorias, pensamentos, das referências que me alimentam. Certas visões e considerações a partir do que leio no mundo (conste que leitura aqui, vai além das páginas impressas dos livros). Então, não são simplesmente as ditas ‘opiniões próprias’. O filósofo grego Heráclito dizia: “Não escutem a mim e sim ao logos”. Posso até pensar por mim mesmo, mas não me arrisco a tanto, no sentido de afirmar como se eu soubesse disso ou daquilo, assim tão determinantemente. Sou cronista (além das minhas outras facetas e trabalhos), e é como tal que na maioria das vezes me manifesto ou me expresso, sob tudo nas redes sociais, tanto como nos textos dos jornais impressos ou na internet. Ter opinião é comum, até fácil eu diria. Porém, contundência ou certo fundamento na opinião, aí já é outro papo.

‘De onde tira tantas ideias, pensamentos, temas, assuntos?’

Do mundo. Das coisas. Dos livros, textos, amigos, pensadores. Da arte, do cinema, literatura, poesia, filosofia. Das ruas, do mato, das vivências e relações com o outro. Faço do meu cotidiano essa variedade, essa variação e campo de possibilidades. Digamos que eu consiga transitar mais ou menos bem em algumas áreas do conhecimento, o que facilita esse ‘dinamismo’ entre informação, ideia e palavra de que me utilizo quando me expresso, produzo ou escrevo algo.

‘De onde sai sua filosofia? Quais são os filósofos que usa?’

Não sei se é ‘a minha filosofia’. Talvez, apenas a filosofia de que me utilizo, pois penso que ela esteja, como a poesia, nas coisas. Neste sentido, ela sai da poesia e da literatura, mais do que da filosofia propriamente dita. Além de meia dúzia de filósofos, esses, os poetas, escritores, pensadores, criadores, me dão o que ler, perceber, ver, o que depois, transformo em palavra, texto, pensamento, além das coisas do mundo, é claro!

‘O que é um filósofo pra você?’

Um pensador autêntico, que tem postura autônoma diante das coisas. Aquele que, de certa forma, transcende. Não necessariamente quem lê ou estuda filosofia, a modo dos academicistas. Não que eu despreze ou negue a academia, a questão é outra. No caso, poetas, cancioneiros, contadores de história, esses geralmente, tem mais filosofia do que aquele que assina como tal, dentro de uma normativa ou autorização acadêmica, neste sentido.


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó...



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Insônia e Cioran



















"A insônia é uma lucidez vertiginosa que poderia converter o paraíso num centro de tortura. Qualquer coisa é preferível à vigília permanente, essa ausência criminosa do esquecimento." 
(Emil Cioran)

Eu também erro. Meus tiros, nem sempre são certeiros. Eu também como, bebo e respiro. Às vezes me embriago. Eu também sofro. Mas rio, canto, e às vezes tento fazer chover. Ontem mesmo tive sonhos e tive pesadelos. Ambos alimentam minha imaginação, possibilitando novas ideias que provavelmente darão em novos textos, ou desaparecerão como que se nunca tivessem existido. Hoje a insônia bate a minha porta pedindo para entrar. Não abro. Mas não há jeito, ela entra pelas frestas dessa casa velha. Tento negociar, mas ela não retrocede, não abre mão da sua missão que é a de me manter acordado. Tive um dia cheio, como tantos outros, e a noite também será cheia e longa e cansativa. A insônia tortura, atormenta e faz a noite amanhecer sem dormir. O pior da insônia é a permanência da razão, meio febril e dissonante, de fato, mas acesa. Uma lucidez atordoante e meio torpe que insiste nos pensamentos e nas lembranças da vida diurna. A noite se faz lá fora enquanto a insônia acontece aqui dentro. Insone, passarei a noite e depois o dia, até que a noite chegue de novo, e assim, talvez, o sono a substitua e volte ao seu plantão. Eu acompanho o mundo que acontece insone enquanto a humanidade dorme, entorpecida em sonhos que nunca serão lembrados... 


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 28/02



Leituras do Cotidiano

Efeito 'reprodução' e o entorpecimento da visão...

Referente ao caso do menor assaltante que foi amarrado num poste e espancado por um grupo intitulado ‘Justiceiros’, e que virou uma espécie de viral, se reproduzindo em outros lugares do país.

