quarta-feira, 15 de abril de 2015

Reflexo...

Quero estar em nenhum lugar. Quero não estar. Simplesmente. Pelo menos por um tempo, até que as coisas voltem a não ser. Como nuca foram. Você e eu andando pelo nada dentro do vazio. E o vazio nos preenchendo de nada. E o nada nos esvaziando de nós mesmos. Às vezes penso no final do dia que nunca permanece. Também penso no seu riso de deboche as quatro da madrugada. Do nada você ri. Quanto te empalhei no meu sonho você ainda sorria, liberta como uma mulher da vida. E eu, um vadio que não serve pra nada nem pra ninguém, riscando poemas despedaçados na parede cinza e carcomida do nosso antigo quarto que já não figura naquilo que chamam de casa. Somos como nossa tapera, um abandono só. A alma que um dia eu já tive fugiu de casa no momento em que abandonou a sua casa. Fiquei só e sem pátria. Um corpo caído no meio de uma sala mais vazia ainda. Mas eu ainda ei de te encontrar. Nem que seja neste nada que até a memória fez questão de abandonar. Somos um só abandono, eu e você, como a nossa casa. Penso em não estar, e mesmo não estando, penso em você. Sem imagem, sem voz, sem nada. Pobre espelho quebrado és apenas uma moldura que insiste em estar. Pobre alma penada, você nem se quer tem forma. Um reflexo do que não está, mas assim mesmo é. Perdão pelos dias delirantes na beira do vazio, alma penada que grita sem ter voz.


* também publicado no jornal Folha do Bairro. 



terça-feira, 7 de abril de 2015

Contradição e moralismo


“O Brasil que anseia reduzir a maioridade penal é o mesmo que oferece foro privilegiado para político corrupto e delação premiada para bandido” (Neuri Alves)


Dados do IBGE mostram que a população de 12 a 17 anos no Brasil é de 20 milhões e, destes, 22 mil (0,01%) estão em conflito com a Lei, sendo 1.852 fichados por prática de homicídio. Sendo que, crianças e adolescentes são as maiores vítimas da violência sociocultural e física no país. Então, não é preciso procurar muito para encontrar a contradição. Justamente no dia que marca os 50 anos do Golpe Militar, mais um golpe, dado pelas bancadas religioso-conservadora (os mesmos que dizem ser 'contra o aborto'), dos latifundiários e coronéis (concentradores de terra) e dos grandes conglomerados industriais/empresariais (concentradores de riquezas). Pior é ver/ouvir alguns 'educadores' e 'jovens', apoiando e legitimando esta ação 'punitiva' (e contraditória) que, pelo mundo, não dá resultados positivos, apenas, alimenta um sistema (carcerário, político e cultural) falido, medíocre e baseado no ódio e sentimento de vingança. Moralismo? Incoerência? Alguns apostam que o próximo passo é a aprovação da pena de morte no país. Enquanto isso, o ‘espetáculo prossegue’, bem alimentado, firme e forte, frente à miopia dos nossos olhares de julgo e de pouca profundidade. 






















* também publicado no jornal Folha do Bairro.



