quarta-feira, 20 de maio de 2015

Leituras do Cotidiano

O paraíso pseudo-requintado da ‘elite’ brasileira II

ou A indiscreta vulgaridade da burguesia


“A sociedade espetacular entronizou a imagem” (Juremir Machado da Silva)

Uma imagem vulgar transformada em ilusão épica pelo espetáculo midiático. Uma qualquer com pose de requintada desfilando nua em manifestação pela rua. Muitos passam a chama-la de ‘musa’. Se fosse pobre, chamariam ‘puta’. Outro caso: Socialite chapecoense vomita sua mágoa acima das cotas e programas sociais do governo federal, além de destilar um preconceito contra casais homoafetivos na tentativa de disfarçá-lo. Algo brutal, primitivo, ou melhor, medieval (perdoem-me primatas, vocês não eram tão estúpidos). Com sangue nos olhos ou ódio no coração, certa burguesia, certa elite brasileira, ao som do sertanejo universitário em um camaro amarelo (quer imagem mais tosca, brega ou cafona?), manifestam-se em um buzinaço, outrora, coisa de pobre. Outros batendo panelas em casa toda vez que o partido dito ‘dos trabalhadores’ se pronuncia pela televisão, enquanto a empregada doméstica prepara o jantar que a madame nunca soube fazer – ‘Ai Herman, que preconceito contra a classe alta que não sabe cozinhar!’ – alguém sussurra.  Um casal na rua (pois agora, só agora, manifestar na rua também é ‘elegante’), ela siliconada, cabelos oxigenados, coxas malhadas de academia, pele bronzeada artificialmente ‘a la latina’, rosto rebocado de plástica e cosméticos, anéis e brincos dourados e reluzentes, ele, bombado também de academia, tatuagens (outrora era coisa de marginal) e o cartaz com a frase: ‘Fora governo que sustenta nordestino vagabundo com a bolsa preguiça!’. Entre outras inúmeras manifestações ‘elegantes’ e ‘charmosas’. Vestidos ‘a la manifestação’ com roupas de grife, um tal ‘kit manifestante’ que custa em torno de R$ 170,00 (uma camiseta, um boné e um apito), preço de ‘irmandade’. Tudo em nome de uma democracia que eles dizem firmemente defender, mesmo gritando por uma tal ‘intervenção militar’. Horror a Cuba, Venezuela ou qualquer outra nação de cultura não eurocêntrica. Latinidade, nem falar! Coisa de povo sem instrução, dizem. Mas não abrem mão do exagero nas vestimentas, luxos, discursos, mediocridades. Pouca leitura, entre elas, muito autoajuda, revista Veja e outras futilidades. Muita televisão e algo de cinema. Filmes hollywoodianos de ação ou comédia romântica, em sua maioria. Música, além do sertanejo dito universitário, algo de MPB e música clássica, só para manter certa aparência e decorar os nomes dos compositores, além do funk ostentação que ouvem escondidos. Um mundo caracterizado pelas imagens, formas, aparências. Onde o chique é brega e o elegante cafona. Um mundo, sob tudo, pequeno, por mais que aparente ser grande (já que é da aparência que ele se sustenta). Parecer não significa ser. Um mundo onde o ter em excesso se iguala ao nada. Um mundo viral que morrendo, também mata. Eis a indiscreta vulgaridade de uma elite que já foi mais inteligente e teve lá seu charme, mas que hoje esbanja superficialidade e breguice. Eis a cultura e educação daqueles que comem caviar, mas arrotam sardinha.


