sexta-feira, 1 de abril de 2016

O que eu defendo...

Eu, Herman Gomes Silvani, brasileiro, estudante e professor de filosofia, história, sociologia, linguagens e Kung Fu, assessor de comunicação e político de sindicato (professores das instituições particulares e comunitárias de ensino), escritor e compositor musical, no contexto atual, não estou defendendo dois nomes e uma sigla partidária, estou defendendo algo bem maior: o pouco que se tem daquilo que se entende por 'democracia'.
Defendo projetos socioculturais que elevam as categorias intelectual, cultural, artística e econômicas (economias sustentáveis) do país. Como cotas, bolsas, instituições públicas de ensino, editais públicos de produção artístico-culturais, entre outros acessos. Defendo a democratização dos acessos que como nunca antes na história se teve. Defendo meu 'vale cultura' que acaba de chegar. São 'apenas' bons R$ 50,00 por mês para gastos exclusivos em material artístico-cultural-educacional, coisa que antes da conjuntura dos últimos 13 anos, não existia. Coisas que elevaram, em certo sentido, a sociedade brasileira a um nível jamais antes experimentado.
Por isso e por outras, é que me posiciono contra o ‘golpe midiático-político-empresarial’ endossado por instituições e alguns juízes deste país. 
Enfim. Para além dos 'achismos', das reproduções espetaculares, das ideologias e mídias, defendo algo 'concreto' e real. Eis!


Uma dose de pessimismo (ou realismo?)

Não espero muito de um país que mais uma vez está para marcar sua história com um golpe (desta vez de um casamento entre judiciário e grande mídia). Em outros contextos, mas já aconteceu com Vargas e com Jango, e neste exato momento está acontecendo hoje também. Judiciário, mídia, alienação e ignorância de parte da população só pode dar nisso. Num sistema onde 'financiadores' e 'delatores' (ambos criminosos) tem voz ativa frente a ‘justiça’, esperar o que? Talvez nossos filhos ou netos consigam mudar isso. Talvez! Ou sofrerão as consequências do hoje, como foi com nossos avós e pais. Mas, contudo, espero estar equivocado...


Como o mundo-verdade tornou-se uma fábula

“Há mais ídolos do que realidades no mundo.”
(Nietzsche - 'Crepúsculo dos Ídolos')


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



sexta-feira, 18 de março de 2016

A imagem do século!

Poderia ganhar o prêmio de ‘A imagem do Século - made in Brasil’. A imagem do século é uma imagem da decomposição. A decomposição de uma cultura ou uma nação que talvez nunca tenha chegado a ser. E foram várias tentativas de justificá-la, nenhuma convincente e com sucesso. Família rica (ou pelo menos classe-média alta), branca, saudável (externamente e aparentemente), saindo à rua num domingo ensolarado para ‘protestar contra a corrupção’. Moralizar uma situação sendo imorais ou sem ética. Eis a contradição da imagem. * A imagem: ‘o marido-pai, jovem e forte, acompanhado da esposa-mãe, também jovem, que vai conduzindo um cachorrinho de raça, ambos vestindo as cores da bandeira do Brasil, enquanto a empregada doméstica e babá, negra e pobre, vestindo uniforme de trabalho, empurra o carrinho de bebê com os dois filhos do casal classe-média-alta’. Em tempo de crises, isso mesmo, crises, no plural, pois, uma das maiores crises, como bem relata a imagem, é a crise de valores, o pai, sendo jovem e forte, bem poderia empurrar o carrinho dos bebês, não poderia? Questão de justiça, gentileza ou generosidade aos mais velhos, ‘fracos’ e necessitados. Em outros tempos, um ‘homem’ digno de sê-lo faria isso. Mas, os tempos são outros. Depois das críticas a imagem, resumidamente, a justificativa publicada do casal traz o mesmo discurso arrogante e medíocre de sempre: ‘pagamos bem a empregada para que faça seu trabalho, se não estiver contente, tem a liberdade de pedir demissão’. Neste tom a justificativa do ‘nobre’ casal representa parte significativa de uma dita ‘classe média’ e ‘alta’ no Brasil que, de sensibilidade e cultura (no sentido de certa profundidade intelectual e/ou refinamento artístico, portanto, de sensibilidade humana) não tem nada, quem dirá de consciência social e política. Só tem certo ‘poder’, ou melhor, dinheiro, capital, e autoproteção ou certo privilégio por isso. Nada mais. Uma condição tão miserável como tantos que desfilam suas soberbas, suas arrogâncias e mediocridades pelas ruas e redes sociais da vida. E a manada reproduz esta ‘naturalidade forçada e artificial’ como se fosse a ordem natural das coisas, ou um caso de ‘justiça’ pautada na crença da meritocracia. Assim as classes sociais se dividem e uma explora a outra para manter seus privilégios e confortos egocêntricos e bizarros. O sonho de muitos que ainda não chegaram lá e o pesadelo de muitos que nunca vão chegar. A imagem é violenta, humilhante. Pior que, o pouco que pude ler/ouvir da empregada, concorda com muito do que seus patrões disseram na sua justificativa publicada. Sem consciência de classe, a empregada é parte da decomposição do bom senso e da sensibilidade que outrora cintilava pelas ruas, constituindo a imagem da humilhação, o que muitos confundem com humildade. Pelo que falou em entrevista, sente-se parte de um ‘processo natural’ civilizatório-evolutivo - ou divino. E a imagem da decomposição exala seu cheiro de um modo de vida em estado de putrefação, compartilhado e integrado por muitos que, como o casal em questão, justificam seus mundinhos mesquinhos e humanamente miseráveis com uma imagem soberba de poder, até que um dia morram e suas imagens, junto à sensação de poder, sucumbam na inevitável decomposição dos corpos já sem cor ou classe.


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



terça-feira, 15 de março de 2016

O maior espetáculo do Brasil!

Não, não é anúncio de circo (mas poderia ser). O maior espetáculo do Brasil foi televisivo e aconteceu há poucos dias atrás. A condução de um dos (senão o mais), popular político da história do país, o ex-presidente do Brasil, Sr. Inácio Lula da Silva, coercitivamente, para depor na PF (Polícia Federal – mas poderia também ser ‘Prato Feito’) filmada em transmitida (com comentários) ao vivo pela emissora mais ideológica da nossa televisão aberta (plim-plim!). Políticos intimados a depor no Brasil - virou rotina. Uma pessoa que vai depor não significa que tenha culpa de algo ou seja criminosa, é apenas parte de um processo investigativo. E, Lula, por ser um homem muito popular, até entendo que gere certo alvoroço dos meios de comunicação de massa que, em vários aspectos vivem disso, ou seja, de ‘rumores’, mesmo eles tendo pouca ou nenhuma relevância na ordem do dia ou das coisas. Notícia por notícia, informação por informação (ou desinformação), as programações de televisão estão cheias, porém, tudo tem seu limite (ou pelo menos deveria ter) - e também deveria ter seu bom senso, mas... Nossa história da ‘comunicação’ pública (ou melhor, ‘publicada’), é em grande parte bizarra. Sempre atendendo interesses privados de grupos de poder. Foi assim com o golpe militar-midiático (não necessariamente nesta ordem) em 1964. Foi assim com Getúlio Vargas e sua ‘mortal’ oposição lacerdista. Depois, já no período democrático, com as campanhas do Lula para presidente. Neste período se fabricou até um dito ‘caçador de marajá’ (Collor de Mello) que derrotou Lula e depois foi derrubado pelo primeiro e único caso de Impeachment da história do país (até então). Tudo isso, sempre tendo a grande e fundamental influência das grandes mídias do país. Até que um dia, em outro contexto mais recente, de tanto tentar, Lula conseguiu ser presidente. Mas, os interesses privados e ideológicos da grande mídia, seus aliados e financiadores (grandes empresários e latifundiários) não poupam. E se arma mais uma vez um grande circo que conta com muitos palhaços para rirem-se e/ou certo público receptor para reproduzir e assim manter o ‘espetáculo’ e os interesses por trás dele. Enquanto a condução espetacular de Lula para depor é assistida ao vivo pela TV, Aécio Neves, o grande nome da oposição (ainda! - por não terem outro nome melhor), é citado 5 vezes na Lava Jato. Será que, na próxima mobilização contra Dilma, Lula, PT, comunismo, bolivarianismo, esquerda, etc., os ‘manifestantes verdes-amarelos-contra-corrupção’ vão protestar contra o envolvimento neste ‘jogo’ sujo (político-econômico que é a política oficial-institucional brasileira) de Aécio e da própria oposição? E a oposição afirma em alto e bom tom: “Não vamos aprovar nenhum projeto do governo até que a presidente não caia”. Eis pelo que a oposição trabalha! Agindo assim, estão pensando no país? Na população? Não, apenas no ‘joguinho dissimulado’ que é a nossa política e seus interesses privados e ideológicos. Estão cagando para o país e para você que, tolo, reproduz o discurso midiático. Enfim... No meio da fumaça de um circo pegando fogo é mais fácil se esconder. E os palhaços, mesmo sufocados, continuam rindo-se...


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



sexta-feira, 11 de março de 2016

Na noite xapecoense: 'pessoas elegantes e pessoas enfeitadas'...

Certa feita, certo 'pensador' disse: 'no mundo existem dois tipos de pessoas: as elegantes e as enfeitadas'. Nisso, ouço pelo rádio uma chamada para duas festas do dito 'sertanejo universitário' de uma dita 'casa de shows' (meio badalada) aqui da cidade, que dizia: "O que acontece na 'casa' fica na 'casa'" - e outra: "Se eu não lembro, não fiz". Estes são os nomes das 'festas'. Percebam o recado sugestivo que estes nomes de festas trazem em si. Como tantos eventos de 'música popularizada' (e não 'popular' como se diz), convites sugestivos que induzem e 'tentam' ser 'descolados', inteligentes e bem humorados, mas que, no fundo são apenas discursos clichês e apelativos. E o 'estilo musical' traz em si o complemento 'universitário'. Com isso, conseguiram ludibriar direitinho àqueles que não pensam por si próprios e 'vivem na carona' de outros. Nessas festas prevalece certa 'breguice' (não me refiro ao 'brega' popular como proposta estético-provocativa), mas sim àquilo que quer ser sofisticado ou inteligente e acaba sendo vulgar e caricato. Um pseudo-refinamento, uma tentativa discursiva de elegância, inteligência ou sofisticação. Começando pelo anúncio dos eventos e pela 'baixa qualidade' artístico-musical das atrações e indo até a 'ação de rebanho' e falta de personalidade daqueles que apenas consomem e são consumidos, seguem modas e alimentam o circo horroroso que é esta 'cultura do espetáculo', da frivolidade e da falta de ideias e imagem próprias. Elegância é outra coisa. Falando em cultura, a 'cultura popular' em sua maior expressão está no interior, nas suas festas e ritos, como as das etnias indígena e cabocla. Mas, a questão que problematizo é o centro da cidade mesmo, no que alguns chamam cultura pra juventude. Acontece que não há uma política pública quanto aos espaços para a questão sociocultural na cidade, aí o negócio fica concentrado no setor privado. Assim ficamos reféns do capital, do dinheiro. As poucas ações que existem, geralmente vem de pessoas que se organizam independente do poder público, na maioria das vezes em 'feiras’. E mesmo nestas, predomina o ‘comércio’. Elas precisam ter mais elementos artísticos, assim como incentivar o 'escambo' (troca) e valorizar os artistas que se apresentam e expõem sua arte, para além da compra e venda. Em se tratando de 'artesanato', acho válido que se comercialize, como acontece, porém, também defendo que precisa mais espaço e incentivo e valorização da 'arte' mesmo, dos artistas e suas expressões. Não sendo contra, muito pelo contrário, é digno que aconteçam feiras, e que o artesanato, assim como o 'comércio alternativo', tomem seus espaços, porém, como já disse, para ser algo mais abrangente, a arte e suas expressões precisam acontecer e serem valorizadas também, assim como está sendo o 'comércio alternativo'. E isso, para se tornar uma cultura, um hábito em Chapecó, depende, além da organização, dos que frequentam e vivem isso, sejam eles 'artistas' ou 'apreciadores' das artes, de investimentos e projetos vindos do poder público. Ofertar isso à população é obrigação, e assim ter espaços diferentes ou alternativos aos das festas privadas cheias de enfeite e pouca elegância.


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó



quarta-feira, 9 de março de 2016

Falta dizer...

‘Copiei’ o título acima de um colunista de um outro jornal que roda na cidade. Dizem ser jornalista e psicólogo. Se assim for, estamos mesmo ferrados. Se jornalista, até não me surpreendo, pois muitos (infelizmente) têm este perfil. Mas, psicólogo?! Refiro-me a um conhecido comentarista que já foi ‘expulso’ de um meio de comunicação televisivo, mas continua com suas mediocridades ‘intelectuais’ em outro, além do tal jornal. E de que perfil me refiro? Um perfil mesquinho, um tanto conservador (no sentido ignorância) e bastante medíocre na abordagem dos assuntos. Mas, não é dele nem dos meios que abrigam suas palavras medíocres que, por fazerem isso, devem compactuar com elas, que venho valar. Falta dizer que a ‘epidemia’ de doenças causadas pelo famoso ‘mosquito da dengue’ (personagem antigo do programa da Xuxa) tem hospedeiro. Não, não é um macaco das florestas da grande mãe África. É um ‘sistema’. Também chamado de ‘modo de vida’ ou ‘cultura’. Então, falta dizer que o mosquito ampliou seu território, desconsiderando até as estações do ano, passando a sobreviver e infectar também no inverno. O bicho gosta de umidade e calor, principalmente. E eis a mudança climática dada pelo ‘aquecimento’ do planeta para hospedar este hóspede inóspito para o ser humano. Eis o lixo que este sistema e sua industrialização e consumo massificados produzem, moradia das larvas e futuras doenças. Eis os agrotóxicos que matam seus predadores e o fortalecem cada vez mais. Eis o sistema dito civilizado, capitalista, desenvolvido, das soluções fáceis, da ciência de ponta. Todo ele em risco por causa de um mosquitinho. Antes mesmo de qualquer tecnologia ou filme de ficção científica, a natureza (a mãe das mães) já tinha sua própria tecnologia. E eis um ser tecnológico e mutável desta natureza. A intervenção e abuso da cultura humana na natureza gerou uma transformação dela, onde o mosquito se tornou mais forte e passou a se reproduzir e se espalhar por tudo quanto é canto. Agora, segura o bicho! O desequilíbrio climático dado pelo aquecimento global, pelos excessos de produção de lixo e seu acúmulo, pela falta de uma cultura e educação que se sustente, ou ‘sustentável’, onde tudo possa se aproximar mais da natureza, como propõe o taoismo (enquanto filosofia e não religião). Equilíbrio ou sustentabilidade, este é o caminho. Talvez, o único que ainda nos resta. O mais é excesso e falsa crença num pretenso ‘progresso’ ou ‘desenvolvimento’. Um modo de vida que pena frente a um mosquitinho de nada?! Um sistema de alta tecnologia onde se viaja pelo espaço, mas não se consegue (ou não se quer?) tratar de problemas básicos da vida humana, como exploração do trabalho, violência(s) e fome? É, falta dizer o que a maioria não está dizendo! E mais que isso, fazer! E mais que isso, ser!


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Nossa divina comédia

A divina comédia humana! Canta o mestre Lira (Lirinha, ex-Cordel do Fogo Encantado) numa das suas magníficas canções. A divina comédia também é uma antiga obra literária de Dante e o nome de um disco dos Mutantes, umas das mais incríveis bandas musicais da história deste país. Escândalos, corrupção e confusão. Capa da Veja. Notícia do Jornal da Globo. Crença dos mais ingênuos, desavisados - ou estúpidos mesmo. Enquanto isso, vivemos ‘a ditadura perfeita’ (título de um baita filme do diretor mexicano Luis Estrada) conduzida pela indústria cultural (leia-se conceito em: Escola de Frankfurt), e/ou pela ideologia maniqueísta, privada, mercadológica, publicitária dos meios de comunicação de massa e seus financiadores. E assim vai. Eis nossa divina comédia, talvez, não tão humana. O ponto mais positivo de nosso primeiro governo de esquerda da história democrática, iniciado pelo presidente Lula e continuado pela presidenta Dilma, foi, como disse um dos grandes comediantes brasileiros da atualidade, a ‘democratização do capital’, no que eu diria, a ‘democratização dos espaços e acessos’. Pobre no shopping, no aeroporto, comprando, vivendo um tanto melhor, melhoria dos acessos e condições com os programas sociais (cotas, bolsas, Enem, novas universidades federais, etc.), geraram a revolta de uma ‘classe dita burguesa’ pelos marxistas, no que eu digo, uma ‘classe monopolista’ ou ‘elitista’ que não tolera ver ‘povo’ dividindo espaço consigo, e assim perdendo seu antes exclusivismo. Não que o governo atual não tenha seus furos, suas falhas (como todos os outros também tiveram), mas, o ‘anti-petismo’ traz como principal elemento esse ‘ódio de classe’ (por assim dizer). Coisa, não de país, mas de mentes subdesenvolvidas. E elas estão por aí, em todas as ‘classes’, mas principalmente na média, alta e média-alta. Por outro lado, a incapacidade do governo de fiscalizar mais de perto (e em algumas situações até de compactuar) as questões problemáticas do país (usurpações, corrupções, etc.), acaba facilitando a continuidade dessa cultura de desmantelamento da nação (se é que um dia já fomos uma). Governo fraco (neste sentido) e oposição elitista, vingativa e medíocre, e eis o resultado. Além da melhoria dos acessos com esta democratização a que me refiro, o governo deveria tratar de buscar a melhoria dos conteúdos. Ou seja, certos critérios que façam com que a indústria cultural e suas mídias realmente veiculem conteúdos que sejam diversificados, dinâmicos e abrangentes. Aí sim podemos sair deste ‘estado de comédia’ para entrar em um estado novo, onde os risos possam ser reais e sinceros.


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Demasiadamente humano

Queria estar por dentro da aventura das palavras que correm a frase. Queria compor o texto até o fim, linha após linha, parágrafo após parágrafo, para que quando terminasse, algum leitor dissesse baixinho: ‘Deve ter sofrido, mas terminou’. Um reconhecimento. Queria dizer coisas que não se dizem a qualquer circunstancia ou momento, a qualquer preço, por qualquer motivo. Dizer coisas importantes, grandes, inusitadas e de impacto. Mas só sei o óbvio. Alguém deve saber mais que isso, mas não se manifesta. Por quê? Gostaria de saber. Queria falar do pássaro bem-te-vi que canta toda manhã na janela da minha cozinha enquanto tomo meu Nescafé amargo. Queria ter a sensibilidade de falar do cão que passa triste todo dia às cinco da tarde em frente a minha casa, falar do dia e da noite, suas nuvens e suas estrelas, seus princípios e seus fins. Queria falar do mundo, do tudo e do nada, onde eles se encontram – deve ser na curva de algum lugar impossível. Queria entender a física quântica, Freud e a poesia do Mano Lima. Meu avô disse um dia que eu poderia falar, poderia escrever e me expressar sem objetivos, mas eu não acreditei. Hoje, ainda duvido. Queria beber cerveja comendo fritura no bar da esquina e, sentindo o cheiro da chuva chegando, alertar os que estão em volta: ‘Vai chover!’ – só para me achar alguém especial (mas não há nada de especial nisso). Queria falar aos meus alunos do problema ambiental sem precisar de tanto argumento, fazendo-me compreender facilmente. Mas não, estou aqui, parecendo um doido, no encosto de uma sombra diurna, sonhando com o que ainda não fiz e talvez nunca faça.
Contudo, eu devia estar satisfeito, conformado, com tudo. Mas não, prossigo insatisfeito. Procuro e não acho e quando acho já não quero mais. Minha vida é cheia de vontades e possibilidades, de limites e paixões e muitas negações. Minha vida é uma história e pode ser um conto, novela ou romance. Uma canção. Um dia, quem sabe, um poema.


O ato de escrever...

“O escritor é o arauto emocional de seu país e de sua classe, é seu ouvido, seus olhos e seu coração; é a voz de sua época. Deve saber tanto quanto seja possível, e quanto melhor conheça o passado melhor entenderá seu próprio tempo, (...)”.

(“Como aprendi a escrever” – Maximo Gorki).


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.




terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Vida - para além de um grito de gol...














"A grande virtude do Céu e da Terra chama-se vida" (‘I Ching, o Livro das Mutações’)

O ano começa no nosso calendário gregoriano-ocidental e continua no tempo livre da vida tal como ela é, cheia de natureza, caos e algumas ordens ou organizações próprias – além da organização sociocultural humana. Pois bem. Nós com a vida continuamos, sobreviventes em meio aos trâmites do tempo. O clima anda revolto, com tempestades e outras violências aumentadas pelo aquecimento global. A correria que o ‘homem civilizado atual, profissional e bem sucedido’ condiciona para a educação, cultura e modo de vida, reflete em outra corrida, a ‘corrida para a morte’. Sua morte. Nossa morte. A própria morte do homem que corre e nunca chega - pois já está. Essa, esta, isso e não aquilo é a vida. Sem tirar nem por. Assim mesmo. Quem segue o discurso idealista-reducionista de ‘se dar bem na vida’ já está automaticamente correndo, buscando, não a vida, mas a morte, pois é ela, a morte, a única que chega – a vida sempre está. Sim, tudo bem, pode ser. Se existir um ‘depois da morte’, aí, talvez então saibamos se existe algo como ‘outra vida’. Uma ‘vida pós-morte’ muito prometida pelas religiões. Seja no alcance do paraíso ou por encarnação, não temos esta ‘projeção de vida’, pois a vida que temos é esta, aqui e agora. Mas, todos realmente vivem esta vida? Ou alguns (ou muitos) apenas sobrevivem sobre ela? Acontece que, em várias situações desta vida, pessoas ‘escolhem’ coisas para fazer e então ser-estar que reduzem a potência das suas próprias condições de viventes. Ou seja, no leque de possibilidades que a vida é ou nos oferece, muitos ‘optam’ pelo ‘comum’ ou pelo que está na moda, ou ainda, pelo que lhes parece mais conveniente e/ou fácil, movidos por certa comodidade ou preguiça mental e física. Pior é que com isso, levam consigo outros, ou pelo menos, situações ou contextos se criam integrando outros devido a essa comodidade ou preguiça. Eis que muita coisa incoerente, bizarra, mesquinha, superficial acontece e toma boa parte do espaço daquilo que poderia ser grandioso ou pelo menos instigante para a vida e a organização sociocultural humana como um todo. Falo em ‘reflexo’. Ações, assim como palavras, refletem no mundo, na vida, tornando-se partes deles. E nisso, se integram as ‘escolhas’, as poucas que realmente nos aparecem como ‘oportunidades’ ou ‘possibilidades’, pois grande parte delas são induções ou alienações. Portanto, vivamos, para além das convenções...

 “Desta bagagem de valores convencionais é que o homem deve se descartar, primeiro que tudo, antes de poder ser livre.” (Chuang Tzu)


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

'Chapecó, onde tudo acontece...'

“O pensamento ocidental está fixado no hiato entre o que é e o que deveria ser.” ('constatação' taoista)

A 'inteligência' xapecuína (no caso, do seu poder público e de parte da população: comerciantes, empresários, 'artoridades', etc.), mais uma vez vem á tona. E as culpadas são 'Elas', as árvores. E sempre Ela, a Natureza. E o homem, imbecializado com sua crença e status de cunho judaico-cristão-cartesiano-eurocentrista-eurocêntrico, mais uma vez prova sua mediocridade e estupidez. Acredita piamente (ou se convenceu, se enganando hipocritamente) que controla ou domina, ou pode controlar ou dominar a natureza, assim como reza sua crença ou seus interesses que dizem que 'a natureza foi feita por um deus - com características humano-masculinas, é claro - para servir ao homem'. 'Homem-divino' que, imbecilmente, à medida que constrói, destrói sua própria vida, em nome de um pretenso progresso admitido em um tempo linear, que também não passa de uma estúpida crença, naquilo que insiste também imbecilmente de chamar de desenvolvimento. E são Elas, as queridas, suntuosas, fundamentais Árvores as 'culpadas' - e que são vítimas desta medíocre crença e deplorável atitude 'humana-civilizada' (e besta!). Sim, tempestades e vendavais acontecem. Sim, Árvores caem. Assim como o concreto (telhas, tijolos, vidros...). Assim como os impérios, as máscaras, os homens. E, a exemplo, não foi nenhuma Árvore que caiu sobre o meu carro na mais recente tempestade que aconteceu por aqui. Foram destroços de 'construções humanas'. E aí, vão derrubar casas e prédios comerciais e habitacionais por isso? Vão derrubar suas empresas e a prefeitura? Então, porque as culpadas são as Árvores? Por que a causa de todo mal é a Natureza? Eim, seus caricatos vestidos de inteligência e racionalidade?! Algumas Árvores com mais de 20 anos, outras bem novas, que passaram e resistiram neste tempo todo por várias tempestades, e só agora, este pretexto, esta desculpa ou justificativa. O que há? Elas também estão 'atrapalhando' a exposição das mercadorias nas 'vitrinas' das lojas do centro?

Uma imagem deprimente pela televisão: um casal de idosos de uma cidade vizinha e pequena, assistindo a derrubada das Árvores no centro, enquanto abrigavam-se na mísera sombra de um poste. Eis a imagem do seu desenvolvimento, do seu progresso, da sua 'inteligência', sendo que, o clima está como está devido justamente a isso, a esta arrogância e estupidez do homem supostamente desenvolvido e dominador da natureza. Enfim... 'Não é Efapi, nem Expoeste. Mas é espetacular!'

 “Céu e terra não têm atributos e não estabelecem diferenças: tratam miríades de criaturas como cachorros de palha” (Lao-tsé, Tao Te Ching)



* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.




terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Evangelicalização da cultura e política brasileiras

Cultura e política brasileiras convertidas e doutrinadas. No Estado brasileiro dito ‘laico’, deputados-pastores, alguns deles investigados por corrupção (leia-se Eduardo Cunha, presidente do Congresso Nacional e principal nome na tentativa de processo de Impeachment da presidenta Dilma, processado por não declarar seus milhões ilícitos depositados na Suíça), promovem cultos antes das sessões da câmara. Em Chapecó, uma imagem opulenta de Jesus no pano de fundo da câmara dos vereadores onde discussões e aprovações ou não de projetos acontecem sob o olhar ‘justiçador’ do Cristo. Ídolos midiáticos como jogadores de futebol, lutadores de MMA, apresentadores de telejornais e programas de auditório, duplas de sertanejo universitário, entre outros atletas e ‘artistas’, todos convertidos, motivados e justificados nas suas carreiras ‘profissionais’ privadas pela religião. Ícones da nossa cultura midiática sempre que iniciam um jogo de futebol ou uma luta de MMA, ou quando fazem um gol ou ganham alguma luta, apontam o dedo indicador para o céu num gesto típico dos convertidos, algo muito comum de se ver atualmente por aí. O ‘drama’ (ou ‘trama’) da separação Joelma e Chimbinha (banda Calipso), caso regado de acusações, espetáculos e violências. Antes desta ‘novela’, reportagens sobre a vida idealizada, cercada de riquezas e uma forjada ‘simplicidade’ e cumplicidade amorosa entre o casal que, declaravam-se em bom e alto tom serem evangélicos. Até suas intimidades com o pastor da sua igreja e sua família protagonizaram cenas deste espetáculo regado a discursos emotivos midiáticos e fé, muita fé (ou uma encenação religiosa dela). Todos justificam seus ganhos ou sucessos pessoais atribuindo estes à deus. “Não tomarás o nome do senhor teu Deus em vão; porque o senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.” (Êxodo 20:7). É o que diz o texto bíblico. Não que eu ache que tudo o que vem da religião seja ruim, não é isso (ou pelo menos, simplesmente assim), mas a questão é que, esta ‘evangelicalização’ da cultura e política brasileiras acaba submetendo a própria cultura e política ao discurso e aos trâmites da religião, em que, seus preceitos antigos (historicamente, em grande parte, desatualizados ou arcaicos) e subjetivos, usados de forma ideológica por muitos ‘líderes religiosos’ e políticos, servem à interesses privados. Isso não é um ‘achismo’ meu, mas uma constatação (leia-se o que acontece no nosso Congresso Nacional hoje com a dita bancada cristã votando em massa conforme seus interesses religiosos particulares). Esta ‘evangelicalização’ acaba criando uma cultura atrelada à determinada ‘crença’ (discurso), onde o limite é, justamente, o que é permitido, abençoado ou não pela religião, melhor, pelos interesses dos seus líderes. E neste caso, é a religião quem se converte em política ideológica. 


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó



sábado, 2 de janeiro de 2016

Rock e saudosismo: uma reflexão de hoje sobre o ontem e para o amanhã...

Quando comecei a ouvir rock, lá no final dos anos oitenta, tinha o mesmo sonho que muitos roqueiros novos hoje também têm. E eu era uma criança. Incrível como hoje isso ainda existe! Em menor grau, mas existe. Uma febre. Vendo aqueles rock-stars, com seus glamoures, guitarras e equipamentos caros, carrões e alguns que tinham até aviões, cercados de belas mulheres, roupas e posturas extravagantes, etc. Tudo resumido no discurso midiático do velho e reducionista clichê: ‘sexo, drogas e rock’and’roll’. Era tudo. Uma ‘rebeldia’ incontida e meio sem causa – ou bastante! (hoje vejo mais como uma ‘pseudo-rebeldia’, pois é algo bem individual e privado). Cresci assistindo filmes do Elvis e comecei no rock ouvindo rock’n’roll’50, depois jovem guarda, hard rock, algo de progressivo e psicodélico. Mas o tempo passou e eu cresci, não tanto em tamanho físico-corporal, mas mentalmente. Naquela época tive sorte ou sei lá o que, pois esta ilusão de status ‘rock-star’ em mim, durou muito pouco. Devido, talvez, a minha timidez, além da educação um tanto rígida que recebi do meu pai e por minhas leituras em literatura, poesia e filosofia. Ou seja, o ‘sonho’ ou ilusão de rock-star pra mim foi um flash. Logo comecei a produzir e compor. Montei minha primeira banda no início dos anos noventa, ainda muito jovem. Comecei com bandas punk. Alguns anos depois, voltei ao ‘rock clássico’, ao garage rock e ao psicodélico. Fui para o rock progressivo com nuances psicodélicas, até assumir de vez o garage rock e o psicodélico. Aos poucos estes títulos ou estilos passaram a se fundirem e geraram o som que faço hoje com meus companheiros/as de bandas. O ‘estilo’ já não é tão mais importante, mas a música e a sinceridade em fazê-la, é. Uma necessidade existencial e artística (de expressão), onde a ideia ou desejo de ‘sucesso’ e/ou ‘fama’ típico do ‘rock-star’ não faz a diferença.

Os anos se passaram e tive boas oportunidades e bons contatos que me trouxeram muito conhecimento musical. Tive acesso e aproveitei. Tanto que tenho uma ‘coleção’ de sons considerável (em rock e muitos outros estilos musicais, além de conhecer outros tantos). Nisso, confesso que também tive minha ‘febre’ saudosista. E ainda bem que para mim foi apenas mais uma ‘febre’, mais um flash. É fato que os anos de 60 e 70 produziram muito do que é significativo, historicamente falando, em rock. Porém, isso também é relativo, pois tivemos muita coisa boa nos anos 50, 80, 90, como temos agora nos 2000. Talvez, a maioria do que ouço em rock data dos anos 60, 70 e 2000. Em menor escala dos anos 90. Por fim, 80 e 50 (não necessariamente nesta ordem). Mas, também é fato (não reconhecido ou concebido por muitos, principalmente pelos chamados ‘saudosistas’) que hoje, em 2016, encontramos bandas e discos tão bons quanto foi nos anos 60 e 70. Só não aceita isso quem é mesmo ‘saudosista’ ou não pesquisa o suficiente, ou ainda, não abre a cabeça (e os ouvidos) para o que de bom (muito bom!) está sendo composto, produzido e lançado em disco por aí. Saudosistas são viciados. Viciados no tempo que passou. Olham para trás toda vez que precisam encarar o tempo atual (presente), buscando recuperar aquilo que não volta mais – o tempo. Não que o tempo, o mundo ou a vida, sejam algo linear como quiseram algumas (e predominantes – infelizmente) teorias filosóficas modernas relacionadas ao tempo, mas, o tempo não para e não volta em existência. Ainda bem que os registros do passado existem e continuam ecoando, inspirando e servindo de referências para o novo. Mais que isso, falamos em cópia ou plágio. Algo nada autêntico ou sincero. Nisso, o tempo de atuar, compor, produzir é hoje. É agora! Mas no saudosismo idealista dos saudosistas, geralmente esta realidade não é aceita. 

Para compor e fazer ecoar algo sincero e autêntico hoje, não é nada fácil. O que mais existe por aí é reprodução e caricatura do que já foi. Ter aquilo que A. Alvarez em seu livro ‘A voz do escritor’ chama de ‘voz própria’, seja em literatura quanto em música (ou outras linguagens artísticas), não é nada fácil nem para todo mundo. Mas, também não é impossível. Para os saudosistas, desistentes da autenticidade e da busca pela ‘voz própria’, sim, ser ‘autêntico’ atualmente é impossível, já que vivem dos ‘sonhos’ (ilusões) e ‘louros’ de um passado já morto. A história continua, pois ao contrário do que pensa o ‘senso comum’, ela não é só passado. Vivemos sempre o presente, e é nele também que a história é escrita e, portanto, vivida. Ou seja, sim, a história continua, e junto dela, continuam as criações e os seres criativos que se atualizam sem precisar desprezar o passado (também tendo-o como referência), mas vivendo o hoje com toda sua intensidade e suas condições. A prova disso está na força das obras artísticas e musicais que hoje, em pleno 2016, mantém vivo um cenário artístico e musical real, ativo, vivo, presente, atual! Aos saudosistas que acreditam religiosamente numa ‘verdade’ sonhada por eles próprios e discursada pelos meios de comunicação de massa que quer manter certo status acima dos nomes mortos (mas que ecoam através de seus belíssimos e importantes trabalhos) que ainda lhes rende muita notícia (e lucros), posso dizer que a história ainda é escrita, registrada, gravada, vivida, e que, belíssimas obras estão por aí, algumas mais conhecidas que outras, porém, ambas expressivas e com intensidade, e que serão boas e contundentes referências para futuros artistas, músicos, compositores e suas bandas, seus discos, suas obras.


Enfim... Não há fim!