sexta-feira, 27 de março de 2015

Leituras do Cotidiano

O ciclo

...os anos haviam se passado e tudo parecia tão monótono, tão frio. Eva envelheceu, e isso a deprime. Adão, por sua vez, parece não se importar: “Muié, me traz mais uma cerveja!”. Entretanto, os dois continuam juntos. O amor de outrora já não sorri mais com a mesma jovialidade e alegria dentro da pequena casa, cujo tempo também deixou seus sinais de degradação. Eva continua na rotina: cozinhar, lavar, passar, sonhar... Adão também: comer, beber, jogar, dormir, reclamar... O casal teve três filhos. Dois homens e uma mulher. Um deles já morto. O acidente de trânsito foi fatal. “Morreu novo o pobrezinho!” - a cada lembrança, lamenta a mãe. O outro, um advogado de porta de cadeia, beberrão e solteiro, viciado em cigarro paraguaio e no jogo de baralho, passa os dias trabalhando, fumando, bebendo, jogando e pela janela, mirando as pernas das jovenzinhas estudantes que passam pela rua em frente ao Fórum. A única filha mulher, mãe de dois barrigudinhos, professora pedagoga da rede pública, separada do primeiro marido e ‘juntada’ com um caminhoneiro, envelhece sem maiores emoções na vida. Todos muito frustrados com o mundo em que vivem, mas vivos e confiantes no amanhã. Todos ‘assistidores’ de telenovela, leitores de autoajuda e da revista Veja e crentes na volta do salvador. Todos brasileiros de fé no calendário e torcedores de algum time de futebol. Todos, herdeiros de uma cultura, de uma tradição, de um modo de vida que ultrapassa gerações e que um dia vai acabar: “Graças a Deus!” - enaltece aos céus Eva, a mãe de tudo e de todos. Adão, depois do futebol e da quarta cerveja, passa a mão na barriga, chuta o cachorro que descansa na porta da sala e vai dormir. Amanhã é quinta-feira e a vida prossegue... 

Os anos haviam se passado e tudo parecia tão monótono, tão frio. Eva envelheceu, e isso a deprime. Adão, por sua vez, parece não se importar: “Muié, me traz mais uma cerveja!”.


Convertido, redimido e enrustido...

Da sua boca não saiam mais palavras lúcidas. Resolveu-se por delirar, enlouquecer, esquecer que um dia tivera razão. Antes, aprofundou-se nos estudos filosóficos e sociológicos. Fora ateu. Lia Voltaire, Bacon, Sartre, Foucault, Weber, Marx, e esporadicamente se divertia com Cioran e Nietzsche. Gostava das margaridas e do cheiro delas, assim como das garotas e seus cheiros. Odiava teatro e televisão, aliás, tudo o que considerasse cênico. Seu mundo era o das letras e do pensamento. Era seco e ouvia pouco os outros. Um dia tudo mudou. Deus passou a existir e ter sua importância. Cioran, Nietzsche e os outros se tornaram dispensáveis. Teatro e televisão adquiriram sentido. Agora suas rezas atravessavam a noite, substituindo as leituras de outrora. As margaridas perderam seus cheiros assim como as garotas, e ambas já não importavam mais...


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó, 27/03. 





E o fator cultural?

“Um grande equívoco de parte significativa da dita esquerda brasileira é achar que o movimento (leia-se protestos do último dia 15) é feito só por grupos de ‘elite’. A ideologia é da elite, os interesses são da elite, o dinheiro é da elite, os porta-vozes são vozes da elite, mas essa ideologia é ardilosa o suficiente pra infectar as mentes de todas as camadas sociais. É uma ideologia baseada em medo, ódio e ignorância, e infelizmente esses elementos tem uma força de mobilização muito poderosa, mais do que a razão e a solidariedade.” Foi mais ou menos assim que o historiador e professor da UFFS, Ricardo Machado, descreveu um pouco do contexto sociocultural e político atual, referente às recentes manifestações pelo país. Ou seja, além de politização (o que muitas vezes não passa de ‘doutrinamento’), precisamos de consciência artística e filosófica (ação na cultura), caso contrário, continuaremos vulneráveis a forma mais forte de ideologia que pode existir, a ignorância. Já diria Einstein que, ‘é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito’. Portanto, é fundamental que, o governo e a esquerda brasileira (sob tudo a que ocupa espaços oficiais e institucionais) comecem a fazer o dever de casa, armando a sociedade de conhecimentos diversificados e aprofundados, pois, nem só de consumo e cartilha vive o povo. 