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



Deus-ciência e o hiperespetáculo

Em ciência não há 'verdades', apenas 'hipóteses' e/ou 'teses'. Como é em outras áreas do conhecimento. Porém, muitos parecem não saber disso. Munidos por alguma tradição religiosa, acreditam piamente na ciência como sendo um ninho de verdades. Nietzsche, meu amigo bigodudo, acertou em cheio! Depois do deus medieval já morto, único, redentor e repressor, um novo deus surge, agora na modernidade, e ele leva o nome de ciência. A crença aparentemente inabalável nos deuses. Até quando? Mesmo com as contradições expostas, quase que diariamente publicadas, sobre os estudos e verdades da ciência. A serviço de que? De quem? Do outro lado deste texto ouço alguém pensando: ‘Este Herman é louco!’. De fato, sou louco. Sou um homem contemporâneo. Esperava o que? Este excesso de informações e desinformações que vemos diariamente pela internet e pela televisão (a confusão gerada pelo mundo dos excessos, da informação dita 'livre' - e não da comunicação) só fortalece a crítica de ‘Niti’ sobre a modernidade religiosa e seu deus, suas crenças e valores, quase tudo virtual. A 'cultura jornalística' engole a 'cultura filosófica' (como também bem anotou ‘Niti’). E assim, está como está. É só contemplar, consumir, reproduzir e não pensar.  Como anotou Juremir Machado da Silva, é o ‘mundo hiperespetacular'. Bem vindos!



* também publicado no jornal Folha do Bairro.



sexta-feira, 15 de maio de 2015

O país sendo desmantelado e você ardendo

Enquanto Professores são violentados pela polícia e pelo governo PSDB de Beto Richa no Paraná e a grande mídia faz seu espetáculo, a terceirização (precarização) do trabalho, do trabalhador e da relação de trabalho vai sendo aprovada no Congresso Nacional, assim como vão reduzindo nosso direito a informação (desobrigando a rotulação indicativa dos produtos transgênicos). Vão também desenhando uma Reforma Política que não muda a realidade corrupta do país (que é confortável para 'eles'), etc. No contexto, um Brasil que está nas mãos de dois PMDBistas: Renan Calheiros e Eduardo Cunha, em que ambos ‘jogam’ enquanto você pede o Impeachment da Presidenta, a intervenção militar ou faz panelaço e vai na onda da grande mídia somando no desmantelamento do país, não de uma sigla (PT), nem do 'comunismo', mas da democracia brasileira da qual você é o principal beneficiado. E a coerência? O circo é tanto que atrás da confusão e das informações (algumas verídicas outras amplificadas sem veracidade) se escondem os interesses privados de grupos de poder que assim mantém seus interesses protegidos. E parte da população só acredita no que diz a TV, mesmo sem saber, pois ‘palavra de mídia é mandamento’. Pobres crentes no ‘deus-jornalismo privado’, sentem o fogo queimando, mas não sabem de onde ele vem.


* também publicado no jornal Folha do Bairro.



Leituras do Cotidiano

O paraíso pseudo-requintado da ‘elite’ brasileira I

Sim, a corrupção existe. Sim, existe atualmente. Porém, não é novidade alguma. Ela já existe nas instituições públicas e políticas faz tempo, assim como também existe no setor privado e na vida privada. Ou seja, é parte de uma cultura, de uma educação e ‘jeitinho’ de se fazer. Porém, devemos, de fato, separar e perceber os diferentes espaços onde a corrupção atua - como também devemos perceber que como nunca na nossa história ela está sendo discutida amplamente e combatida por órgãos oficiais do Estado brasileiro. Mas, além disso, existem outras questões importantes a serem ditas, pensadas, apontadas, questões que, geralmente a grande mídia não faz questão de publicar, divulgar, mostrar. E ela tem seus motivos, acreditem! Ela é parte desta corrupção histórica e cultural. Em outra direção, como historiador por graduação, filósofo e sociólogo por especialização (ou metido a isso – entre ‘otras cositas mas’), posso dizer que, poucas vezes na história do Brasil, um 'projeto de governo' inclui o povo (leis, projetos sociais e culturais) em seu menu. Retomando, de um modo geral: primeiro com Getúlio Vargas e suas leis trabalhistas, depois com João Goulart, o Jango, e suas reformas que não vingaram, pois sofreu o golpe militar (de 'direita', diga-se de passagem, e  sob a sombra dos EUA - leia-se contexto da 'Guerra Fria') e por fim, a partir do primeiro mandato do Lula na presidência com sequência da atual presidenta, Dilma, até que o PMDB e a 'oposição raivosa', junto aos 'conservadores', com o respaldo da grande mídia (e do Congresso Nacional), tomaram a frente na administração e política 'destrutiva' do Brasil, pondo em risco, irresponsavelmente, todo um projeto de país no pretexto ou ambição de destruir uma sigla, o PT. O problema de certa 'elite' brasileira é não admitir a 'democratização' dos acessos, serviços e espaços no país. Pobre no shopping, no aeroporto, nas universidades. As bolsas, cotas, programas de acesso educacionais e demais projetos sociais, causam calafrio numa cultura nada sensível que sempre foi acostumada ao privilégio e ao exclusivismo. Eis o que muitos não conseguem perceber ou ver, outros, simplesmente não querem, pois suas ideologias e manias de 'superioridade' não deixam. O paraíso da elite brasileira é ela, com suas pompas, seus egos, seus vícios e pseudo-requintes. Uma elite brega e estúpida, além de conservadora e truculenta, que quer estar em evidência em tudo, só ela, com exclusividade. Ocupando espaços que julga ser só seu, se privilegiando dos impostos que todos pagam, além da corrupção que ela mesma mantém e reproduz quando faz acordos bafios com seus nomes na política e nos negócios. Nem vou falar da exploração acima do suor alheio, não precisa, é básico, não é? Enfim. O desmantelamento do país pelos dentes deste vampiro que muitos chamam de ‘elite’, que ‘organizada’ (e não), pensa uma nação, um mundo, como se pensava ainda no período da escravidão do Brasil colônia, fazendo o sinal da cruz sob rezas em altares já desprovidos de significado, tudo para manter sua aparência e pompa de nobreza medieval, de tão contemporânea que não é...