Há quem ache que tudo se resolve a bala ou na porrada, que tudo é pessoal ou natural,  inclusive a riqueza, a pobreza, o trabalho, o crime. Se assim for, está tudo certo e não há do que reclamar. Guerra é guerra. Mas será que é isso mesmo? Pessoas de boa índole jamais torturarão alguém. A tortura vem como uma espécie de fetiche odioso. Um Desejo demente de 'vingança', muitas vezes motivada por uma ‘ideologia da morte’.  Uma espécie de compensação das próprias frustrações. Ludibriação de si mesmo. Frustração por ter que ser submisso a um sistema como este, que brocha a maioria das necessidades humanas. Se o ato de punição individualizado ou pessoalizado se justifica, para que existem leis? Justiça institucionalizada? A hipocrisia de prometer, ofertar, discursar um mundo que não existe, a qualquer custo. E os meios de comunicação de massa são peritos nisso. Inclusive, a do individualismo do ter sem ser. Dada a motivação, a promessa, a propaganda, depois vem a punição por essa busca, esse anseio, esse desejo transformado em necessidade. Naturalizar algo que é de cunho 'socioeconômico' e 'sociocultural', é no mínimo falta de compreensão, para ser leve. E o moralismo permeia essa situação. Criminosos maiores querendo 'punir' um criminoso menor (e não estou falando em idade). Classe média/alta de valor e cultura eurocentrista judaico-cristã 'justiçando' a ‘realidade’ com violência acima da classe baixa afrodescendente. ‘Grande justiça!’. E o discurso maniqueísta da 'igualdade de oportunidades' é feito ‘verdade’.  Sei! Conheço esse discurso, essa ‘boa vontade’ do sistema bem de perto. Existem coisinhas básicas que se estudam nas áreas humanas e sociais, em que, estudando, se descobre que as pessoas geralmente constituem sua visão a partir do lugar onde foram criadas ou estão. No caso, um favelado que foge de uma realidade medonha e violenta para entrar noutra e sobreviver abaixo das promessas de um sistema melhor, enquanto, do outro lado, outros, moradores de bairros bem estruturados, bom teto e dinheiro no bolso, inseridos numa realidade consumista e de autoconsumismo que consome a si própria. Esses últimos deveriam ser mais racionais devido a suas condições mais suaves do que as dos primeiros, mas parece que acontece o oposto.  Justificando o ‘justiçamento’ (no que dou outros nomes como: covardia, fetiche e violência), alguns ainda dirão: ‘Foi deus quem quis'. Outros dirão que 'é natural'. Os mais oportunistas dirão: ‘Justiça!’. Contudo, eu digo que: ‘o meio, muitas vezes, entorpece a visão’. E se assim for, vivemos uma realidade viral e de pouca visão...


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó, 28/02...



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Entre bem e mal: o corpo, a palavra e o silêncio...
















Polícia dá porrada de um lado. Manifestante discursa fragilmente de outro. Sininho esculacha o governo, mas acredita que com seu partido ou seu discurso reducionista vai fazer a revolução social. A revista Veja vê, noticia, distorce, pinta e borda, e vende tudo. A Globo aumenta pontos na sua audiência, outrora melhor. Eu continuo aqui, percebendo, produzindo crônicas e ideias e canções e poemas, ‘não sendo contraditório, mas contraditor’, como diria o grande filósofo. Sofremos gravemente de uma falta ou de um excesso de educação, pois de uma forma ou de outra, nossos atos e ideias e discursos, são reflexos de uma educação, de uma cultura. Somos animais culturais que absorvem, reproduzem e assim se encontram ou se perdem. Financiados, induzidos, orientados ou não, temos voz, a palavra e o corpo. O corpo por vezes indesejável ou indesejado – e muitas vezes, indefeso. A palavra também tem corpo – mas se defende - e seu corpo treme, febril, inquieto, cheio de dores e alguns calafrios. O corpo da palavra tem forma, tem imagem. A palavra do corpo e o corpo da palavra. Eu, você e todos os outros, temos corpo, mas nem sempre a palavra. Minha palavra magrinha, porém de ossos duros. Existem palavras, como as minhas, que não tem cura. Existem corpos incuráveis e vozes que, às vezes, silenciam. Entre bem e mal, o silêncio ruidoso dos corpos que caem e das palavras que se elevam...


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 21/02.



