quinta-feira, 9 de maio de 2013

Da janela vejo a rua...






















Encontrada no lixo por uma vizinha, viva e amarrada dentro de uma sacola plástica, ela foi adotada. Algum (des)humano irresponsável a fez objeto descartável. Cães jogados na rua, ignorados pela estupidez humana passeiam suas misérias por toda a cidade. Foi atropelada por um carro que não prestou socorro. Com a coluna quebrada caiu no asfalto. Resistiu ao atropelamento, mas seu sofrimento foi não andar, correr, nem brincar mais. Mas ontem ela aproveitou e latiu o que pôde, como nunca. Comeu bolo doce e avançou. Fez coisas que nada ou pouco havia feito antes. Foram seus últimos momentos antes da agulha atravessar seus pelos, furar seu couro e entrar em sua veia. Ela foi embora lentamente e alcançou o seu céu. Um céu dourado cheio de cães, ossos, natureza e carinhos. Muito do que lhe faltou na sua breve vida. Adeus canina olfatória que passou seu tempo aqui, passeando na frente da minha casa junto o latido dos meus cães que corriam de um lado ao outro do pátio, querendo ganhar a rua com você. Agora, da janela aqui de casa, só vejo aquilo que foi sua morada em dias de chuva e frio. A casinha branca é uma lembrança triste. Olho pela janela. A rua na frente de casa nunca esteve tão vazia...

Em memória... 06/05/2013.


* também publicado no jornal Folha do Bairro, em 10/05



sexta-feira, 3 de maio de 2013

Palavra & eternidade...



Eu não tenho muito, mas tenho a palavra. Se me pedirem se ela é suficiente, digo que não. E não minto. Mas o excedente me basta - além da palavra – e isso pode ser pouco, mas também pode ser muito. Escrevo desde muito novo. Minha timidez e o silêncio que eu era quando criança, transformaram-se em palavra escrita – minha melhor forma de comunicar, até hoje (acho!). Com o passar do tempo, também aprendi a falar em público, e a palavra se transformou em voz sonora. Demorei muito para adquirir minha própria voz – tanto a falada quanto a escrita. Também já fui apenas um mero reprodutor de palavras e valores – se bem que não lembro desse tempo (se é que ele existiu). Desde muito cedo desconfiei da palavra dita, pregada. Pregações e pregadores nunca me convenceram, e hoje estou aqui, minando espaços com a palavra. A palavra é arma, a palavra é furação, a palavra é bomba. A palavra tem força, tem voz, tem vida. E eu faço dela um exercício, do dizer, do existir, do ecoar. Por vezes, diferente da matéria, a palavra é eterna - tanto é que muitos se eternizaram por ela. Mas não é por isso que escrevo. No entanto, também é por isso que vivo.

Herman G. Silvani


* também publicado no jornal Folha do Bairro - 03/05

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Chapecó, aqui também se produz música...


Chapecó é uma cidade de aproximadamente 190.000 habitantes, distribuídos pelo centro, periferia e interior. Por ser a maior cidade e economia da região, Chapecó é considerada por alguns segmentos a “capital do Oeste”. Cidade das agroindústrias, de altos prédios e ruas largas. Sua população compreende desde indígenas e caboclos, até descendentes italianos, alemães e outros em sua formação étnica e cultural. Nisso, Chapecó é tida como o polo econômico, cultural e populacional da região Oeste. Devido a estes fatores (e outros), concentra-se por aqui grande número de artistas, entre eles, compositores e músicos. São grupos regionalistas, as ditas ‘bandinhas’, duplas sertanejas, cantores populares, músicos eruditos, etc. Um dos segmentos musicais que mais produz (senão o que mais produz) na cidade (e isso historicamente falando) - que compõem suas músicas e as registram em estúdio - é o rock. São diversas bandas e estilos, desde o rock mais ‘clássico’, passando pelo punk, hard, metal, psicodélico, etc. Entre discos oficiais e demonstrativos, muitas das bandas já possuem gravadas suas composições. Algumas produzindo seus primeiros trabalhos, outras, já com certo destaque no meio artístico-cultural regional e até nacional. Entre elas estão as bandas ‘Repolho, Epopeia, Variantes, John Filme, Carlota Joaquina, Dazantigas, Duranggos, St. Joker, Paranoia, Anestesia, Maquinários, Residentes’, entre outras.                                               
 

