sexta-feira, 26 de julho de 2013

Educação financeira? Doutrinamento!

Crianças precisam brincar, correr, serem ouvidas e respeitadas. Crianças precisam de afeto, carinho, sensibilidade, proteção. Crianças precisam de risos, cães, gatos, bichos ao seu redor, de grama, terra e ar para respirar. Crianças precisam de palavras livres, de música boa e diversão. Crianças precisam estudar. Crianças estudantes para além do formalismo escolar, para além dos desejos mercadológicos e de status da família nuclear, do dogmatismo religioso, das necessidades cartesianas criadas e usadas para a manutenção de um modo de vida que se mostra faz tempo, equivocado, reducionista e medíocre. Crianças não precisam dos valores de mercado, dos valores da dita ‘livre concorrência’ ou da competição ou disputa por espaços de poder. Crianças precisam de certa educação. Não a educação mecânica e materialista. Não da educação mesquinha vinda dos aparelhos ideológicos publicitários, privados ou do Estado. Educação para além ‘dessa educação’. Quando ouço falar em ‘educação financeira’, sinto náuseas. Amo as crianças, e isso explica esse meu sentimento. A parcela ainda sensível do mundo adulto precisa proteger as crianças da ambição competitiva que se estabelece nessa cultura de resultados e somas. Criança não é objeto nem número. ‘Educação financeira’ é uma ‘didática’ destrutiva dos ‘valores’ (ou modos) infantis. É o assassinato da criança que, mais próxima da natureza, tem necessidade e a criatividade para fazer o diferente – e manter o riso espontâneo do ‘ser criança’. Uma legião de crianças risonhas desprezando a ‘educação financeira’ dentro das escolas, seria um belo feito educacional. Eu, como professor, estarei do lado delas...


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 26/07



quarta-feira, 24 de julho de 2013

Leituras do Cotidiano - 25/07

Uma história da miséria (um conto de ficção?)














Era uma noite fria. Eu e Parafuso andávamos lado a lado em busca de um local  quente para passar a noite. Qualquer lugar é mais quente do que a rua no inverno. Mas fazia anos que não dava um frio tão intenso. Ah, Parafuso! Meu fiel amigo de estrada. Diversas vezes, enquanto eu bebia, ele me fazia companhia, com seu olhar todo voltado pra mim. Olhar sincero, de compaixão. Olhar canino. Depois, quando eu já não mais me entendia, Parafuso deitava ao meu lado com seu corpo peludo e me aquecia. Sempre que podia, eu fazia uma fogueira pra nos protegermos do frio. Não foi diferente naquela noite. Enquanto eu olhava para o fogo, lembrava do dia em que Parafuso apareceu na minha vida. Ah! Aquele olhar! O bichinho era tão pequeno que eu tinha o maior cuidado ao pegá-lo na mão. Havia encontrado um terreno baldio para armar minha pousada, quando ouvi um choro canino que vinha detrás de um capinzal. Me aproximei e foi então que encontrei aquele cãozinho dentro de uma caixa de papelão misturado a alguns parafusos velhos - e esse então foi o motivo do seu nome. Levei-o para perto da fogueira e dividi com ele o pouco arroz com carne moída que tinha. Ele abanou o rabo me retribuindo com um olhar de agradecimento. Olhar que ficou gravado pra sempre na minha memória. Ali nascia nossa amizade. Algo comum nos unia: nossas vidas miseráveis, de abandono e andanças. Alguns anos se passaram e Parafuso cresceu. Eu envelheci junto ao meu amigo peludo. Esse inverno foi o mais frio e miserável que já passamos juntos. O ácido da cachaça corroendo meu intestino, enquanto Parafuso, raquítico, enfraquecido de tanto caminhar e pouco comer, já nem latia mais. Naquela noite, maldita noite, alguns jovens bem vestidos passaram por nós enquanto tentávamos aquecer um ao outro. Derramaram cerveja gelada em mim. Parafuso tentou me defender quando foi chutado violentamente por um dos garotos. O frio estava me matando, não bastasse a fome. A cachaça amenizava minha dor e aumentava meu delírio. Num ímpeto de loucura, despejei o resto de cachaça que havia na garrafa sobre Parafuso que, muito machucado, ainda abanava seu rabo pra mim. Acendi um fósforo e acabei por atear fogo no meu único e miserável amigo. Parafuso não gritou nem gemeu. Apenas me olhou com um olhar de despedida. Em chamas, deu algumas voltas e tombou. O fogo durou até o amanhecer e eu sobrevivi mais uma noite. O efeito do álcool passou e então eu fui perceber o que havia feito. A fome voltou e eu ainda estava vivo. Contive as lágrimas... Meu coração, agora mais frio do que o próprio inverno, ainda insiste em bater.