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



quinta-feira, 7 de maio de 2015

Leituras do Cotidiano

Xapecó é uma cidade quadrada e plástica. Quadrada no sentido arquitetônico (o que não deixa de ser, por isso também, no sentido ‘espiritual’). ‘Plástica’, não no sentido artístico da palavra, mas no sentido superficial, naquilo que se descarta. Nisso, me refiro à estética da cidade, seus prédios ou construções. A cada esquina um prédio novo, quadrado, cheio de vidros e paredes retas e brancas, como um hospital. Paredes sem nada. Nem arte ou textura. Só o branco morto de uma cidade feia em sua arquitetura. Construções que avançam calçadas tirando o chão do pedestre e o empurrando para a rua onde carros também feios e plásticos e quadrados passam a mil com seus motoristas também feios e plásticos e quadrados dirigindo, correndo para lugar nenhum. Enquanto isso as poucas cores, texturas e formas da cidade vão dando lugar a esta feiura quadrada e plástica dos prédios, ruas, carros e muitas pessoas que dentro de tudo isso também integram a paisagem. Mais uma casa de arquitetura artística que despenca no centro para em seu lugar subir um prédio destes feios e quadrados e plásticos. Decerto será um escritório de advocacia ou loja ou terá salas para alugar. Na cidade da especulação imobiliária e da arquitetura feia e quadrada e plástica, todos vão se tornando isso também. Assim como estas palavras, este texto, que não tem por onde sair, não tem fuga nem leveza para derrubar as paredes do seu próprio espaço. Tudo muito reto, seco e rude. E um cheiro de concreto frio e úmido que faz sombra artificial encobrindo um pouco a feiura das pessoas que passam tão frias quanto às ruas e seus prédios brancos, quadrados e plásticos. Pessoas que se esbatem pelas ruas em frente às vitrines para consumirem e serem também consumidas. As paredes brancas e retas e duras e frias e quadradas e plásticas e feias não tem expressão nem vida. São limites para o corpo e o olhar. Nesta cidade destruída e tão pouco habitada por gente viva e que ainda mantém certo brilho e cor no olhar. Mortos descem e sobem a avenida, passeiam pelo único e frio e quadrado shopping da cidade. Vivos também vão lá terem experiências de como é morrer sem estar vivo. Somos parte da cidade com nossos corpos compondo o espaço e a matéria compartilhada, dividida e controlada da cidade. Habitamos ruas, vielas, apartamentos, caixas de papelão, casarões, mansões, casebres, taperas, buracos, corpos. Nosso limite são as paredes feias, frias, retas, brancas e plásticas. A cada olhar uma decomposição, sem cor, sem arte, sem comunicação. Só frio e brancura. Eis a paisagem da cidade na sua concentração comercial. Farmácias, academias, igrejas e outras promessas utopizam as cabeças de concreto que se confundem com postes, hidrantes ou parquímetros. E a cidade aos poucos vai perdendo seu brilho para o cinza fúnebre que sai da descarga dos carros e se mistura as paredes mortas. O patrimônio histórico-cultural morre com a memória de grande parte da população que pouco tem referências de onde vive, está, veio ou vai. Não importa, as paredes dão o tom de todo este vazio, este lapso que é a nossa memória coletiva, histórica e cultural, este descaso com a cidade e sua história. Prédios que não foram tombados pelo patrimônio histórico e cultural, são descaracterizados, quando não, tombados pelas marretas ou máquinas, para que em cima dos seus escombros se ergam prédios brancos ou salas comerciais. Eis a cobiça de meia dúzia de empresas imobiliárias e do poder público que, comungados e insensíveis, vão minimalizando a cidade. Eis nossa cidade que, ao mesmo tempo em que se ergue vivaz, vai definhando para morte, sem memória ou identidade, sem arte e expressão. Xapecó vai desaparecendo aos poucos no seu próprio desenvolvimento, como um gigante que, de tão grande, já não tem imagem.


“No fim das contas penso que a única coisa que justifica construir uma parede é derrubá-la algum dia”. (Efraim Medina Reyes)


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



Xapecó tem CEU!

Sim, um belo, colorido e límpido CEU! Um espaço sociocultural, educativo, artístico e de lazer, projeto do Governo Federal implantado em várias cidades do Brasil com o intuito de integrar a população (sob tudo as comunidades próximas deste espaço), as produções artísticas e culturais da cidade. Um espaço com pista de skate e bicicleta, biblioteca, parquinho, quadra de esportes, teatro, entre outros. O ‘nosso CEU’ está localizado no grande bairro Efapi, na Vila Páscoa, e está funcionando a todo vapor. Faltam placas grandes indicando o lugar. Também penso que, empresários da cidade poderiam ajudar o CEU. Como? Investindo na manutenção do espaço e/ou pagando professores para atividades que, podem ser inúmeras. O poder público municipal poderia colocar as placas de indicação e boas vindas ao lugar, enquanto entidades empresariais (ACIC e CDL, por exemplo), fazer uma campanha de visitação ao lugar, além de ajudar na manutenção e oferecendo ‘serviços’ (professores ou instrutores de esportes e artes), não poderiam? É assim que se muda uma realidade. E a imprensa oficial local? Não lembro de ter visto reportagens nos telejornais sobre este importante espaço. Porque será? Fico pensando cá com meus botões. Enfim, o CEU existe e está muito ativo. Parabéns aos gestores, comunidade, artistas e ao projeto! Conheça o CEU você também!


* também publicado no jornal Folha do Bairro.



sexta-feira, 1 de maio de 2015

Leituras do Cotidiano

O Trabalho e o trabalhador

“O trabalho é um processo entre a natureza e os homens” (Lira)

É o suor do trabalhador (o real produtor) que faz a riqueza de um país. O mesmo suor que o sustenta, sustenta sua família e a economia do país. Tanto que, a Greve ainda é uma das armas mais letais que o trabalhador dispõe. Arma que faz tremer a estrutura, pois esta depende totalmente dos braços e da cabeça do trabalhador, o que, geralmente, muitos não querem admitir e nem que isso fique claro, pois pode ser perigoso aos seus interesses particulares – e é.

E por falar em Greve...

O Governo de Beto Richa do PSDB, do vizinho Estado do Paraná, sob a obediência e conveniência da Polícia Militar, esta semana proporcionou ao trabalhador, profissional da Educação, Professor ou Educador, um Estado de terror. Violência e sangue daquele que deveria ser respeitado, valorizado, dignificado pelo Estado. Um governo que mostra seu caráter fascista, sua ‘educação’ e consideração com o mestre. Não, não é a ‘ditadura comunista’, é a ‘democracia tucana’! Esta é a contribuição do Estado do Paraná para a ‘Pátria Educadora’?


Congresso Nacional e a legitimidade do rebanho

A aprovação da PL 4330 (Lei da Terceirização) deteriora o trabalho, assim como a relação de trabalho entre empregado-empregador. Espaço maior para o assédio moral e a exploração do trabalhador, além da piora na qualidade dos serviços. E quem paga é o próprio trabalhador e a população mais necessitada. Enquanto você fantasiado de verde, amarelo e branco sai pelas ruas motivado pela grande mídia-golpista e as ‘ideologias de mercado’ (das entidades industriais/comerciais) pedindo Impeachment e intervenção militar. Nada mal para um reprodutor que consciente ou inconscientemente soma na degradação de direitos e de todo um país. Parabéns, você merece! Mas outros não.

Mais uma do ‘nosso’ Congresso Nacional...

Não é mais obrigatório indicar se o alimento industrializado é transgênico ou não, graças ao ‘nosso’ medonho Congresso Nacional atual, para a alegria dos monopólios e latifúndios, e para a tristeza do pequeno agricultor familiar e dos movimentos pela tão necessária Reforma Agrária.

Estão minando e degradando o Brasil

Quem? A grande mídia e as bancadas conservadoras, monopolizadoras e elitistas do país com o endosso de parte da população mais desavisada ou ideologicamente convencida. O rebanho acompanha, obedece e até defende seus pastores e estes, por sua vez, depois fazem a carneação. Golpe a vista! Se não vier por bem, vem por mal, com o desmantelamento de direitos, projetos sociais e do próprio país. 




* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó, 1º de Maio. 



segunda-feira, 27 de abril de 2015

Força Velho Oeste!


“O que não me destrói, me fortalece” (Nietzsche)

Vindo da natureza, porém, muitas vezes devido à intervenção humana desmedida no meio ambiente, um tornado é uma das mais significativas ‘representações’ (melhor, ‘apresentações’) do poder, da força desta própria natureza que, além do equilíbrio, também é a soma dos desequilíbrios ambientais. Mais comum no norte da América, este fenômeno também acontece, mesmo que raramente, aqui no sul. E aconteceu na cidade vizinha de Xanxerê. Fui para lá com um grupo de amigos/as, já que tenho também bons amigos/as naquela cidade, prestar minha solidariedade, além da ajuda com mantimentos e mãos. O que vi foi triste. Mas, contudo, temos a solidariedade como potência de vida e continuação. A solidariedade é algo que une, integra, transforma, move. Assim como certo desequilíbrio ambiental pode ser motor de uma tempestade (ou mesmo o ‘bater de asas de uma borboleta’, como constata a teoria física do Caos), a solidariedade também move, é integradora e motor, pois gera, soma e modifica o meio. Um ato que também torna a humanidade possível, assim como sua continuação. Mais uma vez visito meu amigo bigodudo para dizer que, ‘dificuldades ou tragédias transformadas em potência nos fazem fortes’, e complemento: a partir da solidariedade que nos faz ser uma comunidade além-fronteiras. 


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 24/04.



quarta-feira, 22 de abril de 2015

Por aí...


Redução da Maioridade Penal é pouco. Queremos, ansiamos, desejamos... Sentimos tesão, temos fetiche por punição e violência. Queremos agora a pena de morte! Eu, Bolsonaro, Cunha e João. Depois a gente reza e tá tudo bem! Tudo culpa da Dilma e do PT. Impeachment já! Fora Copa! Fora Olimpíadas! Vou tirar a roupa e protestar (melhor não, sou muito feio pra isso). Antes que o Brasil vire Cuba ou Venezuela. Antes que Fidel monte sua ditadura aqui. Dizem que a dita-dura de Fidel é grande, além de dura. Nunca entendi direito esta frase, mas concordo. Vi pela TV. E a TV só diz a verdade, não é? Sempre tem quem goste de uma dita-dura. Na escola um professor me ensinou: ‘Devemos respeitar o gosto alheio’. E eu aprendi. Agora, estão aprovando a dita ‘lei da terceirização’. Uma dita que também é dura, ouvi dizer. Mas concordo, pois... pois... Bem, não importa! É contra a Dilma e o PT, sou a favor. Dizem que a Dilma pode vetar. Comunista! Petralha! Já não bastam as bolsas e cotas que sustentam esses vagabundos pobres? Se não der o Impeachment da Dilma, vou embora do Brasil. Morar num país que é ‘líder’ mundial, tipo os EUA. Lá sim tem... tem... Enfim. Fora comunismo bolivariano! Não importa se sei que não sei, o que vale é a intenção, não é?