Leituras do Cotidiano - 21/02


Demagogia Zero

ACIC (Associação Comercial e Industrial), CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) e o SICOM (Sindicato do Comércio), lançam a campanha “Chega  de violência: Chapecó unida exige segurança”. E a coruja que pensa, pensa: “Xapecó pode ser menos violenta quando existir programas socioculturais nos bairros, Centros de Arte e Cultura na periferia, assim como uma atenção especial para a Educação. Mas só falam e policiamento, repressão, ‘segurança’, sendo que, segurança é algo bem subjetivo, discurso usado em períodos eleitorais (alguém lembra do ‘Tolerância Zero!?’). Certa feita, um prefeito falou: ‘Aqui em Xapecó bandido não se cria!’ – remetendo-se aos ‘ladrões de galinha’. Uma lagarta disse que entidades como as da campanha “Chega de violência”, de alguma forma, fazem parte do governo, apoiando, financiando e até direcionando aspectos da política local. Só falam em comércio, vendas, lucros, desenvolvimento econômico-material. E o desenvolvimento cultural, intelectual, artístico, humano que uma cidade precisa para não se tornar bruta? ‘Reprimir sem educar não ajuda em nada!’ Postos policiais nos bairros (com o nome tipo: ‘atendimento a comunidade’), com profissionais bem capacitados para o atendimento e não apenas ‘repressivos’, junto aos fundamentais Centros de Arte e Cultura, podem possibilitar melhorias nessa horrenda condição. O mais é discurso, demagogia, hipocrisia dos também responsáveis por essa realidade violenta, pois ‘violência não é só aquilo que se vê’.”


Filosofia? 

Universidades, escolas, cursos e muitos professores de filosofia, ensinam 'sobre filosofia' e/ou 'história da filosofia', assim como, apresentam aos seus alunos 'aspectos do pensamento de alguns filósofos', mas não FILOSOFIA!
 

No que, muitos estudantes acreditam que um dia serão filósofos por simplesmente terem acesso a essa 'transmissão' de 'informações' legitimadas e autorizadas pela academia. Pior são alguns professores que 'acessam' e citam certa quantia de teóricos, dominam certas técnicas, alguns conceitos e formas da linguagem filosófica (sob tudo acadêmica e formal), e pensam, falam e/ou escrevem, convictos ou convencidos que são filósofos por isso. Os poucos 'filósofos' que conheci (praticantes do pensamento de forma 'autêntica' e sem prisões na 'titulação autorizada'), nem sequer tem (de)formação na área. A maioria deles são poetas, compositores, 'homens comuns', caboclos, loucos varridos que bebem e perambulam pelo mundo, muitas vezes, invisivelmente. Filósofo não é aquele que ostenta um título ou assina como tal. Visão peculiar de quem transpassa a filosofia academicista clássico-socrática, é claro, e a percebe no antes e no depois...


Das (des)educações...

- Ei, Herman! pra que estuda e pesquisa tanto?

- Para submeter-me aos métodos e grades curriculares. Para submeter-me as formalidades e burocracias. Talvez, por um falso status ou para engordar o intelecto e matá-lo de infarto. Ou por hobby, ímpeto sadomasoquista. Algo assim! (ironia! - não do destino, mas da ordem sociocultural).



* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó...



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Qual violência é pior?





















Uma semana violenta, como tantas. As manifestações pelas ruas do Brasil continuam. As ideologias também – principalmente na disputa pela palavra. Vejam só como ela é importante. ‘Quem?’. A palavra. A palavra é tudo. Ou quase tudo. Não, não, acho que exagerei. A palavra é muito! ‘Fica assim que tá bom Herman!’. Outrora, as manifestações já foram mais queridas pela esquerda institucional. Hoje, nem tanto. Foi assim também com a Copa. Só que ao contrário (se é que me entendem!). Nesta festa, neste espetáculo, tiros saem para tudo quanto é lado. Menor infrator, morador de rua, ‘pobre diabo’, torturado e amarrado por playboys autoproclamados de ‘os justiceiros’ da nova e dita ‘classe média ascendente’, filhos dos mais recentes e progressistas governos que já tivemos na nossa história. Que ironia, não? É amigos, é o avanço econômico que passou por cima de outros avanços que ainda não se concretizaram. Capitalismo cruel. Há quem chame de capitalismo de esquerda, progressista. Mas isso existe? Não sei. Se existir, me parece contraditório. ‘Mas o sistema é contraditório Herman!’. Economia sobe, e com ela, deveria também subir nosso bom senso, assim como nosso senso de humor, nosso senso artístico, nossa cultura, nossa educação. Mas esses ainda são tratados e feitos ‘segundo plano’. ‘De novo Herman? Até quando?’. Eis também o meu anseio. Agora, cinegrafista morto também tem culpado pessoal. E o discurso se reproduz como vírus. ‘Foram os Black Blocs’. ‘De novo?’. É melhor que se acredite nisso. ‘Pra quem?’. Pro sistema. ‘Mas quem é o sistema Herman?’. Olha, já nem sei mais direito. Enquanto isso, a grande mídia usa dessas artimanhas, de jogo de acusações e culpabilidades para minar e desestabilizar o governo. ‘Mas se o governo for mesmo desestabilizado, de quem será a culpa? Da meia dúzia de Black Blocs, macarados e/ou anarcos que ocupam as ruas?’ Ou da vulnerabilidade do próprio governo e suas instituições oficiais frente a nossa realidade cultural?’. Conste que, a violência também é cultural - e também faz parte do espetáculo. A violência sustenta parte dessa estrutura: o sistema judiciário (e arcaico), o sistema policial (e arcaico), o sistema privado de segurança (não arcaico). Além, é claro, do jornalismo dito policial (que impera nos horários nobres de televisão), dando, literalmente, show de audiência: ‘Tcham-tcham-tcham-tcham! Bem vindos ao espetáculo!’. Neste jogo de cartas marcadas amigos, só os coringas é que podem virar o jogo (ou a mesa). O mais, geralmente acaba jogando, limitados as regras. Jogo sujo, muitas vezes. A Copa e o futebol que no ano de 1970 foram instrumentos ideológicos do regime militar na alienação da população, hoje é defendida e é atacada, pelos dois fios da mesma navalha. E ela corta. E o seu corte é profundo. Causa danos ou pode até matar. Frente a isso, não seria mais do que hora, de reivindicarmos firmemente uma reforma midiática? Ou mais que isso, uma mudança de valores e formas de se fazer mídia? A mídia também educa (e como!). Mídia, também é cultura. A saber, amigos: ‘Não sou contra a Copa!’. Mas também, não sou a favor. E qual é o problema nisso? Sei que muitos podem pensar e apontar de dedo: ‘É você Herman!’. Claro, neste jogo, sempre deve haver um culpado, alguém que carregue o fado cultural que o fracasso de um sistema antigo, velho, ultrapassado não consegue dar conta. Enfim. Encerro com um pensamento de um dos líderes de Estado mais cativantes do momento, que diz e sintetiza muito do que penso e compartilho em algumas das minhas crônicas (a exemplo dessa):

“Uma das desgraças da política é ter abandonado o campo da filosofia e ter se transformado em um receituário econômico”. (Pepe Mujica, presidente do Uruguai) 


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó, em Leituras do Cotidiano...


&

Violência e morte nas ruas...


Fatos violentos noticiados em massa pelos meios de comunicação (sob tudo pela televisão) marcaram a semana. Refiro-me ao ato violento de tortura feito por homens da dita ‘classe média ascendente’, reunidos num grupo denominado ‘Os justiceiros’, a um menor infrator no Rio de Janeiro, que depois de pego, foi covardemente torturado ou espancado e amarrado num poste. O outro fato foi a morte do cinegrafista da Band por um rojão nas manifestações contra o aumento da passagem de transporte público. Ambos, casos de violência nas ruas. Independente dos motivos, a violência não pode ser vista como algo meramente pessoal nem circunstancial. Ela tem história. No caso, se insere num contexto maior, ou seja, faz parte da nossa cultura e do ‘espetáculo’ midiático nosso de cada dia. Alimento de um sistema, onde prós e contras discursam ideologicamente, conscientemente ou não, participando desse ‘espetáculo’, dessa cultura. Tratemos de mudá-la. Como? Não sei bem, mas é preciso ressignificar ela, iniciando pela família e seus hábitos, pela escola e suas políticas, pela sociedade e seus valores. Os avanços na área econômica foram muitos nesses últimos anos, porém, insisto em dizer que, se não tratarmos a cultura como algo prioritário, estaremos fadados a mais violência. Não estou querendo aqui ser pessimista ou premonitor de um futuro que nem sequer existe, apenas penso que as coisas confluem e integram, e que, além da ordem, existe o caos. Atentemos para ele...


* também publicado no jornal Folha do Bairro... 

14/02/2014


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Entorno...