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó, 25/07


Obs.: esse conto/crônica não é inédito, já foi publicado em outros jornais, por um motivo muito simples.. sem mais.. obrigado!

hgs.



sexta-feira, 19 de julho de 2013

Espetáculo circense no octógono...

O mais recente ‘espetáculo’ do UFC transmitido pela TV aberta, contou com a ‘atuação’ do grande ídolo nacional do chamado MMA, Anderson Silva. Espetáculo de caráter circense recheado de piadas por parte dos comentaristas que insistiam na seriedade do número (ou da própria luta em si), fazendo apologias à suposta superioridade do brasileiro naquele ‘esporte’. De duas, uma: ou o lutador/atleta/ídolo/herói ‘vendeu’ (ou entregou a luta) ao oponente, ou realmente levou a pior devido a sua arrogância, esbanjamento, deboche e ‘má educação’ (elementos que circundaram o espetáculo). Subestimar o outro, geralmente, é falta de inteligência. Para qualquer conhecedor e/ou praticante de artes marciais – que pratica para além do espetáculo - ficou nítida a sua ‘estratégia’ de luta: guarda aberta e/ou baixa, provocações ignóbeis, mãozinha na cintura (só faltou fazer uma dancinha e requebrar até o chão - ‘grande técnica!’) - e ainda cumprimenta a plateia no início da luta como se fosse um combate visceral de arte marcial de tradição asiática! Parte do espetáculo? ‘Não sei! Só sei que dessa farra, um pouco eu sei’. Cheguei a rimar a frase para não dizerem por aí: “Ai, quanta falta de sensibilidade do Sr. Herman G. Silvani?! Minhazarma!”.




















* também publicado no jornal Folha do Bairro, 19/07



quinta-feira, 18 de julho de 2013

Leituras do Cotidiano - 18/07

A dita ‘classe média ascendente’ em pose de burguesia...

"Burguesia: Liberal em seus princípios, egoísta na prática, ela não sabe o que quer". (Michelet)

Frente à choradeira da dita 'classe média ascendente' (também considerada nova ou pseudo- ‘burguesia’), reprodutora dos valores e modos da dita 'classe alta / dominante' (sua exploradora), devido às propostas de reforma no país vindas do 'governo federal' (leia-se, pela figura da presidenta Dilma Rousseff - como no caso da obrigatoriedade dos novos médicos trabalharem por dois anos no SUS, mediante pagamento de R$ 10 mil mensais - conste-se), é que atribuo o uso da citação de Michelet que fiz acima.



















O capital, seus capachos e os 'marginais'

A grande mídia golpista e seus capachos (medíocres comentaristas, 'jornalistas' e afins), descaradamente detrataram em seus vínculos de comunicação as mobilizações das centrais sindicais e dos movimentos sociais que aconteceram no Brasil na semana que passou: 'Atrapalham a vida dos trabalhadores', disseram eles. ‘Claro, não estavam vestindo branco, nem fazendo discursos subjetivistas ou ideológicos contra a corrupção’, digo eu (nem apontando suas ignorâncias para a presidenta Dilma como se ela fosse a 'dona dos problemas nacionais e locais' ou promovendo quebra-quebras, etc). As reivindicações dos movimentos sociais e sindicais são contundentes, reais. Mas, 'se antes as mobilizações, com toda a violência da parcela dos oportunistas, eram justas, as da semana passada (11/07), foram dos marginais (marginalizados)’, segundo a grande mídia. Isso me leva a crer que essa grande mídia e seus reprodutores, não gostam do cheiro do povo e, claramente, estão posicionados contra os avanços e direitos dos trabalhadores, ao lado das grandes corporações e dos interesses de uma minoria privilegiada pela concentração de renda que é histórica nesse país.