·         Obs.: Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência (só que não!).


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 17/04.



Leituras do Cotidiano, 17/04

Vozes do espetáculo

Enquanto você pede Impeachment sem saber se é isso ou não o que deve e pode acontecer, eles vão avançando, como uma enxurrada que traz lixo, dejetos ou muita sujeira em dias de tempestade e enchente, trancando bocas de lobo, enchendo vielas, transbordando canais e inundando casas com seu lodo. Enquanto você, mesmo sem ter noção, clama por ‘intervenção militar’, eles aprovam coisas que prejudicam sua própria condição, a exemplo da PL 4330, que prevê a terceirização e consequentemente a precariedade do trabalho e de direitos trabalhistas, estes, que incluem você, seu tempo, seu espaço, sua vida. Mas você insiste reproduzindo discursos e manifestando-se contra uma corrupção que nem sequer vê ou sabe de onde vem, com quem e como é praticada. Mas não importa, você crê. A TV lhe diz e você reproduz. Enquanto você aplaude a ‘redução da maioridade penal’, como se isso fosse resolver alguma coisa, a cultura, a educação arcaica, o ‘modo adulto’ de relação com a criança, o adolescente e com o jovem se alimenta para continuar defasado, falho, medíocre, violento, desequilibrado. Cadeias que não ressocializam transbordando, assim como as vielas e canais que cruzam bem abaixo de seus pés, mas você não vê nem sente, até que a água bata na sua bunda ou chegue ao seu pescoço. Enquanto você só acha e enche os meios de comunicação e informação de lamúrias, reclamações ou discursos odiosos contra aquilo que apenas acredita ser o problema (mas não sabe realmente se é), empresários das comunicações, publicitários e indústria cultural, assim como seus produtos e ideologias, adquirem mais e mais poder, status e riqueza, graças a você. Parabéns! Se sinta útil por isso – como um instrumento ou objeto, o que, de certo modo, você acaba sendo. Enquanto o mundo lá fora lhe chama para ousar, criar, viver, você continua nas suas velhas e passadas convicções, concepções, crenças ou simplesmente, pré-conceitos. Enquanto você só age seguindo as orientações do ‘Grande Irmão’ (leia-se ‘1984’, de George Orwell), manifestando-se nas ruas sem ao menos saber a fundo o conteúdo dessa ‘manifestação’ (ou reprodução?), eles deitam e rolam sobre seu cadáver ambulante, neste jogo novelístico ou cinematográfico onde zumbis existem.  Parabéns! É figurante, não o ator ou atriz principal ou protagonista deste teatro filmado. Enquanto você corre eles descansam sob a sombra que dizem também ser sua, e que, talvez, quando o tempo passar e você envelhecer, e se por acaso, ainda estiver vivo ou ainda houver tempo pra isso, você descubra que esta sombra nunca foi sua, ou se foi, para piorar, nunca teve a chance de descansar em baixo dela. Que realidade triste é a sua. Sempre ouvindo, consumindo, reproduzindo. Sempre servindo e obedecendo. Sempre sendo usado e deixando-se usar. Sempre alimentando este ‘espetáculo’ de que faz parte como mero mantenedor. Um espetáculo onde alguns vivem legitimados por outros que apenas existem. Um espetáculo onde você e eu, fizemos parte do show. A diferença é que, um de nós tem esta leitura, visão e/ou consciência, e por causa disso, se move para além do espetáculo, para além da reprodução, enquanto ou outro, miseravelmente só faz barulho, pois sua voz não lhe é própria, apenas um eco de outra voz maior. Vozes somadas que formam uma só em consonância com o recado do espetáculo. Vozes distintas e próprias ainda hoje, infelizmente, são para poucos. Porém, podem ser para muitos, como sempre pôde, basta que, estas vozes livrem-se de certas palavras.


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



quinta-feira, 16 de abril de 2015

Arte e história Ninja: fantasia e realidade

A história dos ninjas é ‘lendária’ é circundada pela fantasia, a partir da literatura cinematográfica que tornou esta ‘cultura’ bastante caricata e/ou romantizada. O cinema, as lendas e a propaganda, fizeram dos ninjas e sua história, assim como da sua ‘arte marcial’, conhecida como ‘ninjutsu’ (alguns pesquisadores defendem que nem sequer existiu uma ‘arte marcial’ própria dos ninjas, enquanto outros, dizem o oposto, inclusive, que teve um código próprio de conduta, conhecido como Ninpo), personagens caricatas, para além da crua (e dura) realidade em que os mesmos viviam ou compunham.

