quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Leituras do Cotidiano

Sociedade Ogroista

Vivemos numa sociedade de 'ogros'. Esqueçam da figura carismática do Shrek, não é isso. Então, quem são os ogros? Ogros são seres ditos humanos que tem um cérebro do tamanho de uma ervilha e que, por isso, usam a força bruta do corpo endurecido e domesticado pela tradição e pensam que tudo se resolve com estupidez e violência. Um crime supostamente combatendo o outro. Não conseguem compreender que, se há violência de um lado, do outro deve haver ‘paz’, sendo que, uma violência somada à outra gera uma terceira, resultante das outras duas, ainda mais intensa e de maior proporção. Somar na estupidez, eis a 'contribuição' dos ogros neste mundo...


Professor e Estudante: resistindo para existir


Sou Professor. Não vou dizer que ‘com muito orgulho’ pois isso é muito clichê e não é de todo ‘verdade’. Mas sim, tenho certo ‘orgulho’ de sê-lo. Teria mais se meu ofício fosse mais dignificado, considerado, valorizado, respeitado. Estado e setor privado, devem muito (ou quase tudo) ao professor. Mas, ao contrário, não nos tratam muito bem. Alguns pais de alunos também fazem pouco caso da nossa condição. Professor e aluno são funções preciosas numa sociedade que se queira educada, culturalmente e politicamente falando, numa educação ampla e profunda. Porém, para isso, não basta a habitual formalidade aplicada a estas funções. Como não basta todo o discurso acima deste ‘futuro’ que nem sequer existe, e que, seguindo este mesmo discurso, um futuro que depende do professor e dos estudantes. Como professor já cansei de ouvir isso. E as efetivas ações para que este tratamento e condição dignos existam? Para que este ‘futuro’ não seja só da boca pra fora? Sou professor e estudante, por isso carrego dois fardos pesados, porém, não me deixo diminuir, persisto e prossigo, lutando para que realmente minhas funções como tal sejam dignificadas a altura dos discursos e formalidades. Contudo, apesar dos pesares, ser professor e estudante, tem lá suas vantagens. E eu, como tantos, as faço dignificar, às vezes, na marra. E é assim que resistimos existindo...


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó



quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Leituras do Cotidiano

Militarismo, um governo a parte?

A partir de postagens em perfis de policiais militares no facebook, um sociólogo constatou que a violência e a discriminação faz parte de certa ‘cultura militar’. Um dos elementos mais propagados nestes perfis é a apologia à violência e ao uso de armas como pretexto moral de certa ‘correção social’. Outro fato comum é o uso vulgar do termo ‘vagabundo’ por parte significativa dos policiais, uma palavra adorada por muitos militares e historicamente carregada de significados preconceituosos e discriminatórios. A ‘cultura militar’ atual tem relações diretas com o período da ditadura militar brasileira, onde se perseguiam e reprimiam estudantes, professores, intelectuais, artistas e pensadores, em nome de uma pretensa ‘ordem’ - ordem para quem?

A psicanálise constatou que parte significativa do autoritarismo e abuso de poder, assim como outras violências, tanto físicas quanto verbais, acontecem como uma compensação de frustrações e impotências. Alguns estudiosos também falam de uma lacuna intelectual e falta de sensibilidade, sendo que, historicamente, o militarismo é marcado pela repressão e caça aos diferentes: movimentos culturais e sociais. A partir disso, a questão que não dá para ignorar: O que se ensina nos quartéis? Não seriam os policiais doutrinados para tal repressão às diferenças e minorias? 

Alguém vem e me diz que ‘policiais ganham mal, por isso agem assim’. Então quer dizer que ‘ganhar mal’ justifica o abuso de poder? Sou professor e ganho tão mal quando um policial, e muitas vezes sou mal tratado e desvalorizado na minha profissão, então se fosse por esta ‘lógica’ deveria eu descontar isso no meu trabalho e nos meus alunos?

Casos de violência policial e abusos de poder são corriqueiros no Brasil. Leia-se os inúmeros e cotidianos casos no Rio de Janeiro, por exemplo, onde policiais forjam situações para cometerem seus crimes. Aqui em Chapecó, professores e alunos da Universidade Federal (UFFS) denunciaram uma abordagem violenta da polícia contra eles numa festa. Violência física e verbal: xenofobia, racismo, machismo, preconceito, discriminação, chutes, tapas e socos, spray de pimenta e até ‘confisco’ de celulares para que não vazassem imagens da abordagem na internet. Enfim...


Nesta ‘cultura militar e violenta’, seria a polícia um governo a parte que faz suas próprias leis? Que age acima da lei constitucional? Que justiça é esta? Que moral é esta? Que ética é esta? Um crime por acaso justifica outro? É preciso urgente rever esta situação antes que tudo vire banalidade e guerra...


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó



segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Leituras do Cotidiano

Ta-lento...

Como eu queria ter talento. Pelo menos para poder escrever o melhor poema que já tenha sido parido por estas bandas.  Ser um professor organizado, regrado, correto, de moral. Ser um artista que tenha pelo menos sua arte reconhecida. Ser um homem bem aparentado e de passos firmes nesta sociedade de status, consumo e aparências de deus dará. Mas não. Nasci sem este brilho. Minha tribo é a tribo dos clandestinos malditos que resistem para poderem viver. Entre todos, meu pior desempenho: ganhar dinheiro. Eu não sei ganhar dinheiro. Nasci sem este talento. Herança de meu desafortunado bisavô italiano que veio corrido da Sicília? Ou de Dionísio, meu maldito deus em vão? Como tantos sem talento, virei professor de humanas e sociais e linguagem. Graduado e pós-graduado pelas universidades da vida – ainda faço alguns quadros que vão enfeitar alguma parede com meus títulos. Para o orgulho da mãe, sarro do pai e ignorância dos irmãos. Um caso típico de sem talento para ganhar dinheiro e se fazer notar através dos títulos. De-fi-ni-ti-va-men-te! Mas não choro ou me lamento por isso. A cerveja, o rum e o vinho são meus psicólogos e amigos mais fiéis, e é com eles que eu me abro em dias de fúria da natureza. Com eles aprendi muito, nas escolas e universidades da vida que são mesas e balcões de bar. Retroceder nunca, render-se, jamais! Não sei de onde, mais esta frase não é minha, tirei de algum lugar que me soa familiar. Já sei, da minha adolescência. Sim, já fui adolescente. E no meu tempo, não existiam todos os ‘prés’ que existem hoje. Ou seja, nunca fui ‘pré-adolescente’ ou ‘pré’ qualquer outra coisa. Saltei prematuro da infância para a adolescência. Tive boas escolas com minhas primas e suas loucuras infanto-juvenis. Voltando ao talento, tema da crônica de hoje, para se ter talento não basta nascer e viver, é preciso também desenvolver habilidades – agora falei bonito, como professor mediano que sou. Já posso discursar como um mestre talentoso e orgulhoso de si próprio e da profissão que escolheu pra si para viver. Mas o mundo não poupa nem perdoa. Se não for talentoso que pelo menos imite bem. Eis o conselho de um velho, sábio e safado mestre meu de sobrenome alemão. Ele escrevia contos, romances e poemas como poucos. Mesmo sem talento foi dos mais talentosos de seu tempo. Teve sangue fervente nas veias e pulsação nas vísceras que o fizeram ser. Escreveu com peso, às vezes elegância e muita profundidade. Também foi da raça dos resistentes. Tanto que incomoda até hoje. Enfim. Fico por aqui, pois, por hoje, minha falta de talento já rendeu o que tinha que render. Tchau!


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Leituras do Cotidiano

Abandonar as muletas


O idealismo é um dos maiores ‘atravanques’ de uma mudança de concepção e percepção ou leitura de mundo, o que reflete na mudança de atitude, o que, por sua vez, gera ações que podem mudar certa realidade. A busca da pretensa pureza ou perfeição, assim como do divino, é um embuste irreal que quase sempre tem fundo ideológico. Tudo o que é conceito purista e/ou idealizado, ligado ao monoteísmo e ao idealismo platônico parte de uma concepção ou discurso de ‘verdade única e absoluta’. A corrupção gerada por troca de interesses e certas ‘naturalizações’ está por detrás da dita representação política oficial, principalmente no ‘investimento’ (financiamento ou ‘doação’) de empresários nesse jogo (campanhas), assim como, nos atos e até nos pensamentos do homem ‘comum’ no seu cotidiano, e se isso não for visualizado, não há combate, mas apenas justificativas ou pretextos e maquiagem. O que existe e está por trás das ações, muitos talvez não percebam, é uma disputa de poder, no caso, mais, uma disputa ideológica e de linhas teóricas de pensamento ou crenças. Uma contradição, um contraste, uma discrepância. Nem céu, nem inferno, nem bem, nem mal, mas crenças, posições, doutrinamentos, ideologias e interesses humanos, sejam eles privados ou de grupos de poder, ditos também, políticos. A coisa é mais complexa do que aparenta e se discursa vulgarmente por aí. Com isso, não estou sendo negativista, alguém sem esperança ou niilista, apenas dizendo que a organização humana e sociocultural não é um paraíso platônico ou divinizado, e devemos, em primeira instância, perceber isso: essas disputas, essas contradições e ‘jogos’ que se estabelecem na realidade, no andamento da vida. O ideal não é vida, é apenas a reprodução de uma ideia mirabolante e divinizada, uma crença no além, no nada absoluto que age como um fantasma em nossos dias, não nos deixando acordar do sono entorpecido por supostas ‘verdades’ e ‘salvações’. Nisso, ídolos ou ícones, idealizados ou divinizados tem o mesmo papel, que é o de servir como referência, apoio ou mesmo ‘muleta’ para justificar determinados pensamentos, ideias, crenças e, o que é pior, ações, todas elas, tendenciosas, sejam elas provindas de certa ingenuidade, ignorância ou interesse. Eis o atravanque dos dias. Eis a submissão de certa educação familiar, religiosa, midiática, colegial e acadêmica, assim como da política oficial institucional e da formação das famílias e modos socioculturais de interagir com o outro e com o meio. Nossa ‘formação’ é reducionista e por isso, parece que precisa de ícones, deuses ou semideuses, exemplos para poder se manter sobre as muletas que nos foram dadas. Tanto que, quem já ousou, experimentando abandonar as muletas, ao invés de rastejar apoiado sobre elas, pôde andar da forma que quis ou conseguiu, e até correr.  


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



terça-feira, 22 de setembro de 2015

Leituras do Cotidiano

Mediocrização político-intelectual do Brasil

Já virou fetiche! Eduardo Cunha e sua trupe PMDBista, assim como Aécio Neves e sua trupe revanchista, estão tão fissurados e sedentos em derrubar uma sigla (PT) e dois nomes (Dilma e Lula), que ignoram todo o resto, inclusive a realidade atual do país e do mundo, assim como o passado, a história do país, suas falhas e os avanços, além do debate que deveria se instaurar: ‘a crise do nosso sistema político, econômico e educacional’. Estão tão determinados nesta caçada que acabam esquecendo (ou fazem de conta?) que também são parte deste país, deste governo, desta realidade, deste sistema, deste momento. São eles, os deputados, parte deste 'todo' que, ao invés de aprimorar o que foi feito em avanços nacionais com o olhar para a nação, retrocedem por birra ou dentro da estratégia mesquinha de 'quanto pior melhor', pondo em risco um país que ainda não se estabeleceu direito - e com atitudes assim, nunca vai. E parte da população acomodada, ingênua ou ignorante em suas existências intelectuais reproduzem esta sede de desmantelamento, não de um partido ou nomes ligados a ele, mas de uma nação.

Mas é claro, eu falando isso 'só posso ser petista ou comunista'. Assim reduzem meu pensamento e minhas palavras a um julgamento mesquinho, típico de telenovela global. Assim fica fácil desvirtuar o que é realmente significativo. É fácil ser medíocre e reducionista quando a urgência é a polidez dos pensamentos e ações. 

             Temos ainda muito o que aprender para ser uma 'nação livre' das próprias sequelas histórico-sociais, para além das vaidades pessoais, crenças obsoletas e ideologias reducionistas/ deterministas. Um dia, quem sabe, aprenderemos a perceber e ver para além do alcance do olho, da nossa miopia sociocultural. Para sermos finalmente assim, não apenas um determinado lugar no mapa e espaço, mais um povo que se perceba nação.


Um embaço!

Obs.: Qualquer coisa que qualquer um fala e aparece na grande mídia viraliza e soma-se ao espetáculo contemporâneo.











* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Leituras do Cotidiano

Nossa política (?)

Me chega uma questão de um leitor:
- Herman, de uma forma geral, o que você pensa da política brasileira?
R: "A política institucional-oficial brasileira, de uma forma quase que geral, é um antro de privilégios e interesses privados ou ideológicos, onde as formalidades e burocracias superam o bom senso e as necessidades, e a população que mais necessita dela fica a mercê das jogatinas e destes interesses. Como diria Mujica, o problema da 'grande política' é seu afastamento das questões filosóficas que devem fundamentar a realidade, as necessidades e anseios - além da fragilidade em perceber que as artes e suas linguagens tem tanta potência quanto ela própria (a política), o que reflete diretamente na educação e cultura, suas concepções e práticas cotidianas. De um modo geral, nossa 'política' institucional-oficial é burocrata, formal, insensível, reprodutora, mantenedora e distante das diversificadas realidades, ou seja, uma política platônica, dualista, segmentadora e segregadora (além de mesquinha em boa parte!). A exemplo: enquanto artistas viscerais, profundos, dignos de sê-los, sofrem para produzirem suas artes no Brasil, Fabio’s Júnior’s reproduzem mediocridades em shows pelo mundo e ganham dinheiro de leis nacionais de incentivo à cultura. Eis a falta de um olhar governamental mais apurado para com o que é produzido em arte e cultura no Brasil.

Xapecó e seu trânsito desumanizado...


 É cada vez mais difícil transitar pelas ruas do centro. Excesso de carros, motoristas mal educados e que dirigem mal, mais espaço pra carros do que para pedestres, difícil achar vaga de estacionamento por dois motivos: excesso de carros e motoristas que estacionam mal, transporte público de péssima qualidade em vários sentidos, falta de trajetos e transportes alternativos (como ciclovias, por exemplo). E entidades como a ACIC, 'preocupadas' com o número de vereadores na câmara. Se querem mesmo diminuir gastos da câmara, atentem para os gastos dos ilustres vereadores em diárias de viagem, por exemplo, e não na representatividade dos mesmos. Com poucos vereadores fica mais fácil controlar o jogo político, pois, garantem os eleitos que são financiados por entidades e empresas privadas e seus interesses, enquanto para a população, fica mais difícil de ter representantes na política institucional oficial. Ou seja, até parece pensado ideologicamente esta campanha pela redução de vereadores da ACIC. Esperteza ou ingenuidade? Não sei. Mas desconfio...


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



terça-feira, 8 de setembro de 2015

Das concepções e práticas...

Vida e trabalho

De um lado uma concepção de vida e trabalho taoista-budista oriental marcada pela constância, onde o corpo é parte fundamental da existência e a mente um complexo ‘espirituoso’ de pensamentos e profundidades, ambos em equilíbrio com a energia cósmica vital que circunda toda a existência, coexistindo em tempo real. De outro, uma concepção ocidental judaico-cristã cartesiana, marcada pela segmentação, onde o corpo e a mente são separados, sendo o corpo um território cercado como propriedade de um estado de coisas úteis, tornado doente, impuro, mecânico, e a mente um depósito de concepções ideológicas e doutrinárias que vive além do presente, em um futuro idealizado ou em um passado já sepultado, porém, sempre assombroso.


Excessos

O mundo atual agoniza devido aos excessos. Há excesso em quase tudo. Até muitos dos que se acreditam ou dizem serem ‘transformadores progressistas’ deste mundo (ou ‘revolucionários’), reproduzem, lá nos detalhes e entrelinhas das suas ideias e práticas cotidianas, os mesmos excessos, pois vivem atrelados a eles, sem perceberem que, nas entrelinhas dos seus cotidianos, ao invés de serem o contraponto, acabam sendo elementos que constituem estes excessos mantenedores.

Reproduções

Uma das maiores contradições de muitos ditos ‘progressistas’ é que, como os ‘conservadores’, veem, concebem ou tratam as linguagens artísticas e suas potências, como meros objetos de entretenimento, partindo verticalmente de uma concepção ‘economicista’ de vida, o que reflete diretamente nas suas práticas políticas e cotidianas, em que, de certo modo, acabam por enquadrar suas mentes, corpos e espaços, fazendo das artes e da filosofia meros cabides de seus desejos e fugas existenciais, enquadrando também outros, e não percebendo que, além da infraestrutura, o mundo se move fortemente também pela superestrutura (leia-se sociologia), onde o pensamento e as linguagens artísticas e suas ‘subjetividades’ residem. Por fim, acabam como tantos outros reprodutores, servindo e alimentando o modo de vida, a cultura seus valores e suas contradições. 