Falando nisso...

Em meio a críticas populares e cobranças do Ministério Público, a grande empresa do transporte coletivo de Chapecó ofereceu um café aos ‘amigos da imprensa’ local para justificar o valor da sua tarifa, questionada pelos manifestantes. ‘Café para a imprensa!?’ Que chique, eim!? E nem me convidaram! Por um bom café, sou capaz até de me passar por jornalista...


 * também publicado no jornal Gazeta de Chapecó, 18/07




sexta-feira, 12 de julho de 2013

Eu inseto...


 Olho para o teto. A goteira cai lenta e gelada na minha testa. A noite se arrasta umedecida como a lesma na parede do meu quarto. A garrafa de rum foi morta em menos de uma hora. Toda a cerveja e todo o cigarro duraram um pouco mais. Na tevê, o mesmo de sempre. Futebol, novela, tiros, propagandas de automóveis com gostosas ao lado, comentários estúpidos de jornalistas medíocres sobre as manifestações que tomam as ruas, herói político nacional em denúncias de corrupção, herói esportista nacional tombando no ringue feito um deslizamento de terra, etecétera. Tudo muito importante e empolgante. Tanto que jogo a garrafa vazia de rum na porcaria da tevê. Ela silencia e incendeia. Deixo que queime até virar pó. Enquanto isso, uma garoa fina cai lá fora. O dia é uma projeção e eu continuo esparramado na cama. Uma barata passa sobre meus pés. A única e boa companhia das últimas vinte horas. Ela não fala pelos cotovelos, não reclama, não me pede cigarros nem joga sua ira sobre minha alma. Tenho a alma leve por isso. Não me incomodo com a barata, e por mais que não goste de insetos, tolero seus modos. Admiro a resistência dos insetos e a forma com que se movem e como se adaptam a condições adversas. Olho para meus braços e para a barata. Lembro-me de Kafka. Penso que se eu ficar mais algumas horas ou dias nesse quarto, me transformo em inseto. Fecho os olhos aguardando a metamorfose.

hgs. 


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 12/07


quinta-feira, 11 de julho de 2013

Leituras do Cotidiano - 11/07

Aos resistentes da praça central...

Eles movimentam-se rumo a dias melhores. Utopia ou esperança, não importa,  estão ativos. Pensam para além de si próprios. Pensam, não pelo outro, mas o outro - e com o outro. As coisas da vida em pauta. Pensam o mundo, a rua. A rua como espaço público de convivência, para além do controle e do concreto. Enquanto muitos permanecem trancados em suas casas no pretexto de que a rua é um lugar perigoso, eles fazem da rua um lugar amplo, diverso, vivo. A rua traz um ar de liberdade e de possibilidades que ela, só ela, tem. Viver a rua é ampliar as possibilidades de vida. São guerreiros, são lutadores. São corajosos amantes da rua, pois só quem ama a rua também a pode viver. Juntaram-se a outros guerreiros, outros lutadores que, mesmo antes deles, já estavam por lá, cobertos por papelões dormindo sobre o chão. Acompanhados por seus cães magros e alegres e com suas barbas mal feitas, seus odores de sofrimento, seus risos de poucos dentes e muitas lidas, eles fazem das ruas suas casas. Casas de tetos estrelados onde os quintais são livres de muros e grades. Os guerreiros lutam por espaços mais amplos e humanizados, por certa dignidade que consta em certos livros e discursos por aí. Ocupam praças se aquecendo do frio com abraços solidários. Barracas armadas de esperança e fé. Não a fé distante dos cultos ou das igrejas, nem das promessas ou das instituições burocráticas, mas a fé cantante, expressiva e audaz do povo. Eles fazem mais do que os olhos podem ver, e são agentes que escrevem a história presente, com seus atos e palavras, com suas coragens e vontades de mudança, e por mais difícil que a luta possa ser, resistem, sem perder o riso e a ternura, jamais!