Sou a cópia imperfeita de mim mesmo. Nasci num tempo errado – ou errado no tempo - e nele continuo vivendo, errando. Cada passo que dou, cada palavra ou linha escrita que destilo, são falhas, sobras, riscos de mim mesmo – d’eu mesmo, e que transformo em expressão. Cheguei a um ponto em que tudo o que faço e movo tem a minha expressão ali registrada. Mesmo que às vezes nem pareça, pois, muitas vezes sou um outro em mim mesmo. Confuso? Sim. Mas não se preocupe, é confuso pra mim também. Em seu ‘Assim falou Zaratustra’, o filósofo alemão Nietzsche (se fala ‘Niti’) anotou: “O ego espera pela inspiração de se divertir com o ato de criar”.  E eis que eu me entrego à diversão. Dou luz a mais uma divagação. Uma crônica? Um filosofar? Ou simplesmente um delírio meu? Não sei. O que você acha? De minha parte, fico com a última possibilidade. Às vezes, de um bom delírio nasce um bom texto. Às vezes! Hoje, talvez não. Amanhã quem sabe. Quando eu serei outro, diferente do que já fui hoje. De uma forma ou de outra, continuarei sendo essa cópia, imperfeita, infiel, rasurada, suja, disforme, de mim mesmo. Minha expressão e minha impressão registrada nessas páginas que amarelarão em breve, jogadas num canto de uma barbearia qualquer ou de um bar onde seus frequentadores de final de tarde, entre um trago e outro, se encontram para falar da política local. Lerão esse texto e dirão: ‘Esse sujeito não dá pra entender direito!’. E os dias seguem como as palavras. Cópias imperfeitas de si mesmos... 


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 07/02



Leituras do Cotidiano - 07/02


Um ser possível...
















Andei comprando briga. ‘Que novidade eim Herman!’. Pois é. Como já me disseram: ‘Isso é que dá ser cronista’. Pior que nem é por isso. Quer dizer, é sim! Mas é a confusão que alguns fazem quando leem crônicas pensando no Herman e suas outras facetas. ‘Se você fosse uma carta de baralho seria um coringa!’, também já me disseram. Acontece que alguns estudantes ou pretendentes a filósofo, pensam que sou como eles. Ou seja, que tenho pretensão em ser filosofo só porque escrevo, publico e me arrisco a certos pensamentos por aí, além de, como (de)formação, ser um historiador que também dá aulas de filosofia (para piorar, também de linguagem, sociologia e Wing Chun, além de história, é claro! Ah, também já dei aulas de geografia). Mas sou professor de filosofia não por uma simples escolha. Um respeitável professor me disse: ‘Foi a filosofia quem lhe escolheu!’. Estudava filosofia muito antes de querer ou cursar história na universidade. O que me levou também estudar sociologia e linguagens. Acabei por me graduar em história com uma razoável base teórica, tanto na filosofia como na sociologia e antropologia (inclusive minha escolha de uma antropóloga na orientação da pesquisa se deu por isso). Além disso, sempre tive apego as linguagens, principalmente artísticas, influência do meu avô e meu pai, creio. Também sempre fui praticante, ou seja, rodei em viagens e militâncias políticas por aí. Acabei por me especializar em filosofia e sociologia na educação, o que me despenho em estudar bastante atualmente. Minha ligação com a literatura e as linguagens me fizeram, já faz um bom tempo, produzir textos (prosa e poesia), mas principalmente crônicas. Uma ‘modalidade’ que me permite transitar com certa autonomia em algumas ‘áreas do conhecimento’ (a filosofia é um exemplo). Sei que isso não agrada a alguns, mas minha função ou intenção não é mesmo agradar. Alguns questionam: ‘Como você pode não focar numa coisa só?!’. Não sei como, e nem se consigo. Se faço e acontece, talvez seja por uma necessidade e certa habilidade. Certo alguém já me falou: ‘Cara, admiro sua postura, seu trabalho, sua forma de pensar e interagir! Parece que você faz o que realmente gosta e do jeito que pode’. Isso me soou como uma questão interrogativa que me provoca até hoje. Já pensei em desistir de alguns dos meus afazeres, mas não consegui – ainda! - para a ira de alguns e a possível alegria de outros.  Lecionando história e linguagens, foi que me descobri também professor de filosofia (deus me livre se eu escrevesse aqui: ‘filósofo’! alguns quereriam minha morte!). Foi, primeiramente, os próprios alunos, depois a escola, que me indicaram ou chamaram para lecionar filosofia. Ou seja, não fui eu quem pediu. Isso vem de encontro ao que o professor Herval me disse, e que já citei acima: ‘a filosofia foi quem me escolheu e não o contrário’ – ou seja, aconteceu! Tanto que, na escola em que trabalho ainda hoje, abriu-se a cadeira de filosofia por minha causa - além do café na sala dos professores (risos). ‘Talvez essa seja a sua missão Herman! Mudar o meio a partir das suas escolhas!’ – foi o que me disseram doutra feita. Mas não, não sou missionário. E se escolhi, escolhi muito pouco ou quase nada. A maioria das coisas acontecem, reticência... Mas confesso, sou um apaixonado por quase tudo o que faço, e isso me ajuda a fazer. Se é bom ou ruim, se funciona ou não, deixo para os outros (sob tudo meus alunos e leitores) que o digam, e assim também se arrisquem, pois, arriscado também é dizer...


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó...