terça-feira, 24 de março de 2020

A mudança urgente e fundamental

Passada a epidemia.. será que o Brasil e o mundo seguirão no ritmo de antes? se seguir, não levará muito tempo para uma outra catástrofe (talvez ainda pior) acontecer.. esta civilização, esta cultura, este 'modo de vida' já não mais se sustenta.. se é que um dia se sustentou.. nisso, seria a hora, o momento de os governantes tomarem peito e chamarem intelectuais da filosofia, sociologia, ciência, administração, artistas, grandes estrategistas - e o conhecimento ancestral e popular - para pensarem e elaborarem um novo projeto de sociedade, de civilização, a partir da real sustentabilidade e equilíbrio social e ambiental.. (obs.: sei que no Brasil o atual presidente ou governo não tem cacife nem cabeça pra isso, infelizmente!)..
No Brasil é urgente diminuir, por exemplo, a carga horária de trabalho, de 8 para 6 ou 5 horas.. dividir isso por turnos.. investir em transporte público de qualidade, trens, ciclovias, limitando a circulação de automóveis particulares.. fazer uma Reforma Agrária, política, educacional com ênfase no ser humano e na Natureza.. estipular limites de ganho/lucros.. taxar/dividir riquezas e heranças acumuladas e investir mais, muito mais, em saúde (estrutura, profissionais, acessos) e educação (arte, cultura, ciência).. é necessário 'radicalizar' neste sentido, para que a cultura humana siga com menos interferência prejudicial a Natureza, e a si próprio.. este é (ou seria) um momento importante para pensar novas possibilidades.. mas, até então, não estou vendo estas iniciativas..
Penso que, sem esta mudança sociocultural (que envolve economia e política), que é uma mudança mental e comportamental, limitando o acúmulo de riquezas e de poder, assim como, garantindo uma maior divisão de renda e acesso ao conhecimento/educação/cultura, saúde e transporte/mobilidade (públicos de qualidade), não melhoraremos nossa situação/condição humana e sociocultural no planeta.. pois, como prenuncia uma antiga sabedoria: "TODO EXCESSO É PERVERSO" (Tao Te Ching, Lao Tse).. isso não é pessimismo, apenas um olhar pelo binóculo da história e pelas lentes da filosofia (e do conhecimento ancestral / popular).. não é preciso ser estudado, intelectualizado ou um gênio para ver isso tudo.. é só parar um instante para pensar, refletir e perceber..
Em suma, se não desacelerarmos, provavelmente sofreremos acidentes e quedas ainda mais bruscos.. e assim, o risco de perdermos a única coisa que realmente temos (e que nos tem), será iminente: a Vida...












Portanto, a questão é: 'EQUILÍBRIO!' ☯️🌳

sábado, 21 de março de 2020

O vírus e a disciplina


* Obs.: o título desta reflexão também poderia ser ‘o vírus e a educação’, ‘o vírus e a cultura’, ‘o vírus e o conhecimento’ ou ‘o vírus e a sabedoria’.

O covid-19 ou conrona vírus saiu da Ásia, mas precisamente da China, mais precisamente ainda da cidade de Wuhan, província de Hubei na região central do país (e que fica aproximadamente 4h30min de carro até Wudang, onde estão localizadas as montanhas que abrigam templos taoistas, talvez o maior reduto do taoismo na China, e a credito, no planeta), e se espalhou pelo mundo - e neste exato momento em que escrevo, segue a se proliferar. Todos devem saber, a China é o país mais populoso do mundo, mas também, um dos mais organizados e disciplinados em sua educação e/ou cultura. Filosofias, espiritualidades ou modos de vida milenares conferem ao país tal condição. Países próximos também herdaram deste ‘tigre asiático’ esta cultura que envolve muita espiritualidade, diversidade e disciplina. E além do conhecimento técnico, científico e tecnológico que a China possui hoje, foi desta disciplina, provinda da sua milenar tradição cultural, que a China conseguiu ‘controlar’ a disseminação interna do vírus que neste instante assola a humanidade. Ou seja, o povo cumpriu o protocolo de prevenção e combate ao vírus, ficando em casa.

“O que não se regenera, se degenera”. (Edgar Morin)

Os menos sensíveis – ou mais grosseiros (como foi o caso de um dos filhos do ‘presidente’, o deputado Flávio Bolsonaro), dirão, a partir de um reducionismo simplista que ‘a culpa pela crise é da China’, outros que ‘o governo ditador e comunista chinês fabricou e espalhou este vírus para derrubar o capitalismo, os EUA e os países livres’. Mais abaixo (ainda?!) destes, tem aqueles que, incrivelmente dizem que ‘o vírus foi um plano da China comunista para destruir Bolsonaro’, decerto, dada a ‘importância’ do ‘nosso presidente’ na ordem do dia e do mundo. Tudo o que não precisaríamos agora é uma crise diplomática com a China, deflagrada pelo ‘filhinho do papai’ e seus vômitos inconsequentes. Assim como o pai, cada vez que fala ou age cria riscos. Ou seja, este governo em forma de ‘clã’ (família Bolsonaro) é um perigo e coloca muita coisa em risco, atua praticando crimes de responsabilidade (entre outros), e incrivelmente ainda está no governo do país, como? Perguntemos isso ao Dr. Sergio Moro, ministro da justiça, alguns empresários, ao STF, aos deputados e senadores, acredito que tenham a resposta.

"Tudo está ligado, como o sangue que une uma família. Todas as coisas estão ligadas. O que acontece a Terra recai sobre os filhos da Terra. Não foi o homem que teceu a trama da vida. Ele é só um fio dentro dela. Tudo o que ele fizer à teia estará fazendo a si mesmo." (chefe Seattle, 1856)

O taoismo é uma das principais bases (talvez a principal) do conhecimento milenar chinês, que envolve a experiência, o estudo e a espiritualidade (que envolve cultivo de energia e práticas meditativas), sendo uma ‘filosofia espiritual de conhecimento prático’ que possui uma ‘medicina’ própria e ancestral, herança dos nativos, organizada por estudiosos, antigos mestres e mestras deste conhecimento, desta sabedoria.

E qual é a relação do taoismo enquanto conhecimento e/ou cultura com a situação envolvendo a pandemia viral? Sendo o taoismo a base da MTC (Medicina Tradicional Chinesa), ele, enquanto conhecimento, fornece os princípios fundamentais para várias prevenções e tratamentos. Em Wuhan, a MTC somou-se a medicina moderna ocidental no tratamento dos casos de contaminação pelo vírus, o que resultou num trabalho bem sucedido. Enquanto os pacientes infectados eram tratados quimicamente pela medicina de cunho ocidental, também eram pela medicina tradicional chinesa. Como prevenção e parte de tratamentos, foram aplicados os princípios e conhecimentos taoistas do Chi Kung, do Tai Chi, assim como a acupuntura, a moxaterapia, a meditação, o uso de ervas em chás, a alimentação equilibrada, etc. Junto a isso, algo fundamental, a disciplina. Sim, o isolamento social requer de muita disciplina, e para que o vírus fosse contido, esta postura foi fundamental.

“Através da retidão organiza-se o reino” (Tao Te Ching, Lao Tse)

Então, a fórmula foi de certo modo ‘simples’ ou prática: de uma forma geral, tratamento e prevenção somando os conhecimentos (oriental e ocidental), com boa disposição e organização dos espaços e cuidados necessários aos infectados, e aos não infectados, o bom uso das tecnologias e a disciplina de parte significativa da população, em auto-isolar-se e na autoprevenção, a partir dos princípios e práticas cotidianas de origem tradicional e/ou taoistas. Em suma foi esta disciplina, a que, infelizmente não possuímos, que fez (faz e fará) a diferença no controle e/ou contenção do vírus. Por isso, todo respeito ao conhecimento daquele povo. Aliás, à todo o conhecimento que seja humanizado e que respeite a naturalidade e a Natureza. Mas, como a realidade não é feita de ‘seria’, tratemos de lidar com a nossa condição, como a nossa realidade, mas, por favor, utilizando a inteligência. Nisso, não copiar o que dá errado, mas sim o que dá certo, já é um grande avanço. Então, copiemos o exemplo de alguns países e Estados asiáticos como Taiwan, Singapura, Coréia e a própria China, ao invés de reproduzirmos preconceitos estúpidos contra estes povos e suas culturas. Precisamos de melhor educação e uma transformação sociocultural (que envolve a política e também a economia). Educação esta que pode(ria) nos conceder a disciplina necessária para lidarmos com situações calamitosas como a atual. Por isso VAMOS PARAR! FIQUEMOS EM CASA já!

"Que o homem é a mais nobre das criaturas pode ser inferido do fato de que nenhuma outra jamais contestou essa pretensão." (G. C. Lichtenberg)

Certamente, se tivéssemos menos prepotência, arrogância e falatórios, mais serenidade e busca por equilíbrio – ou seja, mais disciplina ao modo taoista, por exemplo, controlaríamos (e nos controlaríamos) bem melhor a propagação deste vírus, no mínimo. Equilibrar a si próprios é também somar no equilíbrio da vida, pois ela é isso, um grande espírito que envolve todos nós, e entre pessoas e vírus, da maior à menor forma de vida, todos, incondicionalmente, fazem parte da Natureza que, quando desequilibrada, trata de equilibrar-se para que a vida continue, e neste reequilíbrio, às vezes, alguns seres são descartados. Por isso precisamos viver com a Natureza e não contra ela, e compreendermos que nós, seres humanos, não somos a forma mais evoluída ou melhor de vida, mas sim, mais uma, com tanto valor quanto as outras - perante a grande-mãe, a Natureza. Pensar na nossa pretensa superioridade, é uma crença, e não passa disso, pois, como em outras palavras está escrito na principal obra taoista, o Tao Te Ching, ‘a Natureza, perante a Vida, não distingue os seres, tratando-os todos, como cachorros de palha’.

"Céu e terra não têm atributos e não estabelecem diferenças: tratam as miríades de criaturas como cachorros de palha." (Tao Te Ching, Lao-Tse)

Que possamos aprender com este momento difícil, saindo dele ‘fortalecidos, transformando a tragédia em potência’ (como diria Nietzsche), e aprendendo sobre tudo que, ‘todo o excesso é perverso’ (verso do Tao Te Ching), e que a Natureza e a Vida buscam equilíbrio não metas ou objetivos finais. Por isso, vamos parar de correr e gritar em demasia. Aprendamos a caminhar, com passos leves, com o vento, e ao invés de gritar, falar ou sussurrar. A Natureza, grande-mãe e mestra nos oferece Caminhos, para caminharmos com calma e relaxamento. A angústia e a dor são resultados dos nossos passos, de outro lado, a alegria e a plenitude também. Passada a tempestade, que venha a calmaria e o aprendizado, que nos forneça mais sabedoria para não errarmos tanto.

"A grande virtude do Céu e da Terra chama-se vida" (I Ching, o Livro das Mutações)

Cultivemos a energia/imunidade e fiquemos em casa, agora!



sábado, 7 de março de 2020

‘O sangrado Feminino’ na cultura patriarcal - e a 'auto-defesa' proativa



8 de Março se celebra e se manifesta  o ‘Dia Internacional da Mulher’ pelo mundo. As origens históricas desta data nem sempre ou quase nunca são consideradas, pois geram debate e reflexão, quando não vergonha. Sim, vergonha humanitária. Quando lá, em meados do século XX, numa fábrica têxtil de Nova York, nos EUA, mais de uma centena de operárias morreram carbonizadas num incêndio intencional por lutarem por melhores condições de trabalho e respeito ao seu gênero. Outros fatos, sob tudo relacionados a lutas femininas por direitos e respeito, também marcam esta data. Fatos estes que levaram a ONU (Organização das Nações Unidas) oficializar o 8 de Março como Dia Internacional da Mulher. E aqui estamos nós, manifestando, comemorando, alegres ou enlutados.

Muito sangue feminino correu para que as mulheres conquistassem seus direitos. Sangue este que, contudo, parece ainda não ter sido suficiente para que as mulheres sejam devidamente consideradas, valorizadas, respeitadas. No Brasil, um dado recente diz que, a cada 7 horas uma mulher é assassinada por um homem. Outro que, a cada 4 horas uma criança feminina (menina) é estuprada por algum homem da família ou próximo dela. Estas são, mais que estatísticas, fatos que o Brasil amarga. Além deste quadro já ser horrendo, diariamente vemos manifestações do machismo (que é cultural ou estrutural, portanto histórico) pelas ruas, dentro das instituições e famílias. Ele também está na publicidade e no discurso e atitudes de homens (e algumas mulheres, infelizmente) públicos. Por exemplo: “Não te estupro porque você não merece” e “Mulher tem que ganhar menos porque engravida”, são algumas das palavras machistas, ofensivas e violentas publicamente desferidas pelo presidente da república Jair Messias Bolsonaro. Sendo um homem público, ‘líder’ de uma nação, eleito pelo voto popular, Bolsonaro, ocupando o cargo que ocupa, é um ‘agente motivador’. Ou seja, suas palavras repercutem, dão eco, influenciam, fomentam, inspiram ou motivam todos àqueles que, como ele, violentam de alguma forma o gênero feminino. E muitas vezes esta violência sai do âmbito verbal, simbólico e/ou psicológico e vai ao âmbito físico, ou seja, resulta na violência física-corporal, que pode ir desde a agressão física, lesionando o corpo (e, portanto a ‘alma’, afetando o psicológico), até a morte. E aí estão os inúmeros e diários casos de feminicídio para comprovar isso.

Uma das nossas grandes questões referentes à violência (seja ela física ou psicológica) decorre da cultura, ou seja, do modo de vida, suas crenças e concepções, que vão, de uma forma ou de outra, chegar à prática cotidiana. O machismo e o grande capital acumulado (capitalismo), que é ancorado no patriarcado, aliados, promovem em larga escala (e executam) a cultura da violência contra a mulher.

Por uma ‘cultura proativa’ (valorizando a Vida)

Nossa cultura não é preventiva nem antecipatória. Ou seja, a proatividade não está no nosso calendário humanístico, somente no comercial. Ser proativo é ser preventivo ou auto-defensivo, o que resulta numa autonomia de ser e estar, mantendo certa integridade e espaço existencial próprio. Nisso, como estudante e professor de um sistema dito ‘marcial’ de Kung Fu, chamado de Wing Tjun, que envolve também a prática do Chi Kung e do Tai Chi Chuan, além das concepções filosóficas e espirituais taoistas (leia-se espiritualidade aqui como algo diferente do que se tem no ocidente, e taoismo enquanto filosofia, espiritualidade e cultura ou prática de vida), pratico este que é um grande conhecimento, uma  grande arte, a modo de manter-me proativo, pois antecipar, prevenir, como bem diz o ditado popular, é o melhor remédio. E, por experiência e tendo como referência meus estudos nesta área, penso que toda mulher e criança deveriam estudar/praticar algo em ‘auto-defesa’. Algum estilo ‘marcial’ que seja proativo, ou seja, que possibilite a prevenção, antecipação e auto-defesa, tanto do corpo quanto da mente. Infelizmente, na grande maioria dos casos, não há tempo para acionar os meios legais de combate a violência contra a mulher, contando que, as situações não são programadas para acontecerem, e nossa cultura exclui o ‘caos’ da sua visão e sensibilidade. No caso, não somos preparados culturalmente para atuar de forma proativa, por isso estamos à mercê das circunstâncias, sob tudo a mulher e a criança, por estarem inseridas numa cultura machista e violenta, predominantemente patriarcal, onde a violência e autoritarismo são fortes características.  

A partir deste contexto, através da AFWK (Associação Fluir Wing Tjun Kung Fu), já fiz projeto e ofertei publicamente meus trabalhos na área, na intenção de integrar através da prática, o combate à cultura da violência contra a mulher. Porém e infelizmente, tivemos pouca aderência, resultado também de certa cultura ou da falta de uma cultura proativa (preventiva e auto-defensiva) nas concepções e práticas diárias femininas.

Sei da importância da reunião das mulheres em torno deste tema, das suas organizações, mobilizações, das suas práticas integracionais que fazem avançar a questão e amenizar o problema, porém, junto a isso, penso que seja necessário, além do debate e da denúncia, ter o mínimo de noção e estudo de técnicas que possibilitem a ‘auto-defesa’ (marcial e sensorial), seja ela coletiva ou pessoal, além da teoria (que é fundamental) - em suma, NA PRÁTICA. Esta é a questão. Uma questão URGENTE, pois alguns ou muitos homens, o patriarcado (e/ou seu machismo que é cultural, portanto estrutural), ESTÃO MATANDO AGORA, com ou sem mobilizações e debates relativos ao tema. Não há tempo e não dá para esperar, pois a mudança, havendo, será a longo prazo - e a vida é agora - devido, justamente, ao modo de vida (cultura), que todos devem saber, envolve a tradição (crenças, costumes e concepções que geram a prática cotidiana).

Em suma, não quero com este texto dizer ou ensinar como se deve pensar ou agir, mas talvez poder contribuir com a percepção, que passa pela reflexão e deve, impreterivelmente, ir de encontro à prática. Portanto, isso é um convite à proatividade, uma cultura que pode mudar a história pessoal e coletiva, gerando novas possibilidades de Vida.

"A grande virtude do Céu e da Terra chama-se vida" (I Ching, o Livro das Mutações)




domingo, 19 de janeiro de 2020

Pepe e sua prática de vida.. para além do discurso 'revolucionário'...