A história do rock chapecoense, ao contrário do que muitos possam pensar, não é recente. Ainda em meados dos anos 1960, bandas como ‘The Jat’s’ e ‘Os Bananas’ já se apresentavam pela região tocando o rock da época. Beatles, Rolling Stones, Roberto Carlos e a jovem guarda já eram muito populares por aqui e faziam parte do repertório destas primeiras bandas. Já nos anos de 1970, surgiam as primeiras gravações em disco (compacto) do rock chapecoense. Esse registro em disco de vinil se  inicia com ‘Tyto Livi’ e seu “Memórias de um certo louco” de 1977, primeiro disco de ‘rock’ de Chapecó (e do Oeste), gravado de forma independente. Um ano depois (1978), o ‘Grupo Nozes’ grava suas composições, lançando bases para o que viria a ser o rock chapecoense dos anos seguintes. De lá para cá, foram muitas bandas que nasceram, cresceram, se transformaram e prosseguiram, outras sucumbiram. Algumas bandas de certa história dentro da cultura local desapareceram por falta de incentivo, seja ele familiar, público ou privado. Outras ainda mudaram de residência, levando consigo suas produções e sua música. Hoje, algumas dessas bandas já não carregam mais o nome Chapecó em suas produções. Abandonaram a cidade para poderem sobreviver. Outras ainda vão morrendo aos poucos, por não aderirem aos modismos de uma indústria cultural que fabrica ícones em prol do ‘massacre’ daquilo que poderia ser ‘autêntico’ em arte e cultura, e que tem apoio, principalmente privado, de investidores que só visualizam o lucro por trás desses sucessos, e que, por mais efêmeros que sejam eles, geram riquezas particulares.

Então, qual seria o papel do poder público nesse contexto?
  
Ainda hoje, a maioria das bandas de rock de Chapecó passam por dificuldades em seu dia a dia, devido a deficiente estrutura e condição cultural da cidade, principalmente no que diz respeito aos investimentos, apoios, espaços e alternativas de se produzir e sobreviver, sejam eles público ou privado. Não raras vezes algumas dessas bandas se deixam explorar em troca do espaço para se apresentarem. Contudo, as bandas sobrevivem de seu próprio sangue e suor e de algumas migalhas. Pouco acontece para que sofram menos ou que se motivem a prosseguir compondo e produzindo. A prova disso é que a grande maioria das bandas tem vida curta, não conseguindo manterem-se em atividade. As que se mantém, geralmente, são as que dispõem de recursos próprios, ou seja, possuem dinheiro particular para arcar com despesas (e são poucas), ou fazem por insistência, por amor a sua música e ao seu meio, além do incentivo do público (lembrando que rock, além de música, é comportamento), o que torna a atuação do compositor e músico de rock muito difícil. 

Chapecó é uma cidade relativamente grande, mas seu crescimento cultural não acompanhou (e continua não acompanhando) o crescimento econômico e material, que sempre foram os privilegiados (e isso gera um grande problema sociocultural para a cidade). A cidade cresce, dia após dia, em prédios e construções, num contexto de especulação imobiliária, que hoje, creio, seja um dos maiores do Estado e do Sul do país. Seria preciso que o poder público e o setor privado passassem a olhar com mais carinho para o ‘lado cultural’ da cidade, investindo mais recursos e em projetos de cunho artístico e cultural, incentivando assim a produção local, para que no futuro a cidade não se torne um amontoado de concreto frio e morto. Música (assim como tantas outras artes) é uma necessidade humana – e no caso específico das bandas e do jovem, uma linguagem, um modo de interagir socialmente, num mundo que precisa (mais do que nunca), de algo que se tornou raro, ou seja, o que um dia já foi uma condição, e que hoje é uma virtude: a humanidade.

hgs.


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó - 26/04


Tocando o terror...


Hoje acordei atentado. Calma, calma, não sou terrorista! Não é isso. Fui dormir quase convencido de que foram aqueles dois irmãos jovens e de origem muçulmana que explodiram suas bombas caseiras na maratona de Boston, só para não ter mais que pensar sobre isso, nessa minha cabeça inquieta. “Também, ninguém manda observar, ler, estudar tanto Herman!” – um dia me disse uma amiga, com razão. Dormi mal e acordei irritado. A ideológica programação jornalística da TV nacional só fala disso agora, além da campanha quase velada em pró da maioridade penal. Acham que punindo crianças, adolescentes ou jovens, a realidade vai mudar - acham ou é demagogia? Que interesses movem esse tipo de campanha e essas informações massificadas? Num país como o Brasil, onde o Estado é responsável por ser omisso e permitir a violência (além da física) contra crianças e jovens – isso quando não é ele o agente violentador! - que ‘moral’ tem para punir? E os falantes reprodutores que, desejosos por vingança, insistem nisso, o que dizer deles? Bem, nada! Hoje estou atentado, e antes que me maldigam terrorista, paro por aqui. Até a próxima! Talvez amanhã eu acorde mais manso... 


* também publicado no jornal Folha do Bairro - 26/04



sexta-feira, 19 de abril de 2013

Durmam-se com todo esse barulho!


Ontem eu sonhei. Ou estava acordado apenas delirando? Na verdade, foi um pesadelo. O pastor-atirador Marco Feliciano presidente da Comissão dos Direitos Humanos era presidente da república, tendo como vice, o presidente do STF, Joaquim Barbosa. A voz questionadora: ‘Mas esses já tem poder Herman!’. Eu: É, tem! Mas, no meu sonho era assim. Agora imaginem o resto - criem suas próprias ‘estórias’. No meu pesadelo, todo homicídio no Brasil se tornava suicídio e a justiça era injusta – mas confiável. ‘Mas não é assim hoje Herman?’. Ah, não acabem com minha brincadeira! Foi um sonho eu já disse!. ‘Não era um pesadelo Her...’. Ah, tá bem, tá bem! Continuando... No meu pesadelo, mistérios e muita confusão: A ‘classe’ dos juízes ganhava muito bem e se protegia entre si, seguindo interesses privados e de grupos organizados em torno do poder. ‘Mas não é assim que funciona hoje Her...’. Aaaaaah! Calada! Chega de me interromper! Deixa eu falar! Voz chata! O pior desse pesadelo é que, Xapecó havia virado província, sendo comandada por poucos e obedecida por muitos. Nesse pesadelo eu era um alguém que curtia Beethoven e lia poesia por aí. Nesse delírio, eu amava todas as mulheres, os cães, os gatos, as galinhas, as serpentes, as aranhas, as crianças, os velhos, os buracos negros do espaço sideral, o vendaval da próxima semana, a crônica surreal. Eu era surreal (observação: lembrem que tudo isso não passou de um sonho – ou pesadelo, como queiram). Durmam bem!


* também publicado no jornal Folha do Bairro - 19/04

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A escravatura foi finalmente abolida!




...pelo menos a escravatura legalizada. A 'classe dirigente' no Brasil é escravocrata. Alia-se a grupos econômicos mundiais e deixa a população mais desprestigiada a mercê da miséria, da ignorância e da violência. E não importa se jovens e crianças pobres morram por esse 'desleixo'. É o preço de certos privilégios de uma minoria burocrata e que vive de status, e um modo de vida legitimado pelo consumismo irracional e irresponsável da maioria. Quando falo em ‘classe dirigente’, roubo o conceito do professor Dr. Gaudêncio Frigotto, e me refiro a grandes empresários, políticos, ícones da indústria cultural, líderes religiosos, etc., todos os que têm muito poder e só o utilizam para seus próprios interesses.

Depois de anos, a profissão de doméstica foi levada a sério e inserida a sombra da lei e do Estado, como algo merecedor de respeito e atenção, como tantas outras. Mas, bastou saírem às primeiras notícias a respeito, que membros das ditas ‘classes’ média e alta, se manifestaram de forma conservadora e segundo seus interesses ‘pequeno-burgueses’. Doeu, eu sei, mas às vezes, a dor é necessária para que se perceba um naco maior a realidade. Essa manifestação indignada contra a legitimidade da profissão de doméstica mostra um espírito escravocrata de parte significativa da dita ‘classe patronal’ no Brasil, herança elitista-portuguesa, dos tempos do Brasil império. Pior é que ‘opiniões’ escravocratas são reproduzidas em salas de aula por alunos, crianças. Nisso, eu imagino o que alguns pais andaram falando aos filhos a respeito dessa questão.

Por acaso, um bom médico continuaria sendo bom se não tivesse roupa lavada e passada, casa limpa, crianças cuidadas, almoço na mesa? Então, é bom que os reclamantes se acostumem com a ideia, pois, até que enfim, no Brasil, os últimos resquícios de uma das várias formas de escravidão que ainda marcam a história desse país, desaparecerão - pelo menos a nível legal, pois a escravidão clandestina e dos dias úteis, das convicções e crenças báfias, de uma educação reprodutora e mantenedora, continuam firmes e fortes.


* também publicado no jornal Folha do Bairro - 12/04/2013.



sexta-feira, 5 de abril de 2013

A beleza é um estado de espírito


...já ouvi isso em algum lugar. E concordo. Também já ouvi que, em se tratando de ‘beleza’, existem dois tipos de pessoas: ‘as elegantes e as enfeitadas’ - e também concordo com isso. Viu só? Nem tudo que vem de mim é discordância – como reza o senso comum daqueles que só encheram um lado da minha moeda. Na verdade, concordo com muita coisa, só que, concordâncias, geralmente, não dão boas crônicas. Um dos grandes sentidos da crônica é o questionamento, a problematização (ainda mais se o cronista tem ‘pés’ na filosofia, sociologia, linguagem e história).

A beleza e a elegância estão nos gestos, nas palavras, no modo de ser e dizer, na gentileza das ações e da relação. A beleza física, essa pode ser (e é!), um tanto relativa. Nossa herança grega (apolínea, melhor dizendo), e em algum grau, platônico-idealista, torna a ‘beleza’ aparente, ideal, vista linearmente pelo olhar já acostumado e convencido dos homens. Conceitos como ‘perfeição’ ou ‘beleza’, da forma que são concebidos no ocidente, seja por uma tradição ‘grego-apolínea-ideal’ ou pela publicidade mercadológica, no contexto da sociedade espetacular, alimentada por uma indústria cultural que tem força de indução e convencimento, são correntes em nossos dias, e reproduzidos pelos seres mais desavisados.

Atualmente esses conceitos, como o de beleza e perfeição, da forma como são usados, se apresentam como ‘verdades’ naturalizadas, absolutas, feitas publicidade e reprodução, e estão presentes no cotidiano do homem contemporâneo, consumista não por essência, mas por demência, e isso chega de forma ‘cruel’ até as crianças (ou pré-adolescentes, como comumente se diz hoje), que acabam reproduzindo ‘ingenuamente’ esses conceitos e valores, esses ‘quereres’ feitos ‘necessidades’ por ações massivas de convencimento, principalmente através da imagem vinculada nos vários meios de comunicação. Essas ‘crianças’ acabam perdendo o bom senso para a arrogância e vaidade, convencidas das suas ‘pseudoliberdades’, quando utilizando-se desse ‘poder’ das aparências para submeter outros e fazer disso uma forma de se impor e/ou impor seus modos superficiais ao meio. E o respeito, e o interesse pelo diferente, pelo conteúdo, caem na superfície de um ‘não pensar’ e ser. E essas crianças um dia crescerão, e muitas delas não passarão de reprodutoras de um modo de vida medíocre, mesquinho e televisionado, sem resquício algum de originalidade ou autenticidade. Seres pobres (ou miseráveis) de espírito, tão superficiais quanto suas posturas, modos, pensamentos, aparências e práticas.  Essa beleza não passa da superfície. Uma ‘beleza feia’, que transparece ao menor movimento ou sussurro da pobre criatura que, se mostrar alguma beleza, só o fará quando estiver imóvel. É assim que o ser vivo é confundido com uma estátua, e a vida com a morte. 


* também publicado no jornal Folha do Bairro, em 05/04


sexta-feira, 29 de março de 2013

Nossa cultura do desleixo...



















obra de Banksy


Pela programação ‘espetacular’ e sensacionalista, feita ‘pão e circo’ da televisão brasileira e mundial. Pelo repertório das rádios e dos ‘artistas’ que reproduzem a granel aquilo que já é território, produto iconizado, repetição, clichê, lugar comum. Pela publicidade disfarçada de ‘arte’ e sua propaganda enganosa. Pelos ‘artistas’ viciados nos seus egos inflamados ou suas ignorâncias consagradas, e que já tem seus passos programados e seus espaços monitorados, feitos território. Pela arte servil e morta em sua ‘espiritualidade’ – feita produto publicitário e mercado. Pelos produtos da Indústria Cultural, ditos ‘bens culturais’ - ou mercado cultural. Pelas escolas brasileiras que se confundem com carceragem, presídios, cadeias, fábricas. Pela forma de consumir, pensar e estar. Pelo individualismo vaidoso da ‘livre concorrência’ – discursada como ‘liberdade’ -  o status social de aparentar, mas não ser. Pelo tal ‘espírito competitivo’. Pela mesquinharia e mediocridade das reproduções midiáticas e cotidianas. Pela falta de interesse, de curiosidade e audácia, de anseio e busca do diferente, do alternativo. Pela fome de nada e sede de coca-cola. Pela sociedade espetacular - hiperespetacular! - o império é do efêmero! (leia-se Debord, Lipovetsky e Juremir Machado). Por isso e por aquilo e por tudo isso e mais um pouco, sofremos de um tédio terrível. Um tédio por não querermos mais saber. Pelo vazio nos herdado do não saber ou do saber no raso. É mais fácil, cômodo e menos doloroso consumir – e sem saber que assim somos consumidos – e ao invés de saber ou pelo menos tentar, apenas absorver e reproduzir. Não sabemos ler, pensar, estar nem ser. Somos analfabetos funcionais e com uma funcionalidade utilitária: manter um sistema de coisas superficiais, sem vida e sem sabor. Mas sabemos reproduzir e querer não saber - e não sabemos escolher. Sabemos apenas não saber - de nada! Mas estamos sobrevivendo, existindo – mas não necessariamente vivendo. Não, não sou niilista e a vida não é esse show de aparências e falsas inteligências que se convencionou dizer por aí – e quantos disso se convenceram?! A vida não é se dar bem - nem mal. A vida é pra ser vivida, ‘para além do bem e do mal’. Que o digam F. W. Nietzsche ou Viviane Mosé e suas desconstruções filosóficas – para além, muito além do platonismo universal e idealista: “Em nossas escolas, incluindo as universidades, já não se ensina a estudar. O estudo, a humildade e o silêncio do estudo, é algo que nem sequer se permite. Hoje, já ninguém estuda. Mas todo mundo tem que ter opiniões próprias e pessoais” (Nietzsche). Sofremos de um mal ancestral, porém, contemporâneo: Nossa cultura não é a de estudar, investigar, atentar, questionar, modificar, ousar... Nossa cultura é a de educar para reproduzir, manter e ‘viver’ com certa ‘segurança’, certo ‘conforto’ - e certeza naquilo que é incerto. Uma cultura de sobrevivência para a morte: ‘nossa cultura do desleixo’ – e não vai muito além disso. Repito, não sou niilista (nem negativo nas minhas observações), apenas ainda me permito observar... 

hgs.


* também publicado no jornal Folha do Bairro - do grande bairro Efapi, Chapecó-SC, em 29/03/2013.



terça-feira, 19 de março de 2013

E o perigo espreita...


























São nos momentos de crise econômica - e na crise de ‘certos valores’  - que ideias morais de cunho fundamentalista tomam espaços, refletindo-se em ações. Eis o perigo! A escolha do novo Papa demonstra que algumas ‘tradições’ e práticas da Idade Média - aquele período onde a Igreja fazia o que bem entendia com aqueles que julgasse ‘infiéis’, hereges ou pagãos (leia-se os vários e horrendos ‘episódios’ da chamada ‘Santa Inquisição’), continuam vivas. Mas, um fato envolvendo religião (e ideologia – pois, de certo modo, religião e ideologia andam de braços dados), e que causou alvoroço e críticas por parte dos mais atentos nessa configuração, foi a eleição do pastor e deputado Marco Feliciano (PSC-SP) para presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, pelo ‘simples’ motivo deste se mostrar preconceituoso (homofobia, racismo, machismo, etc.), conforme algumas declarações públicas suas. Tudo seria muito cômico se não fosse trágico – e de certo modo é (cômico) – aquela coisa: ‘rir para não chorar’. Imaginem (agora percebam - pois aconteceu!), o presidente da Comissão dos Direitos Humanos um preconceituoso, dono de ideias de cunho nazifascistas?! Alguém dirá: ‘Só no Brasil mesmo!’. Eu não teria tanta certeza disso. A crise econômica na Europa também alimenta ideias assim, tanto é que grupos de orientação de extrema direita, ligados a ideologias similares ao nazifascismo, cresceram significativamente, ocupando espaços na política oficial daquele continente. Enquanto isso, aqui no Sul do país (Curitiba-Paraná), nesta semana que passou, um jovem foi assassinado por um grupo de skinheads (nazifascistas), que pregam (e praticam) o ódio às diferenças e minorias: afrodescendentes, nordestinos, homossexuais, indígenas, prostitutas, etc. - e uma tal ‘superioridade’ do homem branco. Isso muito se assemelha ou se identifica com a postura fundamentalista do pastor/deputado Feliciano. E o que se vê por aí, são pessoas (muitas jovens) defendendo o dito-cujo, enquanto outros repudiam a eleição deste para tal cargo. Apresenta-se aí uma disputa ideológica, onde, de um lado estão aqueles indignados e/ou preocupados com a situação, e do outro, os que defendem o pastor/deputado (ou suas ideias?). Existe uma chamada ‘bancada cristã’ na câmara dos deputados que, em acordo com outras tendências, partidos e interesses, acabam elegendo nomes ‘estratégicos’ para sua jogatina. Mas o Estado brasileiro não deveria ser laico? Ou seja, ser independente dos fundamentos (ou fundamentalismos) religiosos? Nesse ‘jogo’ também acontece um discurso por parte daqueles que defendem o deputado (ou seus próprios interesses?), como se estes - e o ‘vitimizado’ - sofressem preconceito pelo simples fato de serem religiosos. Mas será que é isso mesmo? Enfim... Ficam as interrogações. Enquanto isso, o perigo vive a espreita. 



sexta-feira, 15 de março de 2013

Breve crônica de Brasília




















Estive na capital federal, Brasília, enquanto membro do Sinproeste (Sindicato dos Professores do Oeste Catarinense – da rede privada de ensino), participando de um ato organizado pelas Centrais Sindicais e Movimentos Sociais de todo o país, que foi chamada de ‘Marcha Hugo Chavez’, em homenagem ao líder/estadista venezuelano que morreu naqueles dias. Foram 4 voos entre ida e volta, no mesmo dia. A marcha saiu do Estádio Nacional Mané Garrincha e se direcionou até o Planalto, onde foi o grande ato, que contou com aproximadamente 50 mil trabalhadores e trabalhadoras da cidade e do campo, de todo o país. Em pauta, a luta pelo fim do fator previdenciário, a Reforma Agrária, Educação, entre outros temas urgentes de importância e relevância nacionais. Já em Brasília e com os pés firmes no chão, juntamente com companheiros de outros sindicatos afins, nos juntamos à multidão rumo ao Planalto. Passamos pelos ministérios e pude conhecer de perto as famosas obras futuristas da capital, criadas pelo arquiteto socialista Oscar Niemeyer. Nisso, constatei: ‘Niemeyer via ET’s!’. Muito me intrigou nessa viagem. Não conhecia pessoalmente Brasília, e penso que todo o brasileiro deveria conhecer um dia. Não pela beleza, nem pelo ‘status’ de ser a capital federal, nada disso, mas pela experiência de ver, perceber e/ou sentir o contraste de um país, de uma nação, ali, bem de perto, e na sua capital. Brasília é um lugar projetado para ser capital, e nisso, o contraste entre o status de sê-lo e a miséria (não só alimentar, mas existencial-humana) é gritante. Ao tempo em que se abrem as portas dos carrões oficiais, e saem de seus interiores ministros ou executivos, sorridentes, acompanhados das suas secretárias executivas, como se fossem top models, altas, magras, belas, bem trajadas, burocráticas, etc. (coisa de cinema ou novela, acreditem!), pessoas divagam pelos cantos, juntando restos, fumando crack, enlouquecidas, quase invisíveis aos olhos formalizados dos homens de negócio, diplomatas, políticos, e todo aquele artefato de uma ordem de cunho liberal-burguesa, dita ‘democrática’. Brasília, onde a correria dos dias úteis enche as ruas de nada. Aqueles espaços vazios, aquelas cabeças cheias. Nos entornos de uma Brasília e sua da rede hoteleira, entre hotéis de mil e tantos reais a diária, dos ministérios, dos altos e luxuosos prédios dos bancos, a miséria existencial-humana divaga sem perspectivas. Operários que trabalham aproximadamente 14 horas diárias, mendigos, viciados, putas, velhos, crianças, zumbis, loucos, gente, em conflito constante com a ordem policiada e organizada para o comando disso tudo, para que isso tudo funcione – ou aparentemente funcione. Eis Brasília, a capital federal, numa leitura breve, dura, tendenciosa de minha parte (e não haveria de ser diferente). Quem não acredita, sugiro que vá pessoalmente e veja, sinta, viva um pouco daquele ar seco, quente e contrastante. Minha febre é uma febre de quem se insere e não distancia. E essa febre aumentou nessas poucas horas em que estive em Brasília. 

Herman G. Silvani


*também publicada no jornal Folha do Bairro em 15/03/2013


quinta-feira, 7 de março de 2013

Orgulho hetero (?)



O mundo virtual é cheio de informações e conteúdos, é certo. Porém, muito disso é efemeridade, pré-conceito, reprodução, mediocridade. E é na dita ‘rede social’ (facebook) que me deparo com alguns desses tipos de ‘conteúdo’. Entre perfis, comentários e compartilhamentos racistas, homofóbicos, chauvinistas, ufanistas, etc., um dos que mais me deu asco (depois do perfil ‘O sul é meu país’) nos últimos dias, foi a de um chamado ‘Orgulho hetero’. Já ouve no Brasil até uma tal 'marcha pelo orgulho hetero' encabeçada pelo Sr. ‘Bolso-naro’ (aquele polêmico político cheio de cuidados e defesas de valores e morais judaico-cristãs). Essa autoafirmação ou autodefesa (precavida e premeditada) de uma 'postura política sexual', tem um fundo de medo, um sentimento de ameaça, sendo que, certa linha da antropologia pesquisou e constatou que, quem se defende muito do outro ou das diferenças, está se precavendo do que poderia vir a ser, e tem forte tendência de sê-lo. Por isso o suposto motivo dessa 'resistência', desse 'distanciamento', dessa postura ‘preventiva’.  Aliás, para quem não sabe, a maioria das pessoas que aceita e/ou assume sua sexualidade, faz isso depois dos 40 anos de idade - e considere-se que a sexualidade também pode ser relativa, pois também é uma construção histórica (quando não ideológica). Nisso, geralmente, essa atitude (a de tentar mostrar para o outro o que se diz que se é, demonstra incerteza e receio), para alguns é característica daqueles que não se garantem e precisam provar ao mundo sua 'masculinidade' (cá entre nós, frágil e vitimizada). As ditas 'minorias' - ou grupos que sofrem com a imposição da maioria - tem seus motivos, pois geralmente são as que sofrem com o preconceito e a discriminação, mas a 'maioria' com essas ‘autojustificativas’ e/ou ‘autodefesas’ gratuitas, é outra coisa. Portanto senhores, o canal é se assumir, ser o que se é, pelo menos para si próprio, ao invés de ficar tentando ‘provar’ algo que, no fundo, é improvável. Pior de tudo, é ver jovens com esse tipo de postura, conservadora, cheia de cuidados aparentes e autoafirmativas. A variedade de sexualidade e gênero faz parte da natureza, e não pertence ao ‘achismo’ e conveniência das pessoas, suas crenças e/ou vaidades. No fundo, esse papo de ‘orgulho hetero’ é a maior ‘viadagem’...


* também publicado no jornal Folha do Bairro, em 08/03/13