*  Dedicado aos acampados da ‘Assembleia Popular Permanente’ da praça central de Xapecó.



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O lugar da filosofia para além da fragmentação filosófica

Os que habitam o mundo ideal não percebem a guerra que há aqui fora

Tratar o conhecimento e o pensamento como algo distante das experiências cotidianas faz perder a noção do todo, e isso é admitir a existência de uma ‘superioridade’ de pensamento, ou seja, uma divinização do lugar do pensar e do pensador - como reza, por exemplo, o idealismo platônico. Uma das problemáticas a enfrentar no contemporâneo, é justamente a fragmentação do pensamento. É preciso retomar o pensamento (e o conhecimento), como algo ‘universal’ (mas não generalizante – e há uma diferença nisso). Para isso, são imprescindíveis as referências ou a soma dos conhecimentos e leituras de mundo adquiridos no caminho e pelo tempo.


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó, 11/07



sexta-feira, 5 de julho de 2013

Perguntas que cairiam bem ao ‘herói’ dos arrebanhados: Joaquim Barbosa!

















“Por que juízes têm dois meses de férias por ano? Por que o judiciário ganha auxílio-moradia e auxílio alimentação retroativos? Por que mulheres de ministros do STF recebem passagem em primeira classe para acompanhar os maridos?” (Juremir Machado – Correio do Povo)


A ‘corrupção’ tá na boca do povo. Na boca dos que querem derrubar a presidenta e na boca dos que realmente querem um país melhor. A corrupção nunca foi tão ouvida pelas ruas, na televisão, ao redor das mesas de jantares, nas escolas. A estupidez de alguns é tanta que chegam a urrar por um infundado impeachment da presidenta - como já fizeram outra feita em Xapecó com o ex-prefeito petista José Fritsch (alguém lembra dele e do fiasco da tal tentativa frustrada?). Outros, pouco menos ou pouco mais estúpidos, clamam o nome de Joaquim Barbosa para presidência do Brasil. Tudo em nome da ‘santa corrupção nossa de cada dia’. Parte das nossas práticas e da nossa cultura é corrupta há aproximadamente 500 anos, e só agora alguns foram perceber isso (?). Mas, convenhamos, a corrupção é tanta que chega a ser ‘legal’ (ou legalizada por lei). Como assim Herman? Basta voltarmos os olhos para o início dessa crônica (citação do Juremir). Eis a resposta! Sem mais por hoje...


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 05/07 



quinta-feira, 4 de julho de 2013

Leituras do Cotidiano - 04/07


Cadê a ‘classe’ dos artistas xapecoenses?

Em vários locais do Brasil a dita ‘categoria’ ou ‘classe artística’ se mobiliza para além das suas atividades rotineiras, ultrapassando o limite do seu espaço e somando a outras ‘classes’ e/ou grupos manifestantes. O Brasil tomando as ruas - e Xapecó também é rua. Dentro deste contexto, sinto falta dos ditos 'artixxxtas' xapecoenses nas ruas, num momento crucial de possibilidade de um real desenvolvimento nacional, para além do econômico, ou seja, um desenvolvimento cultural e humano. Pelas ruas da cidade encontrei um que outro ‘artista’ fazendo parte desse momento (como o povo do Hip-Hop que, por aqui, anda peleando sem receio, por exemplo). Muitos dos que mais ‘garganteiam’ por aí, sumiram do mapa. Será que o 'idealismo platônico', onde a crença de que, existem seres privilegiados (que nesse caso seriam os ‘artistas’) que não se misturam ao povo 'comum' na rua, afeta nossos ‘artixxxtas’? Esse 'idealismo' que já infesta o ego de muitos professores e ditos filósofos (entre outros) que acham estarem além da realidade. Tempos atrás, artistas eram voz ativa em movimentos políticos e culturais no Brasil. E hoje? Onde estão? Medo de comprar briga com o poder público e ou seus 'investidores privados'? Postura de 'superioridade'? Não sei, não sei, só estou me perguntando, já que também transito nesse meio. 'Teatreiros, roqueiros, poeteiros, literateiros, arteiros plásticos, musiqueiros', etecétera, vocês ainda respiram?

“A arte da vida, da vida de um poeta, é, diante do nada o que fazer, fazer algo”. (H. D. Thoreau)


E a dita ‘classe média’ brasileira...


A dita 'classe média' brasileira nunca esteve tão bem, economicamente falando. Graças a melhor situação econômica que o país já teve ao longo de sua história - no caso, hoje! E isso se dá devido a que? Incoerentes, ‘inconscientes’ e inconsequentes, os 'medianos' reproduzem ideias e discursos da dita 'classe alta', se portando como tal (mas não sendo), defendendo seus exploradores contra a 'classe baixa', a mais sofrida e sem poder entre elas. Sei que isso não é nada novo, mas já é passada a hora disso ser pauta. Estupidez e covardia dos que se acham inteligentes e vítimas de tudo. Jogar a culpa das mazelas sociais, econômicas e culturais nas costas largas do povo mais ‘humilde’ é fácil. Como é fácil transferir a responsabilidade sua ao outro. Quero ver é encarar de frente essa realidade e assumir que até então, a postura dessa dita ‘classe média em ascensão’, foi uma postura de capacho. Veremos se essa ‘classe’ abre o olho e se bota em seu lugar, para assim, quem sabe, passar a adquirir mais amplitude no seu intelecto e coerência nos seus discursos e atos. Para isso, é preciso criar vergonha na cara e enfrentar os reais mantenedores desse sistema. Aí sim poderemos falar com mais franqueza sobre uma tal ‘corrupção’.  




* também publicado no jornal Gazeta Chapecó, 04/07



quinta-feira, 27 de junho de 2013

Reforma Política!

















A grande mídia, alguns grupos ou tendências políticas, parte significativa do judiciário, alguns grupos de manifestantes, gritam em alto tom 'contra a corrupção'. Então a presidenta se pronuncia por uma Reforma Política (um meio possível de atingir realmente a corrupção, para além dos subjetivismos), coisa que o ex-presidente Lula, em torno de 7 anos atrás já havia dito (e foi detonado por isso). Bastasse que isso acontecesse, para essas 'forças' (mídia, grupos políticos e manifestantes, judiciário, etc.) caírem em críticas duras (e desesperadas) atacando a presidenta e seu pronunciamento. Mas querem o que essa gente?! 

Visualizo a 'grande contradição' nisso: um discurso manobrista que se move conforme interesses ideológicos - e muita hipocrisia! Não é a dita 'corrupção' que está em jogo para essas forças não! Para elas, o 'combate a corrupção' não passa de um discurso. Com isso, essas forças mostram sua face perversa: ELAS SÃO CORRUPTAS! Qual é o medo delas frente a uma Reforma Política? 

Agora é hora das 'máscaras' (que enchem as ruas, diga-se de passagem) caírem, mesmo que continuem nos rostos. É hora de ver quem é quem nessa 'brincadeira' toda. 

Quer realmente se manifestar 'contra a corrupção' (para além do discurso e do subjetivismo)? Eis a bandeira contundente: "REFORMA POLÍTICA, JÁ!" (e porque não?). 

Para encerrar e ‘pra não dizerem que eu não falei das flores’, penso que faltou a presidenta falar em Reforma da Mídia, Reforma do Judiciário, Reforma da Educação e Reforma Agrária. Aí sim estaremos falando em reais e coerentes transformações. 



* também publicado no jornal Folha do Bairro, 28/06



Leituras do Cotidiano - redução da maioridade penal?



A Redução da Maioridade Penal e a covardia adulta de cada dia...

Muitos dos que são a favor da redução da maioridade penal, são também favoráveis ao uso liberado de armas de fogo, assim como, muitos dos que são contra o aborto, são favoráveis a pena de morte. Contradição? Prefiro dizer: ‘incoerência’. Posições no mínimo suspeitas. Ignorância? Estupidez? Ingenuidade? Ou interesse ideológico? Pode ser tanto um quanto o outro, só não acredito na ingenuidade, neste caso. O que os favoráveis a redução da maioridade penal e ao uso livre de armas de fogo teriam a dizer daquele caso onde um pai imbecilmente levou sua filha junto e foi tirar satisfações com o dono de uma pizzaria (ambos adultos), acabaram se desentendendo e quem levou a pior foi a criança de 11 anos que morreu com um tiro na cabeça - pelo outro imbecil, que argumentou estar agindo em defesa própria? A estupidez adulta faz vítimas infantis.


O que a Redução da Maioridade Penal pode (ou vai) gerar?


Pode ou vai gerar uma ainda maior omissão do Estado e do mundo adulto para com as crianças e jovens, as principais e maiores vítimas dos seus excessos e descasos. Vai gerar a ‘transferência’ daquilo que seriam suas responsabilidades aos menores de idade que, se são infratores, é devido a esses descasos (e são muitos: intelectuais, culturais, familiares, básicos, humanos, existenciais, etc.). A redução não passa de uma ‘resposta’ medíocre para a satisfação ‘sádica’ de uma parte hipócrita da sociedade, infestada pela frustração de adultos reducionistas (que, com isso, irão se sentir apenas um pouco melhor, nas suas demências adulto-vingativas) - suas falhas e negligências sendo ‘compensadas’ pela punição daqueles que deveriam ser protegidos, respeitados e dignificados por essa sociedade. Se existem menores infratores, eles são o reflexo de infrações maiores que lhe são impostas como herança sociocultural: as ‘nossas’, adultos maios ou menos conscientes de seus papéis nessa ordem social, pois somos nós, adultos, os que têm maior força nesse modo de vida, constituído pelos nossos hábitos, vícios, covardias e modos. Uma sociedade que promove a disputa, a competição individualista, seus valores mesquinhos reproduzidos por um aparato publicitário, escolar, familiar, cultural, inculcados nas crianças que, abandonadas a toda sorte, irão penar para dançar conforme a música composta por nós e nossas ambições, e se não conseguirem adaptarem-se a isso, serão desclassificadas, julgadas, excluídas, marginalizadas e lançadas para fora da nossa festa, do nosso baile, da nossa dança macabra. O mundo adulto, geralmente, trata suas crianças, seus filhos, como objetos de seus desejos reprimidos, não saciados, das suas frustrações, e essas são herdeiras de uma cultura que não criaram, nem puderam opinar ou escolher. Portanto, eles, os menores são as vítimas primeiras do nosso modo seletivo de vida. E os moralistas, ordeiros, doentios por uma segurança que não existe, irão se deliciar vendo as vítimas das suas imbecilidades angustiarem por não serem como eles.


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó, 27/06 



segunda-feira, 24 de junho de 2013

Manifestações & manifestanças: entre máscaras, mascarados e mascaramentos...

Podem existir quatro rostos (mais identificáveis) por detrás de uma mesma máscara. O primeiro, de olhar utópico, astuto, poético, amplo, politizado, crítico, libertário, posicionado, com vistas para transformações. O segundo, de olhar privado, interesseiro, dogmático, doutrinador, reacionário, oportunista, ludibriador, usurpador, corruptor. O terceiro, de olhar medíocre, mesquinho, estagnado, formal, burocrata, despolitizado, cego.  O quarto e último, de olhar distante, alheio, indiferente. Ambos podem vestir ou vestem máscaras. E as máscaras se apresentam de várias formas. Algumas, inclusive, tem o formado do próprio rosto. Mas a máscara de que venho falar é uma que está muito em evidência atualmente, principalmente com as ondas de manifestações que sacodem o país. Trata-se da máscara de um personagem de um HQ de Alan Moore chamado “V de Vingança”, onde o personagem mascarado ficou popularmente conhecido como “V”, e o quadrinho acabou virando adaptação num filme de sucesso. Um grupo (?) que se intitula Anonymous tomou essa máscara como símbolo de seus recados e ações mundo afora. Porém, outros grupos (ou pessoas sem grupo algum) se apropriaram da mesma imagem, usando-a para variados fins e práticas. No entanto, no início dos anos de 1980, antes mesmo de toda essa movimentação de hakers e ativistas midiáticos, um teórico de pseudônimo Hakim Bey já havia escrito sobre a força e o poder informativo e organizacional da rede (ou seja, da internet, web e redes sociais, antes mesmo delas serem o que são hoje), dando deixas de seu uso em levantes e práticas afins, desconstrutoras de ordens reacionárias e deterministas.

Estamos no meio de um turbilhão de informações e forças opostas que em alguns aspectos ou momentos se atraem, formando um tornado onde tudo e nada se misturam. Aí surgem ataques, defesas, posições e/ou a falta delas sobre os mais variados aspectos, todos lutando por espaços onde possam por em prática suas formas de pensar – o que, de certo modo, Karl Marx chamou de relações de poder. Os conflitos, as contradições e as dialéticas cotidianas, transformadas em informação e comunicadas, alimentam a rede, e as ruas acabaram nos últimos anos, sendo palco da manifestação dos anseios humanos, sejam eles individuais ou grupais, com isso. E entre posições e imposições, o palco das manifestações acaba também sendo palco do espetáculo midiático e das confusões e convulsões da rua. Mas isso não é novidade alguma. Temos vários episódios históricos que assim se sucederam.

Os Zapatistas, sob a inspiração da figura ‘sem rosto’ do subcomandante Marcos, também tem seus rostos cobertos, onde, quando do incrível levante de 1994, quando questionados sobre isso, deram a resposta em coro com a frase: “Somos todos Zapata!”. Muitos anos antes do Zapatismo contemporâneo, o próprio Emiliano Zapata, confundia seus perseguidores reacionários trocando de papéis com seu irmão gêmeo. Assim podia, além de confundir seus inimigos, atuar em duas frentes ao mesmo tempo.


Símbolos são utilizados e feitos território ao longo da história. Peguemos como exemplo um dos símbolos da esquerda latino americana, a imagem de Chê Guevara. Imagem essa que foi apropriada ideologicamente para o ‘espetáculo’, por altas marcas e grifes do capitalismo. Algo semelhante acontece hoje com a máscara do ‘V’, só que, ao invés da bandeira de Guevara, temos a máscara, e ambos estão expostos nas vitrines do ‘capitalismo camaleão’, a venda. Esse sistema tem tanto poder e é tão dinâmico que se mescla, se funde, se amplia, se apropria e transforma símbolos, ideias e práticas, utilizando-se deles para sua própria manutenção. Como uma grande mãe que abraça todos os filhos do mundo (desde que esses não pertençam a ‘categoria’ dos marginais, dos indesejáveis: povos indígenas e caboclos - entre outros que ‘não consomem’ a maneira dos demais – os demais que também podem ser as chamadas ‘minorias’, mas que se enquadram no consumismo e espetáculo que o sistema dispõe). Indígenas, caboclos, afro-pagãos, malditos e marginais de toda a estirpe estão fora dessa ‘lógica consumista’ do capital territorializante e permissivo. Ser território, localização, é ser prato cheio para esse sistema, pois ele, sendo camaleão, quando não consegue adequar os diferentes e ‘inquietos’ a si, acaba se adequando a eles.

Julian Assange (mentor e principal nome do Wikileaks), hoje, talvez, o grande nome da informação livre mundial, pagou preço alto por resistir de ‘rosto limpo’ aos trâmites da jogatina midiática (e penso que deveria ter mais apoio dos ditos lutadores por um mundo livre). Hoje, Assange vive na dependência de apoios e correndo riscos, tendo que se privar de muita coisa para prosseguir na sua árdua forma e escolha de resistência. Talvez, se ele não tivesse rosto, a exemplo do Coringa (personagem de HQ do Batman: o cavaleiro das trevas, que também virou filme), pudesse atuar de outra forma e livre do policiamento dos ‘sistemas controladores’ mundiais. O Coringa, na sua simbologia, é um ‘agente do caos’, a carta do baralho que parece contraditória, mas que no fundo, contradiz, assim como um dos grandes pensadores modernos (que pensa para além da modernidade), F. W.  Nietzsche se auto percebe, sendo ele próprio, autor e ‘personagem’ na sua obra filosófica: “Não sou contraditório, sou contraditor”. Hakim Bey, também vai além da identificação, do território, da localização, assim como o Coringa e o grande ‘artista social’ contemporâneo, Banksy, que desconstrói paisagens com sua arte urbana, fazendo com que o olhar do transeunte sobre o sistema, a cidade e sua vida nela, vá além da estreiteza de uma visão acostumada e convencionada, obediente as velhas formas e modos de se perceber e viver em sociedade.



Acontece que, assim como o Estado capitalista dito democrático (caracterizado pelo iluminismo de cunho maçônico-protestante-liberal-burguês, intensificado pela Revolução Francesa e depois reformado pela social democracia) se apropria do discurso (e em certa medida, até de algumas práticas) da dita ‘esquerda socialista’, os símbolos de resistência também são vulneráveis a essa apropriação, e muitos deles passam (a exemplo do ‘discurso revolucionário’ de esquerda), a fazer parte do repertório da chamada ‘direita capitalista’, que predomina e reproduz a ordem social vigente.



Esse sistema é tão dinâmico e bem arquitetado que, ao tempo em que exclui, inclui. Ou seja, quando não consegue dar conta da exclusão, tem a possibilidade de incluir, e mesmo assim manter seu poder de mando ‘soberano’, e até a esquerda opositora desse sistema, acaba, quando conquista (ou ganha) algum poder institucional nele, utilizando-se das suas estruturas e modos, das suas facilidades e regras para poder se manter. Então amigos, a problemática é mais profunda do que se desenha no jogo ideológico por conquistas de espaço (ou território), e não basta a tomada de poder ou sua reformulação, é necessário pensar e ir além disso (para quem sabe um dia, estar), mexer com os valores, modos, concepções e formas de se pensar e fazer, e isso está para além da economia, da infraestrutura social. É preciso que se perceba e se desconstrua, em certa medida, a cultura humana, ou seja, a superestrutura precisa sentir também o abalo, pois transformar a economia apenas, se comprovou, não basta – presenciamos uma problemática sociocultural.



O subcomandante Marcos é ‘sub’ pois transfere ao coletivo o comando social, e seu rosto, sua identificação não é o elemento que vai torna-lo um zapatista. Com seu ‘rosto limpo’, portanto, identificado, ele passaria a ter uma marca, um território localizado, policiado, e assim, se tornaria presa fácil. Quando os zapatistas afastam a identificação de si, cobrindo o rosto, não sendo mais indivíduos fragmentados, passam a fazer parte de um todo maior (uma ‘causa’), e a partir disso, ter uma só voz, onde o ‘eu sou’ continua existindo, mas onde o ‘todos somos’, adquire outra proporção, e isso se justifica quando o zapatista por ‘não ter rosto’, indagado por um jornalista que lhe pergunta: “Mas quem é você?”, responde: “Somos todos Zapata!”.

Subtraio disso tudo, amigos, possibilidades e não certezas ou convicções – que fique claro! Prefiro, neste caso, assim pensar, consciente de que, a ‘confusão’ das máscaras, dos mascarados e dos mascaramentos, tem dois ou mais caminhos: um, o de gerar novos olhares, mais amplos ou irrestritos, não direcionados a uma localização ou território dado, mas, descaracterizado de ‘ser um em si mesmo - um eu’, em pró do conteúdo (onde todos tenham uma voz que compreenda a voz de cada um), o que poderá se ampliar em possíveis e reais mudanças; outro, o de confundir e apenas tornar tudo um grande espetáculo (e de certo modo, assim já não o é?). Os demais caminhos, como diz o poeta, ‘se fazem caminhando’.


obra de Banksy