O socialismo que não é
os que se dizem de esquerda.. os que se dizem socialistas, comunistas, libertários.. realmente o são se viverem conforme a necessidade.. na simplicidade (que não significa pobreza).. o excesso corrompe, concentra, causa danos aos outros e a si próprio.. é coisa da burguesia capitalista, herança das dinastias imperiais.. coisa das elites que usam o poder para controlar, dominar, destruir (mesmo inconscientemente).. a república não pode reproduzir características da monarquia (tapetes vermelhos, pomposidades, esbanjamentos, excessos).. então, em muitos casos, trata-se de desapegar e não acumular.. muitas vezes a segurança é um discurso.. socialismo é vida coletiva, não privativa..
o doc 'El Pepe, una vida suprema' do mestre Emir Kusturica ('Underground', 'Gato Preto Gato Branco'), disponível na Netflix, traz outro mestre, Pepe Mujica e sua vida, que é exemplo de coerência com aquilo que acredita, se diz e luta.. para além do discurso, a prática cotidiana.. sem isso, não há 'verdade', não há transformação..
A 'revolução' é cultural
Mujica, 'é um mestre taoista, mesmo não sendo', pois vive em conformidade com a necessidade, com a naturalidade.. a Natureza também é a sua grande mestra.. busca 'equilíbrio'..
pude ver o documentário do Kusturica sobre Pepe, e vos indico.. sem o que ele levanta, principalmente em termos de cultura (modo de vida), não há transformação social, apenas continuação disso que está aí.. pois, só melhoria econômica material, é muito pouco para a questão humana, social e ambiental.. a questão está, sob tudo, na 'cultura' (modo de vida, prática, pensamento).. e eu insisto faz muito tempo nisso..
enfim.. boas leituras - e novas práticas (se realmente querem transformar) - o trailer:



terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Incoerências espirituais e práticas na 'orientalização' do ocidente

Respeito muito o Yoga como cultura físico-espiritual.. mas já não posso dizer o mesmo de certa cultura indiana, que viralizou, virou moda no ocidente, faz um tempo, incluindo a aparência (roupas, visuais, símbolos, trejeitos, estereótipos), alimentação, medicina e até o yoga.. uma cultura muito rica, porém, bastante vulgarizada e distorcida.. tanto que, muitos confundem minhas práticas taoistas com esta cultura..
a Índia é um país intenso e rico culturalmente falando, porém bastante desigual, onde grande parte das religiões indianas (e mundiais) são carregadas de preconceitos e violências.. a religião mais equilibrada surgida na Índia, considero o Budismo, que hoje possui uma parcela ínfima de seguidores naquele país - na China o budismo foi difundido e nasceu o Budismo Chen (Zen no Japão), que assumiu características chinesas, sob tudo, influência do Taoismo e algo do Confucionismo - o sistema de castas por exemplo, ainda é realidade em algumas práticas indianas..
dias atrás vi uma reportagem com um dos grandes iogues indianos que falava de paz e simplicidade, mas quando foi questionado por sua concentração de renda (grande riqueza que possui), não quis falar sobre o assunto e desconversou.. aqui no ocidente, muitos praticantes desta arte milenar também se mostram incoerentes quando praticam paz para si próprios, falam em humildade, desapego e simplicidade, mas quando é para os outros, prepotência, arrogância, ódio, violências, racismo, homofobia.. é o que figura.. sei que esta incoerência não é exclusividade na dita 'espiritualidade yoga'.. no dito 'cristianismo' (entre outros) isso também é bem comum.. infelizmente..
mais do que uma espiritualidade e uma prática saudável ou sociocultural, muitas vezes o yoga é um empreendimento capitalista.. que o digam o mestre yoga da reportagem (citada acima) e o do documentário (link abaixo).. que o digam também muitos templos ou igrejas ditas cristãs por aí..
* referente a isso:
"Remova o que é falso e só a verdade permanecerá" (máxima taoista)
não é de aparência ou tecnicismo que a realidade é feita.. a 'essência' não está no discurso nem no estereótipo.. em suma, 'não é o que você sabe, mas o que você faz com o que sabe'.. esta é a questão.. taoismo, budismo, yoga, cristianismo, o que for, não são apenas palavras ou aparências.. devem ser 'essências'...
"A maior artimanha se apresenta sobre o aspecto da mais perfeita ingenuidade. (...) O invisível não está atrás da imagem, mas dentro da imagem (...). O oculto está no coração do manifesto e não em seu contrário. Nada está mais escondido do que o mais aparente." (sabedorias chinesas e taoistas - a partir das obras: 'Tao Te Ching', 'A arte da Guerra' e '36 Estratagemas: manual secreto da Arte da Guerra') 

* * *
Você é realmente cristão?
O cristianismo deve(ria) ser uma 'evolução ético-moral' do antigo testamento.. o Deus hebreu do Velho Testamento é, inclusive, questionado e contraposto pelo Cristo, que traz a 'boa nova', ou seja, uma nova moral, uma nova ética, um 'novo Deus' que, ao invés de punitivo e violento como o do velho testamento, é um deus de paz e perdão.. pelo menos esta é a mensagem que está no Novo Testamento (parte cristã da bíblia).. porém, muitos 'cristãos' seguem reproduzindo ou aplicando o velho testamento (livro dos hebreus/judeus) nas suas crenças e práticas cotidianas.. uma contradição ou incoerência, principalmente com aquilo que o Cristo pregou, que foi praticamente o oposto do que a crença anterior (velho testamento dos hebreus/judeus) pregava ou tinha como moral e ética.. vingança, punição, ódio, violência, são características cristãs?
em suma, muito do que se tem por cristianismo, assim como, muitos dos que se autoproclamam cristãos, será que realmente são?


quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Egocentrismo e os ‘donos do brazil’

A rede de lojas Havan abre mais uma filial em Xapecó. É a terceira por aqui. São muitas pelo sul e pelo país todo. Aqui, o dono da loja, popularmente conhecido por muitos de o ‘véio da havan’, como de costume, fez um vídeo reclamando da ‘burocracia’ da cidade para empreendimentos. 
E, curiosamente (ou estupidamente), lá estavam o prefeito e um deputado e ex-prefeito (condenado), participando alegremente da inauguração. Não me espanto, pois incoerência e contradição é marca do brazil bolsonarista contemporâneo bipolar da pós-verdade. Acontece que, o véio da havan, na sua reclamação, mais uma vez (como é comum nos seus vídeos), destilou preconceito e discriminação, criticando a acessibilidade que sua loja precisa ter, para que deficientes físicos possam transitar. Grosseria, estupidez e mediocridade, características típicas destes homens ‘machões cristãos autoritários’ de agora. E eles se reúnem e às vezes brigam em torno do poder e de si próprios, das suas próprias imagens, vontades, devaneios, egos. E o véio da havan é um destes representantes do egocentrismo. Seu egocentrismo é tão grande que ele poderia ser chamado de ‘o dono’. Sim, ele é interventor, a ponto de parar um jogo de futebol por que seu time estava perdendo, e ser ovacionado pelo torcedor por isso (eis os valores!). Ele é ator pop (péssimo, mas, incrivelmente há quem ri e acha ele bom nas suas atuações deploráveis e estúpidas). Ele é pastor, semi-deus, coaching, influencer ou youtuber, sonegador, explorador (isso não importa para alguns), general, governador, prefeito, patrão, chefe, patriarca, dono. Isso, ele é o ‘dono’. Ele é tudo (ou pelo menos acha). O brazil é dele. Um brazil escrito assim mesmo, com início minúscula e ‘z’, norte-americanizado, como a falsa ou imitante, brega ou ridícula ‘estátua da liberdade’ do véio da havan e seu lojão. ‘Ah, mas ele tem preço baixo!’. Sim, quem sonega e explora o trabalhador consegue este (e)feito. Pior de tudo é que ele é idolatrado como um semi-deus por alguns.

É a tosquice do nosso tempo, onde o véio da havan é um dos maiores representantes, coladinho com o presidente, o Ratinho, o Silvio Santos, entre outros deste naipe. E ele é rei no quesito egocentrismo. Os outros citados também são, mas o ‘dono’ representa bem este time. Um time que, de tão egocêntrico, joga sozinho, pois é dono da bola, das regras, do jogo. Mas o fim é sempre o mesmo, onde eles, estes jogadores e auto-masturbadores (em que, no jogo, um punheteia o outro), de tão egocêntricos que são, acabam se comendo, um ao outro, como com os dinossauros do velho Buk, onde, depois de comerem todas as outras criaturas do planeta, restaram só eles, os tiranossauros, e um come o outro, até que um único sobra, e morre de fome o filho da puta (leia-se Bukowski). Mas, até lá, o ‘dono’ (ou os ‘donos’) seguirão comendo e se masturbando (alguns infartando no caminho, de tanta ansiedade em comer e masturbar), feticheosos e dementes, até apodrecerem, como todos, e serem lembrados ou esquecidos, como todos. O perigo é que, até lá, eles somados, podem acabar com a raça humana. De tão egocêntricos que são, homicidas e suicidas, não aceitam apodrecerem sozinhos, por isso querem levar todos com eles, pois são os ‘donos’ da bola, do jogo, da vez - que espero e torço e luto, para que passe logo. Vai passar, mas tem que ter aquele empurrãozinho.

Enfim. O ‘dono’ no final das contas, acha que é dono, e perturbado psicologicamente quer ser dono dos outros porque não é dono de si próprio. O egocentrismo do dono é doença, que no fim, vai matá-lo. Que seja antes do fim da espécie, pois o mundo, a Natureza, a Vida, estes continuarão, sem pseudo-donos... 







sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Terraplanismo...


A Terra é plana, eles tem razão!

Dizer que a Terra é redonda, oval ou que não é plana, é um plano comunista para dominar o mundo, feito pelo diabo, cujo rock (que é abortivo) é um meio para que este plano seja efetivo. E foram os Beatles – que não sabiam compor, nem nada – os escolhidos pelo demo para espalhar através da música este plano (por isso da sua fama), com ajuda de artistas e professores doutrinários. Assim tudo se explica: Fizeram um pacto com o diabo, cujo objetivo maior é o satanismo.

·       *   Fonte: Vozes da minha cabeça.




sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Nova Educação Brasileira?

Saiu no Diário Oficial do Rio Grande do Sul a Matriz Curricular do chamado ‘Novo Ensino Médio’. Na publicação, Arte, Literatura, História, Filosofia, Sociologia, Biologia e Educação Física, tiveram aulas diminuídas. Ou seja, no Estado vizinho serão menos aulas de humanas e sociais e linguagens para os alunos, professores e para a sociedade. Menos aulas nestas áreas, menos conhecimentos nelas também. E em Santa Catarina, como vai ser? “Também, humanas e sociais pra quê? Se não servem ao desenvolvimento tecnicista, mecanicista, burocrático? Educar pessoas críticas não facilita nada para a mão de obra barata e explorada que o mercado de trabalho quer, não é?. ‘brazil’ é matéria prima, mão de obra, e não inteligência. O mercado afilhado do capitalismo norte americano quer isso, e isso terá. Um belo acordo entre nossos digníssimos líderes, os presidentes Bolsonaro e Trump – alguém diria.” E saber que alguns colegas professores foram favoráveis (uns ainda são) a esta ‘novidade’ (lembremos que durante a Ditadura Militar – coisa que membros do governo disseram que também não existiu – estes conteúdos foram diminuídos, outros, passaram a nem existir).

Outra questão imposta pelo governo atual e que passa batida por muitos que não veem o trem passar, mesmo com todo o barulho, é referente a carteirinha de estudante, que agora também passa para a tutela do Estado brasileiro, e: ‘melhor’, muitos dizem, ‘é de graça’ e se pode requisitar online’ (olha o ‘progresso’ aí! – do quê e pra quem? – filósofos fariam esta pergunta). A propaganda do governo na TV omite um detalhe fundamental: a carteirinha sendo feita pelo movimento estudantil e tendo a pequena taxa cobrada para isso, serve para a manutenção do próprio movimento, que é dos estudantes (congressos, estudos, discussões, ações, etc.), uma entidade democrática e histórica que conquistou muito do que hoje o estudante desfruta no país - inclusive ela, a carteirinha  (mas, uma pena que história não é o forte de muitos brasileiros).

Não caros alunos e coleguinhas professores, este benefício não é gentileza do governo (nem do passado, muito menos do presente), mas sim uma CONQUISTA dos próprios estudantes unidos nos seus movimentos estudantis. Assim como é o desconto nas passagens de ônibus (entre outros). Mas, o governo, com sua malandragem afiada, não traz esta informação, fazendo parecer (aos mais desavisados – que infelizmente, são muitos), que ele está fazendo um bem ao estudante, quando, seu objetivo ideológico é enfraquecer o movimento estudantil para, justamente, manipular mais e melhor o estudante, a escola pública e a educação, ao seu bel prazer ou a sua bel ideologia de produção de brasileiros analfabetos funcionais que não reflitam e nem tenham seus sensos críticos, históricos, filosóficos, sociológicos, artísticos, etc., em dia, mas que só reproduzam e obedeçam, como meras peças de uma engrenagem que vai manter a estrutura e os privilégios de quem mais tem poder e riqueza neste país. Mas ele, o governo, no seu discurso, diz que quem tem privilégio aqui são os professores, artistas, estudantes - pior é saber que muitos destes reproduzem isso. Talvez sofram de um antropofagismo sadomasoquista que lhes dê algum prazer. Só pode.

Mas, aos acordados, ou aos que queiram acordar, aí está a reflexão sobre o caminho desta educação que se diz ‘nova’, assim como sobre o governo se diz também. Velhas práticas com outras roupagens, como historiador, eu diria. Enfim.

Agora é minha vez de fechar um pouco os olhos, não para deitar e dormir em berço esplêndido, mas para meditar, nutrir-me de energia e relaxamento para seguir vivo e acordado neste tempo de sonâmbulos que babam sobre seus celulares – podemos usá-los de modo mais inteligente. Fica a dica!



quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Fetiches, idealizações, reproduções e seus reflexos socioculturais


"Acho que todo mundo gostaria de passar uma tarde com um príncipe, principalmente vocês, mulheres" (comentário de Jair Bolsonaro, atual presidente do Brasil, em visita à Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro do trono da Arábia Saudita - uma teocracia fundamentalista e patriarcal).

Comentários como o do presidente, citado acima, são mais do que um simples comentário, por mais que seus reprodutores tentem diluir, amenizar sua fala, na insistência em repetir que tudo o que o presidente fala ‘é brincadeira, que Bolsonaro é um fanfarrão’, etc., o caracterizando com uma empatia que ele não tem. Mais do que um simples e infeliz comentário é um pensamento, uma ideia, um valor, uma crença e uma ideologia de uma mente ou um pensamento constituído a partir de certos valores, crenças, escolhas. Este tipo de ‘postura’ ou ‘posição’ tem lá sua raiz, e muitas vezes ela é ideológica, ou seja, vem de uma ideia e a partir de certos interesses, sejam eles pessoais ou grupais. Interesses que tem localização. O fato é que nossa cultura (civilização ou modo de vida, que envolve crenças, teorias e práticas) é tomada por certos conteúdos que carregam em si certos valores que, por sua vez, refletem na educação, na mentalidade, portanto, nas escolhas, atos e palavras das pessoas. Isso é comprovado quando olhamos para o que a população consome (pelo menos a maioria ou de grande parte dela), assim como o que se acredita, se reproduz ou se pratica. E é isso que forma a sociedade em sua ‘superestrutura’ (mentalidade, intelecto, racionalidade), e o que vai desaguar na ‘infraestrutura’ social (práxis, cotidiano). Ambas as estruturas formam a cultura (civilização ou modo de vida), que vai fornecer o conteúdo e apontar o rumo da sociedade (como ela pensa e age).

Além do ‘ideal do príncipe’, herança de certa ideologia elitista, eurocêntrica medievalista, amplamente difundida pela indústria cultural (desenhos, filmes, séries, novelas, discursos telejornalísticos, etc.), assim como pelas instituições consagradas (famílias, escolas, igrejas, clubes sociais, etc.) - ambos ‘aparelhos ou instrumentos reprodutores’ -, possuímos na sociedade uma gama muito grande de idealizações ou romantizações, como conteúdos ou produtos, sejam eles religiosos, político ideológicos ou comerciais mercadológicos. Um exemplo é a festa de Halloween, muito cultuada nos EUA, que nos foi inculcada e impulsionada culturalmente a partir da indústria cultural (sob tudo cinema e publicidade) e pelas escolas de idiomas, chegando até as escolas básicas e fundamentais, em muitos casos até às universidades. Para alguns críticos, esta festa ou cultura, é parte de um ‘colonialismo’, não necessariamente geográfico, mas mental/intelectual e cultural.

Pouco conhecemos da nossa cultura popular, do nosso folclore, que é riquíssimo, mas, somos motivados por inúmeros instrumentos, a reproduzir uma cultura que pouco ou nada tem haver com nossa cultura nacional, ou seja, com nosso modo de ser. Assim também é com o ‘discurso idealizado do príncipe’ que, de forma machista (novamente), o presidente Bolsonaro reproduziu publicamente, na intenção de elogiar o príncipe árabe e tal cultura patriarcal.

Estendo esta prática reprodutora de conteúdos e valores à outros espaços sociais (culturais, educacionais), relacionados diretamente com nossas ‘escolhas’ cotidianas. Por exemplo, quando eu escolho uma academia para malhar o corpo e não penso na saúde, mas na aparência, e quando eu penso na saúde física nesta escolha, mas não penso na saúde mental. Quando eu vou ao cinema e não me interesso pela produção nacional, optando sempre pelos filmes da moda, massificados, produzidos em Hollywood. Quando não leio literatura nacional ou alternativa, desprezo culturas como a nativa (indígena) e cabocla, me alimento seguindo a propaganda, com fest foods e afins, ignoro os saberes populares, as formas alternativas de vida e práticas socioculturais, assim como o conhecimento que não seja o ocidental, estou reproduzindo uma conduta, uma postura, uma posição que dirige meu modo de ser e estar no mundo - assim como, quando um professor escolhe este e não aquele conteúdo para trabalhar na escola e com seus alunos.

Nisso, é visível, infelizmente, o ‘fetiche’ de parte significativa do brasileiro em ‘coisas’ (conteúdos e/ou produtos) ligados a indústria cultural e do consumo, assim como, as velhas práticas fundamentadas no patriarcado eurocêntrico, na crença religiosa (platônica judaico-cristã) e científica (racionalista cartesiana), como se fossem as melhores ideias, concepções ou teorias do mundo, ou pior, as únicas. Este limite de conhecimento e visão, muitas vezes é devido a uma ‘preguiça mental e epistemológica’.

O caso do comentário (e de vários outros comentários) do presidente, assim como, a euforia e ênfase no Halloween, são exemplos de uma nossa ‘imaturidade’ ou ‘infantilidade’ cultural (talvez, falta de ‘consciência identitária’). Em outras palavras, muitas vezes ‘optamos’ pelo superficial, pelo convencional ou fácil, ao invés de investirmos naquilo que é mais profundo, autêntico, original, ou pelo menos coerente com nosso país, nossa vida – ou ainda conforme a necessidade. Como diriam alguns sábios do passado, estas escolhas talvez sejam mesmo ‘o dedo podre’ de parte da nossa população.

Nisso, muito do que é vinculado nos meios de comunicação de massa (TV, rádio, internet, jornais, revistas, etc.), tem este caráter superficial ou artificial. A Octoberfest e a Semana Farroupilha aqui no sul do país são outros exemplos desta ‘artificialidade cultural’ e massificação colonialista da mente (e do corpo, que também acaba sendo controlado ou policiado com isso). Como entretenimento, até vai, mas como ‘cultura’, expressão humana, vivência, são festas de pouca profundidade sócio-histórica, que reproduzem ideologias e não necessariamente condizem com a realidade ou a história.

Olhando para o fenômeno, vejo que os meios são tomados por esta artificialidade. Nossa cultura, portanto, é uma cultura repleta de artificialidades, onde as aparências e os discursos submetem a necessidade e a realidade. E aí temos um discurso como o do presidente (citação inicial), sonhado por muitos, assim como, o sucesso das festas também citadas. No Halloween, a máscara do Jason (filme ‘Sexta-feira 13), cabeças de abóboras, vampiros e bruxas estereotipados, assim como práticas copiadas dos EUA e a língua inglesa, se sobressaem, enquanto nosso folclore, nosso conhecimento popular, nossas festas e personagens, nossas línguas ou dialetos, o que é ‘alternativo’ e vai na contramão da massificação comercial e ideológica, são desconhecidos, ignorados ou depreciados por parte significativa da população que, boquiaberda, engole sem pensar ou sentir direito o sabor (saber) do que está ingerindo. E aí está nosso machismo de cada dia, nossa xenofobia e homofobia, nossos feminicídios, homicídios e suicídios, nossa falta de bom senso. E assim seguimos, brasileiros de fé no calendário, acreditando e penando, como escudos e depósitos de tais ideologias que nos tornam instrumentos, máquinas de manutenção e reprodução de certos valores e práticas socioculturais, nunca protagonistas.



quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Coringa: o fruto maduro de uma cultura podre


Depois de assistir o novo Coringa (Joker), que ganhou o prêmio de melhor filme no festival de Veneza, magistralmente interpretado pelo grande Joaquim Phoenix, roteirizado e dirigido com muito primor por Todd Phillips, dá pra se compreender melhor o motivo dos moralistas, hipócritas e conservadores (sob tudo alguns políticos e religiosos) - ou quem não entende de cinema e arte - detratarem e fazerem campanha contra o filme. Joker é um drama psicológico a nível dos grandes filmes do gênero. Coloco ao lado de obras primas do cinema como ‘Laranja Mecânica’ do mestre Stanley Kubrick.  O ator Joaquim Phoenix dá show de atuação, comparando-se aos grandes Malcolm MacDowell e seu personagem Alex Delarge no ‘Laranja Mecânica’, ao Javier Barden de ‘Onde os Fracos não tem vez’ e ao Heath Ledger, ator que faleceu e interpretou o melhor Coringa da história do cinema (agora tendo Phoenix ao seu lado) no ‘Batman, o cavaleiro das trevas’. No cinema, cheguei a comentar com a Liza (minha companheira) que, quando o Coringa é incorporado, Ledger e Phoenix parecem um só, num verdadeiro show de interpretação de Phoenix, digno da obra prima que é o filme de Phillips.


Basicamente e de uma forma geral, temos dois vieses de representação dentro da história do filme. Um diz respeito a teoria da ‘luta de classes’, do pensador Karl Marx. Outro, a luta dos ‘excluídos/desvalidos’ para manterem-se vivos dentro de um sistema meritocrata, segregador e excludente. Ou seja, a vida das pessoas mal tratadas pela sociedade por serem ‘diferentes’, não se enquadrarem ou sofrerem de alguma doença (como os transtornos mentais, muito comuns nos dias de hoje) frente a certos valores sociais ou culturais elitistas e seletivos da sociedade contemporânea. De forma dura, o personagem principal, simboliza as duas coisas: a classe social explorada (pobre e trabalhadora – mesmo que a arte não seja considerada trabalho por alguns), e a classe dos excluídos/desvalidos. Gostem ou não os moralistas e/ou hipócritas, o filme é uma grande representação da realidade do mundo atual, sob tudo, da cultura norte americana (e também amigos/as, de certa realidade brasileira que vivemos atualmente, a partir do governo Bolsonaro).

O escritor, cineasta e crítico da cultura norte americana, Michael Moore, disse em entrevista: “(...) tudo o que ouvimos sobre esse filme é que devemos temer e ficar longe dele. Nos disseram que é violento, doente e moralmente corrupto. Fomos informados de que a polícia estará presente em todas as sessões neste fim de semana em caso de ‘problemas’ (referindo-se ao lançamento do filme). Nosso país está em profundo desespero, nossa constituição está em pedaços, um maníaco desonesto do Queens tem acesso aos códigos nucleares – mas por algum motivo, é de um filme que devemos ter medo. (...) Eu sugeriria o contrário: o maior perigo para a sociedade pode ser se você não for ver este filme. A história que conta e as questões que ela suscita são tão profundas, tão necessárias, que se você desviar o olhar da genialidade dessa obra de arte, perderá o que ela está nos oferecendo. Sim, há um palhaço perturbado, mas ele não está sozinho – estamos de pé ao lado dele. (...) este filme não é sobre Trump. É sobre a América que nos deu Trump – a América que não sente necessidade de ajudar os marginalizados, os necessitados.” Este trecho de Moore sintetiza bem o que é o Coringa de Phillips e Phoenix. E ele encerra: “Quanto tempo se passou desde que vimos um filme aspirar ao nível de Stanley Kubrick?”. Isso me fez querer assistir ainda mais o filme.

Em suma, Joker (Coringa) é muito mais do que um filme de ficção de um personagem de história em quadrinho. É um filme duro e triste. Mas também é uma denúncia, um relato, uma crítica sociocultural através de um personagem simbólico e representativo. Nem herói ou mocinho, vilão ou bandido, Coringa é produto atormentado, condicionado, criado por uma sociedade, por uma cultura e seus valores violentos, hipócritas, excludentes, segmentadores, onde o afeto e o respeito às diferenças não é prioridade – isso te lembra alguma realidade próxima? Uma sociedade espetacular (leia-se ‘Sociedade do Espetáculo’ de Guy Debord), do cansaço ou da exaustão (leia-se Byung-chul Han e Viviane Mosé) e dos excessos (leia-se taoismo), onde os discursos demagógicos e sensacionalistas, a alienação, a mentira, a concentração de renda e de poder, da política, dos meios de comunicação de massa e da classe alta, criam vítimas que se tornam criminosos. Ou seja, frutos maduros de uma cultura podre, como é o Coringa.

Não estranha os ‘donos do poder’, os elitistas, estremecerem ao verem um filme cujo personagem principal, um desvalido deste sistema, que representa tantos outros, seja levado a reagir de forma brutal contra àqueles que o exploram, humilham, ignoram, violentam, a ponto de querer diminuir ou boicotar a produção (é nesta mesma lógica que ‘Mariguella’ ainda não estreou no Brasil, e que ‘Bacurau’ não passou em algumas salas de cinema, como a de Chapecó, por exemplo). E o personagem, antes de se tornar o Coringa, tentou. Lutou para se manter dócil e equilibrado dentro de um sistema desequilibrado e nada afetivo. Mas, não foi possível. E eis que então nasce o Coringa, este símbolo, esta representação, este fruto de uma cultura que todos conhecem, mas nem todos admitem.





quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Somos parte da Natureza

Nós, seres vivos, da espécie humana, além da cultura (das roupas que usamos e de tudo que construímos), também somos parte da Natureza. Nisso, há natureza em nós. Ela é nossa grande mãe (a partir de uma concepção taoista e nativa), e sem ela, nem se quer existimos. É ela quem nos fornece a energia vital. Portanto, se a mal tratarmos, estaremos mal tratando também a nossa espécie. Porém, parece que muitos ainda não sabem ou esqueceram disso.

Nisso, as mudanças climáticas, aceleradas e desequilibradas pela ação humana, estão sendo maléficas à nossa saúde, existência e vida. Este desequilíbrio, estas mudanças, tão discutidas por alguns e ignoradas por outros, afetam nosso espírito (que pertence a Natureza - somos parte do seu espírito), portanto, nossa mente e corpo também. Ou seja, afetam nossa vida como um todo. E estão aí as doenças como ansiedade, estresse, depressão, alergias, cânceres, entre outras, atingindo um número maior de pessoas no tempo atual.

A agressão que o meio ambiente, que a natureza sobre, também atinge a todos nós. Mas muitos não percebem isso, por falta de conhecimento da própria natureza - e de si próprios. Fomos ensinados a partir de certa concepção de cunho platônica judaico-cristã cartesiana, que, a natureza foi criada por um deus para servir ao ser humano (depois submetida pela ciência moderna), e por isso, foi interpretado que podemos fazer o que quisermos com ela. Mas a realidade não é esta. E aí estão pessoas, governos, empresas, fazendeiros, etc., reproduzindo esta máxima egocêntrica e somando no sofrimento de todo o ser vivo. Mas, nós humanos, como um dos seres mais fracos da natureza, se continuar deste jeito, nos mataremos e sucumbiremos da face da terra, e a natureza continuará, como grande mãe, parindo seus filhos, para a Vida que seguirá, sem nós.

Talvez ainda aja tempo para repararmos os danos causados por nossa ambição, ganância, arrogância, prepotência, estupidez, egocentrismo. Eu, e muitas pessoas com quem convivo e conheço, de perto ou de longe, estamos no caminho destes reparos, fundamentais para a vida humana e tantas outras vidas no planeta. E você, por qual caminho anda?