* também publicado no jornal Folha do Bairro.



quinta-feira, 19 de março de 2015

Cena cotidiana

Todo dia os carros passam sempre cheios de pessoas, poesias e outras inutilidades. Todo dia o fedor do gás que sai das descargas dos carros enche meu organismo de sujeira (e meu saco!), e eu sufoco, aos poucos, dia após dia. Todo dia os carros atrapalham o trânsito. Meus passos vivem castrados por isso, enquanto eles andam e andam, donos do espaço físico do chão. Todo dia os carros atropelam cães ou galinhas ou crianças ou velhos ou tontos como eu - que caminham nas nuvens. Todo dia os carros se esbatem como gladiadores na arena de um grande circo armado para o entretenimento. E todo dia a humanidade passa, imbecilizada, junto aos carros, atropelando formigas, baratas e outros bichos que trafegam sem serem notados. Todo dia, todo o santo dia, os carros nascem e morrem, assim como as pessoas, as formigas, as baratas, os sonhos... Assim como eu e você.



 *  Um poema que passa, como um carro, como uma informação, por nós, e que, às vezes, nem notamos, entorpecidos pela passagem das cenas cotidianas urbanas e suas poluições. Um carro não é um poema. Ele é útil, o poema não. Assim como a vida que, não tem utilidade, apenas é... pra ser vivida, assim como, o poema, que é pra ser sentido, vivido. O carro, este passa e morre - e às vezes mata no final. 


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 13/03.



Leituras do Cotidiano

Conflitos e contradições...

Manifestações turísticas (?)

Percebendo para além da 'emoção', eis que vejo:

Em Salvador, Bahia (lugar que conheço pessoalmente, conste!), onde a grande maioria da população é afrodescendente (negra), só vi uma banda musical que não era composta por brancos. A grande maioria nas fotos e imagens, branquinhos, branquinhos. ‘Fenômeno’ interessante, não?!

A maioria dos manifestos do dia 15 ostentaram em seus cartazes: 'Fora Dilma' ou 'Impeachment', ao invés de algo realmente consistente como: 'Reforma Política, Já!'. Qual é o motivo deste furo?

Nos manifestos ditos 'apartidários' pelo país, palavra de ordem: 'Fora PT' e/ou 'Fora Dilma', sendo que, se o movimento fosse realmente 'apartidário' como, ingenuamente (ou 'ignorantemente') alguns insistem em dizer (outros intencionalmente/ideologicamente), teriam cartazes e faixas dizendo também: 'Fora PMDB, PP, PSD, PSDB', entre outros. Questão de lógica, não? E a 'coerência'?

Alguns acreditam piamente que o 'Fora Dilma' tem por objetivo principal combater a corrupção no Brasil e moralizar a nação. Ingenuidade? Ignorância? Pretexto? Interesse? Se fosse um caso de coerência, estariam pedindo também a queda de Eduardo Cunha (PMDB), Renan Calheiros (PMDB) e muitos outros. Há quem diga que, por parte de muitos, apenas uma maneira de passar o tempo e de preencher a pobreza existencial entre uma novela e outra...

Entidades empresariais/industriais apoiando os manifestos, enquanto símbolos da 'maçonaria' apareciam em cartazes. Neste mato tem cachorro...

Um bloco inteiro no Fantástico da Globo mostrando imagens das manifestações pelo país e não apareceu nenhuma faixa ou cartaz pedindo 'Reforma Política'. Veja só que coisa...

A 'Guerra Fria' ainda não terminou. Estamos no 'terceiro turno' das eleições presidenciais: muitas manifestações pedindo 'intervenção militar' e 'fora comunismo', 'o Brasil não é Venezuela', entre outras 'pérolas'. Em suma, baita causa, eim?! 

Tá bem, eu concordo! Separemos então o Brasil. Reacionários pró-militarismo de um lado, nós (eu) do outro. Fechou! 'Viva o separatismo!'


O bom e velho Buk em seus tiros certeiros:

“Nós nascemos assim, nisso: Nos hospitais que são tão caros, que são baratos para morrer; num país onde as cadeias estão cheias e os hospícios estão fechados; num lugar onde as massas elevam idiotas em heróis ricos.”


Qualquer semelhança com a realidade, não é mera coincidência.



* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



terça-feira, 10 de março de 2015

Leituras do Cotidiano, 06/03

A farra do boi

Ele corre alvorotado e muge em coro pelas ruas da cidade. Mal sabe que depois da farra vai voltar para seu pasto, sua ração, preso no cercado, ou em casos mais extremos, direto para o matadouro. Seu motivador é aquele mesmo que o alimenta com os restos da sua riqueza acumulada. Ele se junta a outros da sua espécie para reproduzir mugidos e atos irracionais, sempre ferrado a brasa e direcionado pelos latifundiários que estão por trás da sua cultura bovina. Gado marcado que não sabe o que faz. Ele grita, esperneia, usa força e bestialidade para tentar derrubar as porteiras, cercas e aramados que o circundam, mas que ele mesmo não vê. Ele acha que é inteligente e rebelde, mas não passa de mais uma cabeça numérica pertencente a um plantel, a uma boiada ou manada que só age sob a orientação do seu dono, patrão, fazendeiro ou pastor. Ele grita contra aquilo que não conhece, não aceita o diferente. Ele trabalha como um condenado e é mal tratado, torturado, surrado, explorado, usurpado, e no fim, agradece ao patrão-fazendeiro quando ganha seu pasto ou sua ração. Ele vive a remoer. Ele tem pouca visão e memória curta. Corre bastante e não chega a lugar algum. Ele vive a reproduzir e não sabe da força que tem. Alguns dirão: ‘Ainda bem!’

Obs.: Qualquer semelhança com algumas realidades humanas, não é mera coincidência.
·         Dedicado aos estúpidos que reproduzem sem pensar.

Perguntas de um cidadão que lê:

1. As ditas ‘entidades de classe’, ou ‘empresariais’ como a FIESC, ACIC e CDL, empresas de transporte (público), algumas Igrejas, alguns muitos políticos e partidos, grandes empresas e latifundiários, são favoráveis a ‘taxação das grandes fortunas’ como foram favoráveis aos ‘bloqueios dos caminhoneiros’?

2.  Na maior audiência pública de Chapecó para debater a necessidade de ampliar os horários de atendimento das creches para beneficiar, principalmente, os trabalhadores das agroindústrias e do comércio, essas ditas ‘entidades de classe’ liberaram seus funcionários para participarem? Manifestaram-se apoiando a iniciativa?

3. Chamam nordestino de vagabundo, defendem intervenção militar, invadem residência, hostilizam as diferenças, incitam o ódio e a violência, pedem Impeachment sem argumentos, mas não sabem nada de política nem de democracia. Que mudança é esta a que reclamam?


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.





domingo, 8 de março de 2015

Mulheres...

Mulher, menina que cresceu, mas que continua sendo menina. Um dia quis ter uma filha - e às vezes, ainda quero. ‘Que ela tenha os seus olhos e os nossos carinhos!’ Uma menina. Uma mulher. Sendo homem amo as mulheres como amo as meninas. Mas se fosse mulher, seria o mesmo, amaria igual. Um caso de sentir. E é sentindo assim que, de repente, lembro-me de algo que escrevi um dia. Algo que num trecho dizia: 

“Tenho características de um homem bom. Só características, pois sou mau como todos os outros homens na minha idade. Mas logo, logo, sei que já estarei ficando bom de novo – ou pela primeira vez na vida - como as meninas da minha rua, tão pequenas e tão felizes! Daqui a pouco estarei mais velho. Nunca voltarei a ser este homem mau de meia idade, adulto, duro e metódico. As mulheres são mais sensíveis. Nem todas, eu sei, mas grande parte delas. Nós, homens, não temos este privilégio. As meninas cantam e dançam, enquanto os meninos gritam e correm. A natureza quis assim. Deus quis assim. E os dois, nos enganaram direitinho”.


·         Dedicado a todas as mulheres-meninas da minha vida. 


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 06/04.



segunda-feira, 2 de março de 2015

Problema cultural...

Pela televisão as reclamações, as críticas, os discursos de empresários de família com histórico de corrupção, degradação ambiental e exploração do trabalho. Briga entre motoristas nas filas de postos de gasolina pelo combustível. 'Pessoas de bem' que abastecem e dão no pé sem pagar, aproveitando o tumulto. Postos de gasolina e comércio que aumentam seus preços tirando proveito da situação. Políticos e seus partidos responsáveis por parte desta 'calamidade' que discursam moralistas e hipócritas. Mídia obesa, medíocre e espetaculosa que se favorece ideologicamente e comercialmente da situação. Parte dos reclamantes tem carro como status - e ambos reclamam do governo, da corrupção, etc. 'Está um Caos, dizem eles'. Mas não, isso não é Caos. Mas, cadê a ciclovia? As bicicletas circulando? Cadê o trem? Cadê o espaço descente para pedestres? Cadê o transporte público eficiente, de qualidade? Cadê as formas 'alternativas' de combustível, energia e transporte? Um colapso, talvez, transforme esta contradição. Enquanto isso, o Estado é usurpado, como se tudo fosse imediato, atual, recente. Como se a cultura não tivesse nada a ver com isso tudo. Mais que economia, vivemos numa cultura, num modo de vida, com costumes, práticas e pensamentos. E para que algo realmente mude, não basta falar, discursar, reclamar, é preciso ser.


* também publicado no jornal Folha do Bairro, em 27/02.



Leituras do Cotidiano

Brasil, uma mesa de jogos

Antes mesmo das eleições, eu havia publicado textos sobre a ‘arquitetura’ em torno do Estado brasileiro, do governo, pensada pelo poder ‘oculto’ de grandes empresários, industriais e latifundiários, com a colaboração de políticos ligados aos seus interesses ‘privados’ e líderes religiosos (também com seus interesses ‘privados’ a respeito). Num primeiro momento tentaram (e quase conseguiram) por meio das eleições, ganhar o poder (governo). Depois publiquei outros textos falando do campo minado que, os mesmos grupos de poder, tornavam o Estado brasileiro (enquanto instituição administrativa e político-ideológica). Primeiro foi a tentativa de destruir os projetos sociais (bolsas, cotas, acessos a educação, etc.). Agora, depois do campo já minado, é hora de explodi-lo (ou implodi-lo internamente). E eis o que está acontecendo no país. Com o apoio da grande e oficial mídia, parte do setor privado (os que concentram renda, terra e poder), através dos vieses publicitário-midiáticos, ideológicos e políticos oficiais/institucionais (leia-se congresso nacional), fazem desta realidade um jogo na intenção de manterem e até ampliarem seus ‘privilégios’ que são ‘históricos’, herança de um passado horrendo que permitiu toda a concentração de poder e riqueza para poucos e a exploração existencial, humana, econômica, social, de muitos (para quem estuda ou compreende de história e sociedade, isso é claro). E hoje, agora, estamos aí, vendo e ouvindo muita coisa vinda de excessos, exageros, reproduções e discursos ideológicos, tudo feito para a confusão de um país que, creio, nunca teve um ‘espírito de nação’ e, quando começou a ter, eis os acontecimentos atuais. Eles, os ‘semi-deuses’, reais ‘donos do poder’ deitam e rolam, cagam, defecam mas escondem suas ‘produções’ sádicas (perdoe-me Marquês literário, pela relação). E por parte do governo atual, falta culhão, posição, postura! Se empenhou em          ‘melhorar’ a economia, facilitar acessos (o que dentro do capitalismo democrático, talvez seja o melhor a se fazer), ‘democratizou o capital’ mas não deu conta do fator ‘cultural’. Riqueza melhor distribuída sem politização, bons conteúdos, valores artísticos e filosóficos, acaba alimentando ainda mais um sistema ou modo de vida entorpecido por pessoalidades e mediocridades. E agora explodem manifestações que não pedem pelas urgentes e necessárias reformas que o país precisa (reforma política, judiciária, midiática, educacional, tributação sobre riquezas estacionárias, etc.), mas pedem o mesmo de sempre: ‘fagulhas dos fragmentos’, ou seja, ‘pessoalidades’ dadas por interesses privados e status social. Eis o efeito de toda uma ‘história’ pobre em conteúdo e rica em banalidades. E ‘Eles’, os ‘donos do jogo’, jogam com suas cartas marcadas, pois o ‘jogo’ é deles. E agora, o que será? Sem ser pessimista, mas, se aprende a jogar como um bom jogador que consegue reverter o jogo, se desiste dele de uma vez ou se vira a mesa? Façam suas apostas senhores!


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó, em 27/02.



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Leituras do Cotidiano, 20/02

Também quero reproduzir...

...como quero! Não precisar me esforçar para criar. Não ter o peso da consciência por um dia, um único dia, não ter sido criativo. Como professor, apenas repassar o conteúdo, sem problematizar, sem ‘colocar minhocas’ na cabecinha dos alunos, sendo um facilitador e assim me poupar de cobranças ou críticas que vêm, geralmente, daqueles que não sabem e nem querem saber por onde anda a virtude humana. Como escritor, ser um clichê ambulante, dizer o óbvio, inventar misticismos e tolices para o mercado do lixo-literário, falar o que não compromete o pseudo-intelecto do leitor-consumidor nem o interesse dos patrocinadores do veículo ou da editora que publica minhas obras. Como músico, morrer fazendo covers de bandas consagradas. Como compositor, não existir. Como fotógrafo, ter uma câmera que faça parte do trabalho por mim, além do melhor programa para manipular as imagens e torná-las comestíveis, a modo publicitárias de ser, para todos os que não tem sensibilidade para rasuras, poesia e contextos aplaudirem minha farsa.
Também quero reproduzir. Como quero! Não um reprodutor biológico e ter muitos filhos. Não, não é isso. Quero reproduzir o mundo, bem do jeitinho que ele é, como a cabeça dos que o mantém no equivoco das horas e dos dias, injusto, inconsequente, omisso, estúpido, medíocre, discursivo e hipócrita. Ser parte do jogo, onde o conhecimento é apenas um engodo, onde crianças são mal tratadas, imbecilizadas desde o berço até a idade adulta e que, talvez, quando velhas, descubram que não precisava ser assim ou que poderia ter sido diferente, mas daí já foi tarde demais e resta apenas um frustrado cabisbaixo nostalgicamente pensando: “Que pena!”.
Também quero reproduzir e não precisar explicar o que não pode ser explicado aos que me subestimam e subestimam minha obra ainda em construção, inacabada, integra e cheia de furos de bala. Não ser tratado injustamente como se tratam as crianças, os velhos, os bichos e alguns adultos que se dignificam fazer da vida algo além do que os olhos viciados veem. 
Também queria ser um reprodutor e ter sucesso sem inconvenientes. Mas não, não consigo. Sou um fracasso porque sou um criador.  Não consigo reproduzir e assim facilitar minha vida. Não consigo ser um reprodutor que limita o outro pelo medo do próprio crescimento – ou do próprio fracasso. Nasci para a arte e para expressão como quem nasce para a vida, sem tirar nem por. E é por isso que canto, danço e escrevo.


Wing Tjun Kung Fu: arte para além da luta...

Feliz em saber, da boca de alunos (‘irmãos’ Kung Fu), que as nossas aulas, a nossa prática e estudo, mudaram ou melhoraram suas vidas (e/ou estão mudando/melhorando). Eis um elemento desta arte que, muito além de marcial, é humana, cultural, social, filosófica, histórica, proativa. Estudar, praticar ou treinar W.T. é aprender a melhor se expressar com o corpo, melhor se mover, usar melhor a mente e a energia interna que ecoa e se junta a energia cósmica (integração entre 'corpo, mente e energia'), melhorar as relações humanas e ter mais visão e consciência do meio ou espaço em que se vive, entre outros. Eis os benefícios e motivos da prática. Eis a nossa arte!


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.