Os chamados ninjas vinham de uma ‘classe social’ baixa no período ‘feudal’ japonês, geralmente, camponeses ou filhos de camponeses pobres, e ao contrário dos também romantizados pela ‘indústria cultural’ (ver conceito a partir da Escola de Frankfurt) ‘samurais’ (soldados ou guerreiros, como capatazes de uma fazenda ou latifúndio – ver o conceito de ‘vassalos’ na história medieval ocidental), não possuíam um código de honra no compromisso com seus ‘suseranos’. Ou seja, enquanto os samurais eram educados e preparados para protegerem seu senhor, suas terras e riquezas (seu poder), o ninja era contratado e pago para espionar e assassinar inimigos dos seus financiadores (senhores feudais, nobres e imperadores – numa guerra particular entre si).

De uma forma geral, alguns historiadores defendem a tese de que ninjas eram como ‘mercenários’ que, pelo fato de serem pobres (explorados e marginalizados), se especializaram na ‘arte’ de espionar e matar, sob tudo, ‘pelas costas’ ou ‘no escuro’ (no caso, cumpriam com suas funções da maneira que fosse, sem uma ‘ética’, ‘honra’ ou ‘moral’ definida). Outros, em contraponto, dizem que embora tivessem a fama de ladrões e assassinos, os ninjas tinham a espionagem como sua maior especialidade, afirmando também que eram camponeses que criaram um sistema marcial como forma de lutar contra a opressão dos samurais e seus senhores.

Ninjutsu: Defesa Pessoal?

A partir do breve contexto acima, fica difícil confirmar uma das teses como sendo a ‘verdadeira’. Mas, podemos com isso, pensar na forma como que hoje o ninjutsu é ‘vendido’ e/ou praticado, sob tudo no Brasil. No site de uma academia de artes marciais (entre tantas outras que ‘ensinam’ ninjutsu) encontramos a seguinte descrição:

“A Arte Ninja é uma das mais letais existentes por usar todo tipo de armas e técnicas simplesmente fantásticas no combate corpo a corpo. O Ninjutsu é completo, mas leva uma vida inteira para aprender tudo o que a modalidade oferece e por isso em parceria com o Dojo de Ninjutsu (...) selecionamos técnicas efetivas que capacitam o aluno a se sair bem de muitas situações sejam elas no campo ou na cidade. O Ninjutsu moderno é adaptado para nossos dias e usa táticas atuais de combate e infiltração.”
(...)
“O Ninjutsu é uma arte simplesmente espetacular, pois trabalha com todo tipo de estratégia de combate sem regras para alcançar o objetivo a qualquer custo sem desistir nunca. Como a arte ninja é em muitos aspectos complexa e exige do praticante longos periodos de treinamentos e anos de experiência. Nós do DOJO (...) com ajuda dos Mestres Ninjas do Sistema (...) criamos uma seleção de técnicas de defesa pessoal do Ninjutsu para você que deseja um treinamento diferenciado e de grande eficiência”.

  • Obs.:  As ‘reticências entre parênteses’ são para preservar o nome da academia (empresa) em questão.

Vieses

A problematização em torno do ninjutsu no Brasil, assim como as dúvidas e questionamentos a respeito, não é novidade. Alguns acreditam e defendem que esta ‘arte’ ainda esteja viva, inclusive no Brasil, e que seja possível de aprender e/ou ensinar. Enquanto outros, acreditam que, sendo uma arte própria de um lugar, contexto e cultura, sob tudo, uma arte criada por uma necessidade (de sobrevivência e ataque), se contradiz com a ideia de que possa ser ensinada como uma ‘arte defensiva’ como muitas das propagandas de academias trazem, vendendo este ‘serviço’ sem critério histórico, social e cultural algum. A partir daqui, começamos a falar em ‘responsabilidade’ social, cultural e histórica.


·        Para saber mais – e sintetizado - a respeito dos ninjas, sua arte e história: