sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Fundamentalismo

“Deus está morto”. Frase chocante do filósofo moderno alemão Nietzsche, principalmente quando descontextualizada ou mal interpretada. Mas quem matou deus? O próprio homem monoteísta-moderno. Politeísmo (crença em mais de um deus) e humanismo (valor no homem) são duas características da Idade Antiga. Monoteísmo (crença em um deus único) e teocentrismo (deus como centro de tudo) são duas características da Idade Média. Chegamos a Modernidade. Aqui, no chamado ‘mundo moderno’, desde o Renascimento e com o Iluminismo, o humanismo retorna, mas se mantém a crença (ou ‘discurso’? - sob tudo ocidental) em um ‘deus único e absoluto’. O politeísmo no ocidente ficou na antiguidade. Hoje temos um mundo, em sua maioria, ‘monoteísta’ e ‘humanista’, onde se pensa, acredita e se prega ‘um só deus’ e se ‘valoriza’ o homem como ‘centro’ das atenções nesta ‘modernidade’. Eis o ‘sentido’ da frase ‘chocante’ inicial de Nietzsche. O ‘deus morto’ é o deus que perdeu muito da sua ‘importância’ na modernidade, onde a ‘ciência’ passa a dividir com este ‘deus’ a crença e confiança da maioria das pessoas. Segundo Nietzsche, ‘o homem construiu uma imagem de si muito superior do que ele consegue ser’, colocando deus como sua ‘imagem e semelhança’. E o homem monoteísta-moderno continua matando em nome de ‘seu deus’. Deus que ele próprio matou.


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 16/01.






Leituras do Cotidiano, 16/01


FundamentalismoS

Poder, concepções e o 'espetáculo'...

'Liberdade de Expressão' é o mesmo que 'Excesso, Desrespeito ou Banalidade'? 
Até onde vai este conceito? Esta concepção? Esta 'liberdade'?

A palavra, a imagem, a linguagem tem poder e ecoam. A 'cultura jornalística' (leia-se Nietzsche) não é 'intocável', nem 'sagrada'.

* Concepções culturais e filosóficas 'asiáticas' (uma 'terceira via' para além do dualismo 'judaico-cristão X islã'):

"A cautela usada pelos Homens Sábios é uma demonstração da afetividade que dirigem para o mundo: eles são cautelosos porque temem as compreensões incorretas e o consequente sofrimento que seus gestos ou palavras possam causar no outro". (mestre Wu Jyh Cherng – comentando o Tao Te Ching)

"Não dispute, assim não haverá rivalidade". (Lao Tse)

Por fim, o velho e bom amigo bigodudo:

"Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você". (Nietzsche)


Fundamentalismo religioso = Doutrina...

Cuidado com os pregadores!

(...) Aqueles que pregam Deus precisam de Deus, (...) Cuidado com os pregadores, cuidado com os sabedores. (...) Cuidado com aqueles que censuram fácil, eles têm medo daquilo que não conhecem. Cuidado com aqueles que procuram constantes multidões, eles não são nada sozinhos. (...) Sem esperar solidão, sem entender solidão eles tentarão destruir qualquer coisa que seja diferente deles mesmos.
(Charles Bukowski)

* mas também, cuidado com o 'espetáculo', sensacionalismo, moralismo, mediocridade dos meios de 'comunicação' de massa.


Somos todos... (?)

2.000 mortos, a maioria crianças, mulheres e idosos em ataque fundamentalista religioso em Baga, Nigéria, África. Será que 'líderes' mundiais irão prestar sua solidariedade e apoio àquele país? Será que civis aqui pelo ocidente sairão pelas ruas manifestando? Será que o Fantástico ou outro programa de TV fará uma cobertura gigantesca em torno disso, assim como, a grande mídia insistirá neste fato, apelando pela ‘comoção’ dos espectadores?


 * também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Conto...

Acordo no meio da noite. TV ligada, imagem chamuscada e o chiado estridente e incomodativo. O azedo da cerveja que cheira grudenta esparramada no chão da sala. Entre copos e garrafas eu e meu gato deitado sobre meu cadáver, pois pareço um. A apresentadora do jornal da madrugada tem peitos fartos e um olhar provocador, mas não entendo nada quando ela fala. Aliás, quando ela fala nada me interessa. É sempre a mesma porcaria de sempre. Deveria ter deixado o volume da maldita TV baixo. Desligo a TV com uma garrafada que estoura bem no meio da testa da apresentadora peituda. Adeus TV! O gato sorri e mia. O cheiro azedo da cerveja grudenta esparramada no chão da sala me entorpece ainda mais enquanto baratas e formigas fazem a festa. Minha cabeça é um alto falante em 500.000 decibéis de potência. Penso nisso, mas nem sei que porra significa. Só ouvi falar. O gato se esfrega em mim. Jogo o bichano pra longe. Apago. Acordo novamente, agora com o ruído dos vizinhos de cima transando sua transa matinal. Tento levantar ou gritar. Sem chance. Vejo com o canto do olho o gato caçando um rato. O velho prédio está em festa e minha cabeça prestes a estourar. Sou uma bomba atômica que quer matar o mundo todo. Mas não consigo. Lentamente perco a visão ouvindo os vizinhos na sua festinha. Apago novamente. Sonho esperando acordar noutra realidade. 


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 09/01.



Leituras do Cotidiano, 09/01


Pensar, um ato de coragem

Chegamos. 2015 está aí. Agora é recomeçar. Melhor, continuar, pois ‘o tempo não para’, já cantava Cazuza. E o futuro? ‘O futuro é um espelho quebrado’, como é no mote visual do seriado Black Mirror (Espelho Negro) – indico! E eu lendo. E eu assistindo. E eu ouvindo. E eu escrevendo. Sempre! Maldita (ou bendita) sina! Ao tempo em que navego por estas águas às vezes inóspitas do mundo virtual, leio uma entrevista muito interessante com o filósofo italiano e contemporâneo Georgio Agamben, cujo título é ‘O pensamento como coragem’. Título, no mínimo instigante. Pensar no contemporâneo é ter coragem? ‘Pensar por si só e sem negar as referências ou inspirações’. ‘Quem pensa por si só é livre’, já diria um grande pensador. Mas o que é pensar por si só? Talvez seja, justamente, pensar admitindo e/ou, no mínimo, não negando as referências. De onde vêm meus pensamentos? Das coisas do mundo, percepções e leituras. Das experiências do eu com o outro e com o meio, eu diria. Num mundo onde a tecnologia faz parte significativa do serviço humano, diluindo às vezes o raciocínio e acovardando o pensamento, pensar torna-se um ato de coragem, ainda mais se acrescentarmos o ‘por si só’ neste ato. Quando meus alunos de filosofia perguntam: ‘Professor, o que é filosofia?’, respondo resumidamente que ‘Filosofia é o exercício ou a prática do pensamento’ (uma concepção que desenvolvi com os alunos a partir das referências e discussões). Os anos passam, os calendários envelhecem, assim como as paredes onde eles são pendurados, as roupas, as casas, as pessoas, os pátios, os pensamentos. Mas alguns pensamentos nunca envelhecem. Outros, facilmente, e até morrem. Agamben atirou bem. Para pensar, é preciso coragem. Para viver, também. ‘Penso, logo vivo’. Existir é bem mais fácil e independe da coragem (viu Descartes?!). Eu vivo, eu penso, eu resisto, entre natureza e cultura, sem negar uma ou outra, sem submeter uma à outra. Entre razão, instinto e intuição, se vive no caminho daquilo que o pensamento oriental muito valoriza e chama de ‘equilíbrio’. Referente a isso, novamente Nietzsche vem e nos diz:O homem é uma corda esticada entre o animal e o super-homem: uma corda por cima do abismo’. Outro mestre do pensamento moderno, o físico Albert Einstein, por sua vez disse: ‘Viver é como andar de bicicleta. É preciso estar em constante movimento para manter o equilíbrio’. Ambos, Nietzsche e Einstein, estão entre os grandes e corajosos pensadores ‘atemporais’, pois suas palavras, seus pensamentos, ultrapassam períodos, contextos, escolas e ideologias. Eis duas das boas referências a que me refeira anteriormente. Dois encorajadores do pensamento. E é nisso, nesta coragem que reside todo o pensamento vigoroso que sugere mais vida, para além da mera existência das coisas utilitárias.


Melhores (ou piores) do ano (novo)...

"Humorista 2015! Kátia Abreu, nova ministra da Agricultura: ‘Foram os índios que saíram da floresta e passaram a descer nas áreas de produção'.” (Juremir Machado)

Mais uma pérola da dita cuja: 'Não existe latifúndio no Brasil'. Só pode que a nova ministra da agricultura mora em Cuba.




* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Nova-mente...

O velho precede o novo. Nada vem do nada. Tudo vem do tudo. No mundo existe um movimento constante onde um tempo precede o outro, em que o Caos foi – ou é – o gerador inicial. A não forma que forma e depois deforma novamente para formar de novo. Assim é que o calendário organizado dá a sensação de que algo novo acontece de tempo em tempo. O tempo marcado, mapeado e constituído em organização simbólica. Mas o tempo não passa, nós é que passamos por ele. O tempo é eterno como é eterna a vida em movimento. Vida parada é morte. E a morte é sem tempo. Ela acontece independente da vontade e da razão. Assim como o tempo. Parecem extremos que se juntam para mostrar que tudo tem sua validade. Como diria o velho pensador: “Tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Karl Marx, o pai da teoria comunista, o grande sociólogo materialista da história, um precursor do que muitos chamam ‘pós-modernidade’, mesmo outros torcendo o nariz pra isso. Só retornar a frase de Marx citada anteriormente, refletir sobre ela e perceber a relação com o ‘pós-moderno’. Mas o pós é aquilo que ainda não veio, não é? Eis mais uma ‘charada’ do tempo. Enfim. Desejo que esta continuidade traga possibilidades para nós que, ocupamos o tempo com alegria criativa e perseverança de caminhar, pois o caminho só existe por causa dos passos. Saúde e continuação!


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 02/01/2015.



quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Luzes iluminam... Mas também ofuscam

Sejam todos bem vindos ao espetáculo! O Natal chegou! O prefeito da cidade inaugura as luzes de Natal e sai em desfile pela avenida central saudando a população em cima de um caminhão enquanto multas de transito caem na minha caixa de correio como se fossem baratas procriando, devido ao mau funcionamento de sinaleiras e outros desserviços prestados. O excesso de veículos circulando na cidade causa acidentes e um trânsito horas intransitável, principalmente para os pedestres e ciclistas que perdem seus espaços para essas caixas de lata – o transporte ‘público’ continua com seu serviço diminuto, mas sendo um grande negócio. O gás que sai das descargas dessas caixas de lata enche meu pulmão de toxinas, mas eu insisto em respirar. Buzinas e ruídos aprofundam ainda mais a minha surdez. Mas tudo bem, é Natal e todos devem ficar felizes. O comércio central brilha junto às luzes de Natal enquanto o sol torra os transeuntes que pisam sobre as poucas folhas restantes das árvores caídas que um dia traziam sombra para o centro da cidade. ‘É o desenvolvimento’, dizem eles. Mas vamos nos alegrar, afinal, é Natal! ‘Natal da família chapecoense’. Dizem! Apesar de tudo, com sinceridade, desejo boas festas e saúde aos meus também sinceros leitores. Que novas energias renovem também nossos ares. Continuamos...


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 24/12.



sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Aprimorando a arte!

Grupo de Estudo e Prática de Wing Tjun Kung Fu Xapecó é novamente matéria de jornal:





Leituras do Cotidiano, 19/12

Professor e seu mundo

Ano letivo que se encerra. Crianças que se despedem. Eu que, ao mesmo tempo me alegro com o sucesso das nossas aulas recheadas de filosofia, história, sociologia, poesia, literatura, cinema, etc., me entristeço com a falta do sorriso, atenção e carinho das crianças e jovens que movem minha esperança no mundo, me motivando para continuar sendo professor. As salas de aula, corredores, pátio da escola, estão vazios. Possivelmente verei alguns dos meus alunos no próximo ano. Outros, por aí. Mas sei que, alguns, talvez, nunca mais verei. E assim acontece a vida de um professor. Você está cercado de estudantes barulhentos durante quase um ano inteiro. De repente, está solitário no silêncio do vazio. Você ajuda a constituir seres pensantes, como filhos seus, e tem tantos filhos. De repente, já nenhum. O mundo, ao mesmo tempo em que é cheio, também é vazio. O professor tem relação com o pai e a mãe que, criam seus filhos com amor e carinho e depois os libertam para o mundo. Um mundo, às vezes, complicado e violento (em seus vários níveis), mas, às vezes, maravilhoso de se estar e viver. Sem meus alunos/as, minhas aulas, confesso, me sinto um tanto perdido, mas sei que, em breve, estarei novamente cumprindo com a função a qual me integrei, a de ‘ensinar aprendendo’, pois, é nisso que consiste meu caminho neste universo da educação, da cultura, do aprendizado, do conhecimento. Enfim. Sou professor e tenho alegrias por isso, por mais tristezas que cruzem meu caminho. Esta função ainda é gratificante. Ainda é importante. Eu diria, fundamental! Eu, professor nas escolas e estudante no mundo...


Manchas na política nacional


O cara foi bem votado. Recordista, conste! Volta e meia destila sua mediocridade e estupidez pela obesa mídia nacional. O nome do dito cujo é Jair Bolsonaro. Já foi militar e é congressista. Compõe hoje, um dos piores (senão o pior) congresso da história do nosso país. Um deputado que tem no tom de seu discurso o escárnio contra as diversidades. Algo típico e comum em regimes nazifascistas. Uma besta que posa de vítima e cidadão ético. Ele tem sua moral. Uma moral sob tudo duvidosa, onde, por trás dela se esconde, possivelmente, um ser patológico, cheio de impedimentos, frustrações e fetiches pelo que é bizarro e violento. Transforma esta ‘patologia’ em ideologia e ação política, no que deveria buscar tratamento. Um dos mais votados da história. O típico político eleito pela massa de manobra de uma indústria cultural que trabalha em pró de interesses privados. Eis a cara de parte de nossa política oficial, pois ela é feita de pessoas, homens públicos, com o Sr. Bolsonaro e afins, e os interesses por trás deles. Mas, também existem aqueles que fazem jus ao seu papel de representar a sociedade, mesmo sendo a menor parcela, fazem o contraponto desta condição quase miserável que é a nossa política nacional. Enfim. Enquanto assim for, estaremos na corda bamba, nos equilibrando para não cair no abismo. Que o Sr. Bolsonaro seja execrado da política nacional e viva sua vida longe da política e dos holofotes, pois, é assim que seres como estes se alimentam e ocupam espaços que deveriam ser dignificados e não vulgarizados. Amém!













* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



Ética (?)

Uma das melhores concepções de ética que já vi veio da filósofa, psicóloga e poeta Viviane Mosé, que diz: “uma atitude ética é aquela que considera o entorno e o porvir”. Tendo em vista o ‘outro’, ética não é algo que se compre ou se negocie. Ética se constrói sendo. E são as relações humanas, sociais e/ou culturais que definem muito do que é a ética, que, assim, também pode ser coletiva. Toda a ética vem acompanhada de certa moral. Moral e ética são amantes que convivem em diálogo, e é difícil pensar em uma sem a outra. Novamente o ‘um’ e o ‘outro’, constituindo uma relação. Uma relação, sob tudo ética, e convergindo em certa moral. Mas, o que acontece muito, é o discurso submeter, ou estar além desta relação. Tomemos por exemplo um ‘homem público’, o Sr. deputado Jair Bolsonaro, campeão em votos nas últimas eleições. Polêmico por suas declarações ‘violentas’, Bolsonaro ofende, agride, menospreza, imbeciliza. É esse um cidadão ético? De moral elevada? Ou apenas um embuste espalhafatoso que representa a mediocridade moral e cultural de um país? Convicção ou demência? O que é Bolsonaro? Um ‘homem público’ que não considera o entorno nem o porvir, é o que melhor representa uma política arcaica e medíocre, como parte significativa da nossa. Mas há quem ache ele ético. Acreditem! Qual será a concepção de ética desses?


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 19/12.



sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Em tempo...

Venha o tempo em mim. Me traga rasuras, estragos, vivências. O tempo soberano que cura é o tempo tirano que mata. Ele, só ele tem poder junto à vida. Venha o tempo em mim. Me traga o riso idiota do palhaço sem sonho. A amargura nobre do burguês sem riso. O semblante risonho da criança selvagem. Um naco de perversidade do velho bêbado imoral que perambula pelas ruas sem pátria nem patrão. Venha o tempo em mim. Meus cabelos brancos, minha meia potência, minhas rugas e pele murcha como a fruta deixada ao sol. O odor do que aos poucos apodrece e não perdura. O tanto de tempo que me deu vidas e que deixei para trás em copos e garrafas de venenos baratos nos bares da vida. Venha o tempo em mim. Me traga aquele eu que já fui e ficou para trás, nos tempos de infância, quando corria sujo e livre pelas ruas vazias em cenários bucólicos. Já fui do mato. Já fui da roça. Já fui gente que andou descalço no tempo das lidas. Já habitei cidades invisíveis e campos infinitos longe deste abandono civilizatório das multidões vazias. Venha! Faça do que resta dos meus sonhos um pouco de realidade. Nem que seja uma realidade breve e com pouca ou quase nenhuma variação. Está em tempo. Pois o tempo, eu sei, um dia não mais se fará. E eu, em tempo, me despedaço para um dia, quem sabe, me recriar. Em mim, tempo ainda há. 


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 12/12.



Leituras do Cotidiano, 12/12


Miséria nossa de cada dia

Eita miséria! Ver/ouvir ‘celebridades’ com pouco cérebro discutindo gênero, direitos, isso ou aquilo em programeta de televisão daqueles que só vendem seu próprio peixe. Acho que sabem do que ou de quem falo, não sabem? Mas deixa pra lá, disso o mundo dos excessos está cheio e é fácil saber. Espetáculo familiar de sábado à noite e/ou domingo à tarde. Nos dias da semana, a novela forma mais do que qualquer universidade, ensina mais do que qualquer escola. E assim anda nossa cultura pop, como nossa educação, nossa mentalidade e as razões forjadas por tudo isso. Lixo industrial produzido e propagado a granel e consumido em massa para o bem estar do espetáculo nosso de cada dia. Circo para o povo! E nossa miséria cultural/intelectual só aumenta. Ainda bem que temos alternativas e possibilidades. O brasilzão é grande! Salve nordeste! Salve eu e salve você que vê e transita para além do espetáculo. Um dia, quem sabe, estaremos sãos e salvos. Mas, por enquanto, Bolsonaros e afins, persistem em seus estupros discursivos e políticos. E alguém é cúmplice. Foi eleito, não foi?! Por voto secreto e democrático, não foi? Agora aguenta o filho da puta! (perdoem-me putas, vocês não merecem tal comparação, mas entendam este incurável escriba, como sendo isso, o que foi escrito aqui, uma ‘figura de linguagem’. Sei que despindo vocês desta roupa social e ultrajante, são bem mais do que um título comum e vulgarizado pelas bocas infames deste mundo). Falando nisso, a mãe do dito cujo já deve ter se matado pelo filho que tem. Pobre senhora! Tenho pena dela. Mas enfim. Também somos parte desta festa. Não a organizamos, eu sei, e nem todos são nossos convidados, mas, estamos nela, gostemos ou não. Portanto, vamos curtir e fazer valer nossa estada, marcando o contraponto a contragosto daqueles que só sabem sugar. Eles um dia, também cairão, e o tombo não será pequeno. Podem esperar!

 *

Cai a noite. O poeta sai de sua casa com os olhos ardendo em brasa. Ficou a tarde toda aventurando um poema. O poema não saiu. O poeta irritou-se e foi para o bar. Chegando lá encontrou o poema, rindo-se, embriagado como uma puta decadente. O poeta irritou-se pela segunda vez.
- Hei! Me vê uma cerveja!
Bebeu uma, duas, três... Seis cervejas.
Bêbado, agarrou o poema e sem piedade, o estrangulou.
- Morre desgraçado!
O poeta a passos lentos foi para casa.
Ligou a tevê, abriu uma cerveja, deitou no sofá...
Sentiu-se bem.



* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.