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Leituras do Cotidiano

O jogo das elites e a miopia dos reprodutores

Atentado a bomba no Instituto Lula e invasão destrutiva no diretório do PT em São Paulo, demonstram o nível de certa oposição ao governo federal.

FHC declarou que, se Dilma renunciasse seria um 'gesto de grandeza'. Eu diria que um 'gesto de grandeza' seria ele parar de revanchismo e hipocrisia, reconhecendo que, mesmo com todas as falhas, problemas e desequilíbrios, só com os projetos sociais e incentivos culturais, os governos Lula/Dilma foram mais abrangentes do que os seus e da maioria dos seus antecessores, e que fosse coerente e sincero, considerando em seus discursos que, o governo do PT é 'compartilhado' com outros partidos, inclusive o mais 'poderoso' deles no Brasil, o PMDB.

Se a corrupção é o grande problema do país, que se inclua neste discurso opositor, os partidos que estão no topo da lista de mais corruptos, onde, entre eles figuram o PP, o DEM e o próprio PMDB, estando o PT lá pelo 10º lugar. Então, porque o PT? As 'elites' do país ainda não aceitaram a 'democratização do capitalismo' (acessos das 'classes' mais baixas aos bens de consumo e espaços como aeroportos, shoppings, universidades, etc.) - e ao contrário do que o 'discurso' ideológico diz e ignobilmente é reproduzido, não se trata de comunismo. Ou seja, não é a corrupção, não é a má administração, não é a 'ameaça comunista'. É a não aceitação de certa realidade, a 'sede vingativa' e a tentativa de derrubar uma sigla e dois nomes o que coloca em risco toda uma nação e um projeto de país que, por mais capenga que seja, teve, além das faltas, seus avanços significativos (sob tudo nas áreas humanas - e este é o 'problema' que a oposição e seus 'reprodutores' combatem, um intencionalmente, outro cegamente).

Enquanto isso, Dilma se pronuncia a favor do 'direito de manifestação' com 'tolerância e diálogo', não com 'ódio, revanchismo e violência'. Ou seja, quem está sendo o quê neste jogo?


Obs.: Eu, Herman G. Silvani, professor de humanas e sociais e cronista deste jornal, declaro publicamente que não sou filiado em partido ou ideologia alguma - mas também não veria problema em ser, porém, não sou - por mais que ‘já tenham me filiado em muitos’, e ‘antes que venham me filiar novamente’, deixo assim declarado. Obrigado!


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



sábado, 8 de agosto de 2015

Bolsonaro, Rodrigues e Peninha em Xapecó: trio ‘di bem’ e tiros...

Rogério ‘Peninha’ Mendonça (PMDB) e seu ‘Estatuto da Legítima Defesa’ rendeu em Xapecó um Centro de Eventos com muitas cadeiras ocupadas e aplausos idólatras, principalmente pela presença do ‘arauto conservador’ e membro de um dos partidos líderes em corrupção no país, o deputado Bolsonaro e seu ‘fiel escudeiro’ o deputado oestino e ex-‘prefeito de verdade’, João Rodrigues. Na plateia um público sedento por ‘resoluções arcaicas’ dos problemas socioculturais de que eles também fazem parte, pois o crime é carregado de questões culturais, educacionais e sociais, sendo que, a sociedade é um todo.

No momento, Bolsonaro aproveitou e fez o palco do teatro ‘público’ do Centro de Cultura e Eventos (e agora também Palanque político), um palanque eleitoreiro. Sua ‘pré-candidatura’ a Presidente do Brasil foi lançada neste ‘palco-palanque’, no fechamento de um discurso inflamado que gritava o chavão nada original: ‘Fora Dilma! Fora PT!’, em que foi ovacionado pela maioria presente e pelos políticos e autoridades locais que o cercavam. Que orgulho para a nossa cidade, capital do ‘velho e bravil Oeste!’.

A partir deste ‘fato histórico’, teço algumas breves ‘análises dos discursos’ destes ‘ilustres cidadãos de bem’:

Palavras de Jair Bolsonaro (PP):

“O que o governo quer é deixar o povo na situação de cordeiro, sem possibilidade de reagir, e um povo desarmado é um povo subjugado”.

·         Apontar, mais uma vez, o dedo para cima, culpando ‘o governo’. Mas quem é este ‘governo’, já que, os senhores são deputados e, portanto, fazem parte dele? Por que é que os deputados não defendem outro tipo de armamento? Ou seja, mais educação e cultura, arte e conteúdos dignos? Neste contexto, aí sim o comentário do Sr. Bolsonaro faria sentido. Como estudante/praticante, pesquisador e instrutor de uma ‘arte marcial’ que é tida como uma das mais significativas em ‘defesa-pessoal’ ou ‘autodefesa’ do mundo (Wing Chun), pois é ‘proativa’, antecipatória ou preventiva, posso dizer que uma arma não garante nada, e que, na imensa maioria dos casos, armas são mal usadas e colocam pessoas mais em risco do que as salvam. Portanto, isso não passa de um discurso. Não é pelo final que se tem bons resultados (reação física), mas pela antecipação do problema, o que requer de outra consciência e estratégia. Não é com mais violência ou ameaças, mas com inteligência e sensibilidade que se resolvem problemas. Liberar desta forma o uso de armas de fogo é o mesmo que jogar gasolina numa fogueira. Estupidez dos senhores deputados ou interesse populista?

“Todas as ditaduras do mundo foram precedidas por campanhas de desarmamento. Isso que está em jogo (...) nesse viés do desarmamento”.

·         Este comentário é uma falácia ideológica (buscar ‘falácias’ na filosofia), pois indiretamente está supondo que o governo atual (Dilma e PT) querem manter o estatuto do desarmamento para, sem ‘reação’ do povo (dos ‘homi di bem’), possa implantar sua ‘ditadura comunista bolivariana’ no Brasil. Um discurso enfadonho que chega a ser cômico, mas que leva muita gente ‘ingênua’ (ou ignorante) no papo. 


João Rodrigues (PSD):

“Não podemos tolerar em Chapecó, nesta terra do bem, que meia dúzia de babacas, de idiotas, tentem se manifestar de forma truculenta. E isso não vamos permitir jamais”.

·         O velho jeito político de se autoproclamar ‘a voz do povo’ ou o ‘dono do pedaço’: ‘Não podemos tolerar (...) não vamos permitir jamais’, acompanhado com o discurso malandro do ‘bom sujeito’: ‘nesta terra do bem’. Ser leve para logo em seguida mostrar as garras e o ímpeto ofensivo: ‘meia dúzia de babacas, de idiotas’.

“Não quero andar armado na rua, até porque não tenho equilíbrio suficiente para andar com uma arma na cintura. Eu tenho arma em casa para que, se minha casa seja invadida, o sujeito obviamente não saia vivo lá de dentro”.

·         Neste discurso, o deputado, com uma sinceridade típica (ou atípica), deixa claro (ou deixa escapar) que seu ‘equilíbrio’ é insuficiente para o ‘autocontrole’, assim como tantos cidadãos que, a partir do momento que portem uma arma, não hesitarão em usá-la, devido ao desequilíbrio ou descontrole emocional que afeta a maioria da população (sob tudo, masculina). Em seguida, o deputado declara que tem arma em casa e com certa prepotência deixa dito que, com certeza ‘mataria’ algum possível invasor, independente do contexto, pois generalizou ao dizê-lo.

“No meu caso, no máximo teria alguém que andasse comigo e tivesse a capacidade para isso.”

·         Neste comentário, afirma que ‘teria’ (terá ou tem?) alguém ‘capacitado’ para defender (ou matar?). Porque alguém ‘di bem’, dita íntegra, teria esta necessidade, de andar com guarda-costas? Algo não fecha nesta matemática. Ou sou eu quem não sabe fazer conta.

Enfim. Assim caminha a ‘coerência’, a partir da cultura, educação e política, em Xapecó e no Brasil.

Sem mais.

      Nem menos.



* matéria 'base' na integra: 

http://redecomsc.com.br/portal/noticias/politica/Louvado_ou_execrado_bolsonaro_e_recebido_calorosamente_em_chapeco__24691





Leituras do Cotidiano

Publicação e bom senso

          Alguns acham que, por escrever e ser publicado em jornais e outros meios sou jornalista. É fácil confundir cronista com jornalista. Mas tudo bem, respeito, considero e até admiro alguns jornalistas. Poucos, para ser sincero, mas dignos com a palavra, as ideias, informações, com a linguagem e a comunicação. Não que eu não goste de ser confundido ou comparado aos jornalistas, mas, é que, de fato, não sou. Já que toquei no assunto, tenho provocações e algumas críticas ao jornalismo e aos jornalistas, da forma que eles são, pelo menos em sua maioria, penso eu. Nietzsche, um dos meus mestres na filosofia pontua o jornalismo como uma ‘cultura’ superficial: "O jornalista, por seu lado, representa a pseudocultura, a aceleração, a indisciplina intelectual, a superficialidade, a imaturidade (...) é o que opina sobre tudo e sobre todos, o que fala de qualquer coisa, o que tem opiniões próprias, mas nada mais que opiniões (...) é o que se subordina às leis da moda, às demandas do mercado, ao gosto da opinião comum. E produz afetação, autossatisfação e opinionites, e a ilusão vaidosa de ter uma personalidade livre e um pensamento próprio e original." ('Nietzsche & a Educação' - Jorge Larrosa), o que sem generalizar, é claro, eu concordo (parcialmente). Também ‘dou’ opiniões quando ‘teço’ comentários escritos, análises, pensamentos, problematizações, provocações em forma de crônica. Porém, tenho plena consciência de que elas, as ‘opiniões’, quase nunca são ‘próprias’, pois, como sempre digo aos meus alunos, elas provém de algum outro lugar, para além do ‘eu’ ou da ‘ideia’ pessoal. A filosofia (pelo menos aquela que defendo e promovo) tende a superar a mera opinião. O que existe são as ‘referências’ e ‘conteúdos’ que, sintetizados ou não, geram outros conteúdos e impressões. Eis o fundamento de escrever e publicar. Nada vem do nada em se tratando de conteúdo escrito ou dito. Por isso, é fundamental certa sensibilidade, certo primor no uso das ideias. Para isso, além  das leituras e estudos, é necessário o bom uso dos sentidos. Sentidos apurados e bem tratados. Nisso, intuição e instinto, além da razão, devem ser considerados. Ou seja, respeitar, compreender, relevar e considerar a natureza, além do fator cultural. Um equilíbrio entre natureza e cultura pode gerar um pensamento mais, digamos, interessante e livre, e menos doutrinário ou segmentado. Superar o dualismo platônico que resulta em determinismo e reducionismo da ideia, do pensamento, da palavra e da linguagem, é o caminho para um ‘publicar’ (compartilhar ou socializar) mais dinâmico e coerente com a amplitude e profundidade do mundo. Nietzsche também diria que "Para ler bem, é preciso ter todos os sentidos afiados" (e leia-se 'ler' aqui como 'leitura de mundo', para além das páginas impressas). Nisso, o jornalismo, geralmente peca. Se não dá para aprofundar o conteúdo publicado, que pelo menos se aponte as referências para uma busca mais profunda, ou se permita isso através do bom uso da linguagem. Eis que, com isso, sigo a risca um ensinamento de outro mestre: "Nunca teste a profundidade de um rio com os dois pés" (Confúcio), para que eu tenha pelo menos, minha parcela de ‘bom senso’ naquilo que publico garantida. 



* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



domingo, 2 de agosto de 2015

A luta entre Ronda e Bethe: para além do ‘espetáculo’...

Acabei assistindo outra luta de MMA entre a brasileira Bethe Correia (que entrou no ringue ao som do funk ‘Beijinho no ombro’ de Valesca Popozuda, em que também foi anunciada como faixa azul de Jiu-Jitsu e roxa de Kung Fu) e a americana ícone-modelo ‘pop’ do MMA/UFC, Ronda Rousey. A brasileira que depois de fazer provocações na mídia sobre o suicídio do pai da sua oponente foi nocauteada rapidinho. Provocações que alimentam os rumores, aumentam a disputa e incentivam a audiência do ‘espetáculo’ midiático acima do MMA – e todos/as saem ganhando com isso (ou quase todos), sob tudo, as marcas patrocinadoras, a empresa UFC e os veículos midiáticos transmissores.

No discurso do anúncio da luta, o locutor esportivo da Globo disse que a brasileira, por escolher aquele funk , ‘representa bem o Brasil’ (a autora também já chamada pela mesma mídia de ‘filósofa’). Que Brasil é este representado? Uma falácia clichê e legitimadora de um discurso, pois o Brasil não é isso, assim, deste jeito – ou só isso. Apresentada como ‘lutadora’ de Kung Fu, a brasileira provocou, entrou dura no ringue e fez sua parte no ‘show’. O Kung Fu foi citado, mas não foi visto (pelo menos eu não vi nada de Kung Fu) nesta sua participação do espetáculo, começando pela falta de respeito e aparente ‘braveza’ (lembremos que disputa e porrada dão ibope numa cultura dualista e violenta como a ocidental – é só perceber as telenovelas e suas audiências cheias de intrigas e coisas do tipo). Se houvesse Kung Fu na participação da brasileira, ela haveria pelo menos saudado a ‘oponente’ (ou ‘colega’ de ‘arte marcial’, ‘profissão’ e/ou ‘modalidade esportiva’).  Só houve, por parte das duas, cara feia e olhar de ira de uma para outra. ‘Coisa linda de se ver!’ (é realmente necessário a ‘cara feia’ nestas lutas?). E aqueles conceitos comuns feitos frase clichê nas escolas e academias ditas ‘marciais’ por aí de ‘respeito, disciplina e humildade’? No fim da luta, o também brasileiro-lutador conhecido por ‘Cigano’ disse que Ronda foi ‘perfeita’, mesmo desferindo alguns socos no ar. Certamente foi melhor em tratando-se da ‘luta’ (inclusive venceu, é óbvio). Mas ‘perfeita’? Perfeição não seria algo exatamente correto, sem erros? Mais um conceito, uma reprodução de ‘senso-comum’ a partir de certo idealismo platônico, comum no discurso corrente.

Meu olhar sobre tudo isso não é ‘a verdade’ (não se trata disso). Apenas um olhar de quem, além de estudante e instrutor de Kung Fu, é professor de filosofia, história, sociologia e linguagem, e que também se aventura pela música e estudos culturais. Ou seja, só falo do que falo ou escrevo, devido a este meu ‘trânsito’ pelos temas que integram meus estudos e ofícios.

A razão deste texto, é devido ao fato de eu ter sido perguntado por mais de uma pessoa sobre o que achei da ‘luta’.

Se for falar só da luta em sim, achei feia mas ‘eficiente’ (deu certo). Vi uma fera agressiva indo pra cima de outra que, também agressiva, não teve chance de revidar. Simples e direto assim, por mais que me falem em ‘técnica’ e tudo mais. Eis a incógnita entre luta, espetáculo, arte marcial e esporte. Alguns defendem que MMA é tudo isso, outros acham que não. De minha parte, voto em primeiro lugar no ‘espetáculo’ (leia-se ‘sociedade do espetáculo’ a partir de Debord), depois na ‘luta’, seguido pela ‘violência’ (que vende e é consumida em grande escala na nossa cultura), depois ‘esporte’ (o que muitos questionam que seja), e por fim, ‘arte marcial’, pois de ‘arte’ (enquanto linguagem manifestada com intensidade e sensibilidade) não vejo quase nada, e ‘marcialidade’, um pouco mais, mas também muito pouco, pois ‘guerra’ é outra coisa, diferente de uma ‘luta’ regrada e cercada entre duas pessoas que disputam, sob tudo, um status. Acho que assim dou algumas respostas para questões que me foram feitas.

Como vivo com e das minhas ‘funções’ (já citadas acima), minha leitura não haveria de ser diferente (ou haveria?). Questão de coerência com aquilo que se faz, se estuda e se vive.


Obs.: A intenção do texto não é deplorar as lutadoras, o entretenimento em si, ou a ‘arte marcial’ em questão, apenas analisar fatos como estes a partir de outro ‘olhar’, já que no discurso corrente midiático, tais elementos - filosóficos, sociológicos e culturais – são (foram) citados.