sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Leituras do Cotidiano, 20/02

Também quero reproduzir...

...como quero! Não precisar me esforçar para criar. Não ter o peso da consciência por um dia, um único dia, não ter sido criativo. Como professor, apenas repassar o conteúdo, sem problematizar, sem ‘colocar minhocas’ na cabecinha dos alunos, sendo um facilitador e assim me poupar de cobranças ou críticas que vêm, geralmente, daqueles que não sabem e nem querem saber por onde anda a virtude humana. Como escritor, ser um clichê ambulante, dizer o óbvio, inventar misticismos e tolices para o mercado do lixo-literário, falar o que não compromete o pseudo-intelecto do leitor-consumidor nem o interesse dos patrocinadores do veículo ou da editora que publica minhas obras. Como músico, morrer fazendo covers de bandas consagradas. Como compositor, não existir. Como fotógrafo, ter uma câmera que faça parte do trabalho por mim, além do melhor programa para manipular as imagens e torná-las comestíveis, a modo publicitárias de ser, para todos os que não tem sensibilidade para rasuras, poesia e contextos aplaudirem minha farsa.
Também quero reproduzir. Como quero! Não um reprodutor biológico e ter muitos filhos. Não, não é isso. Quero reproduzir o mundo, bem do jeitinho que ele é, como a cabeça dos que o mantém no equivoco das horas e dos dias, injusto, inconsequente, omisso, estúpido, medíocre, discursivo e hipócrita. Ser parte do jogo, onde o conhecimento é apenas um engodo, onde crianças são mal tratadas, imbecilizadas desde o berço até a idade adulta e que, talvez, quando velhas, descubram que não precisava ser assim ou que poderia ter sido diferente, mas daí já foi tarde demais e resta apenas um frustrado cabisbaixo nostalgicamente pensando: “Que pena!”.
Também quero reproduzir e não precisar explicar o que não pode ser explicado aos que me subestimam e subestimam minha obra ainda em construção, inacabada, integra e cheia de furos de bala. Não ser tratado injustamente como se tratam as crianças, os velhos, os bichos e alguns adultos que se dignificam fazer da vida algo além do que os olhos viciados veem. 
Também queria ser um reprodutor e ter sucesso sem inconvenientes. Mas não, não consigo. Sou um fracasso porque sou um criador.  Não consigo reproduzir e assim facilitar minha vida. Não consigo ser um reprodutor que limita o outro pelo medo do próprio crescimento – ou do próprio fracasso. Nasci para a arte e para expressão como quem nasce para a vida, sem tirar nem por. E é por isso que canto, danço e escrevo.


Wing Tjun Kung Fu: arte para além da luta...

Feliz em saber, da boca de alunos (‘irmãos’ Kung Fu), que as nossas aulas, a nossa prática e estudo, mudaram ou melhoraram suas vidas (e/ou estão mudando/melhorando). Eis um elemento desta arte que, muito além de marcial, é humana, cultural, social, filosófica, histórica, proativa. Estudar, praticar ou treinar W.T. é aprender a melhor se expressar com o corpo, melhor se mover, usar melhor a mente e a energia interna que ecoa e se junta a energia cósmica (integração entre 'corpo, mente e energia'), melhorar as relações humanas e ter mais visão e consciência do meio ou espaço em que se vive, entre outros. Eis os benefícios e motivos da prática. Eis a nossa arte!


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.




Envenenamento Cultural

Criei um conceito. Novo. Quer dizer, acho que criei, pois não me lembro de ter visto/lido isso em outro lugar. Meu conceito de ‘Envenenamento Cultural’. Pera aí, já explico! O mundo é um campo de batalhas minado, sob tudo de signos e linguagens simbólicas ou discursivas dados pela publicidade e propaganda de marqueteiros políticos e dos grandes negócios, das grandes marcas e ideologias. Comunicação feita para convencer, conquistar, ter público e consumidor. A ideia é reforçada e o ‘produto’ é pregado massivamente até ser transformado em ícone. Falo dos ídolos, dos moralistas, dos ‘bons mocinhos’ ou ‘gentes de bem’, vinculados às ideologias, doutrinas e produtos, além dos próprios produtos em si. Muito do que veicula nos meios de comunicação de massa. E é isso que torna a cultura e o mundo, campos minados. Aí é que entra meu ‘veneno’. Ou seja, ‘envenenar a cultura’ com algumas ideias e práticas ‘malditas’, que tragam contradição e fortes ímpetos de busca interior e exterior de extra-notícia, extra-jornalismo, extra-publicidade, extra-verdade. Uma prática fácil e acessível a todos que se dispuserem a descolar a bunda do sofá e saírem com seus filhos e cães e vizinhos ou amigos, a caminhar pelo parque ou praça pública cantando qualquer canção extra-popularizada, descalços ou de chinelo, vivendo... 


(Imagem: Obra - em grafiti - de Banksy)


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 20/02.



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Entre o barulho e a realidade

“Impeachment já! Pra hoje. Agora. Eu quero. Senão eu choro!” Mas ‘criança’, não sabe que esse tal de impeachment, que você nem sabe falar direito, é um processo? Um processo que para acontecer não depende simplesmente da sua vontade, da sua revolta, do seu achismo, do seu discurso, da sua imaturidade ou da sua visão. Então pare de chorar e vai ler, pesquisar, se informar, para ver e saber, o que e como isso pode acontecer, em quais circunstâncias. Existe a lei. Existem critérios e motivos para que um impeachment possa acontecer. Pare de reproduzir um discurso, uma publicidade, uma ideologia, pronta, ‘feita a facão’ como dizem alguns. Não faça papel de ‘papagaio de pirata’ que repete tudo sem saber nada. Agora vamos falar sério. O que você tem a dizer sobre a Reforma Política? É a favor de uma Reforma Midiática? “O quê? Quem? Quando? Aonde? Como?” Então ‘criança’, não sabe da urgência dessas reformas, sabe? Não sabe quais são os deputados, as forças políticas que não querem que ela aconteça, por mais que discursem a favor, né? Pobre ‘criança’, precisa de mais e melhores informações. ‘Criança’, pare um pouco de fazer barulho e bora crescer...


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 13/02.



Leituras do Cotidiano

Yellow Blocks...

Um novo bloco. Bloco de carnaval. O enredo do samba: 'Impeachment, todo o Brasil na rua!’ - para sambar!  Carnaval no facebook: 'A gente se vê por aqui'! Plim-plim! Eita povo 'alegre' esse! Bom pra rir... do papelão.

Engraçado essa galera que clama por Impeatchment, mas não fala uma linha sobre Reforma Política, Reforma dos Meios de Comunicação, etc. Não cobram do Congresso essas necessidades. Será que realmente pensam no país como um todo? Ou é só ‘fogo de palha’ motivado por interesses ou dores pessoais?

Para impeachment, que é um processo e não acontece do dia pra noite, existe lei, critério e os motivos. Ou seja, não é tão simples assim. Por isso, antes de reproduzirem qualquer besteira pelas redes sociais ou ruas, é bom se informar melhor. E antes de gritar ‘Impeachment já!’, é preciso urgentemente gritar:  'Conhecimento já!'


O ridículo não tem discernimento...

Novamente ele, conhecido colunista de um rodado jornal local/regional (e até estadual), além de comentarista em telejornal, vem a público soltar suas dores pessoais em forma de ‘crônica’. Diz o sujeito que o Brasil não teve ditadura. Em seguida, comparar a 'ditadura militar' brasileira com o caso de Cuba. Sem contexto algum. Um atentado contra a História. Algo típico de quem distorce tudo com o discurso ideológico e a estupidez da voz brava da ‘verdade absoluta’. Mas, sempre há quem goste da 'dita-dura' enfiada em suas entranhas. Depois fala em educação.
Educação começa por conhecimento, inclusive histórico, diga-se de passagem. Hora dessas, este cidadão vai ter um infarto ao vivo pela TV. Aí sim o 'espetáculo midiático' estará a nível. E saber que é colunista 'lido' e contratado num jornal impresso local/estadual. Reforma midiática já!


As madames de Eduardo Cunha 

São contra o Bolsa Família mas querem Bolsa Madame. Falo de algumas mulheres de Deputados que se reuniram com Cunha para pedir ‘cotas’ para suas viagens. Reclamam contra a corrupção mas querem-na legalizada nos seus privilégios. Eita ‘coerência’!

Tirada do facebook: “A água só se torna um problema nacional (do Jornal Nacional- plim-plim!) quando atinge a região sudeste”.

O Sul é...

Reclamantes querem a separação do Sul do resto do país, agora alegando ‘roubalheira’, corrupção, como que, se no Sul isso não existisse. Aqui, historicamente, é um antro dessas mazelas (leia-se casos recentes como os do escândalo das próteses médicas, anos atrás, das ambulâncias, e ano passado das lombadas eletrônicas, sem contar os rolos envolvendo prefeitos e governadores da nossa amada, mas não menos contraditória região Sul).

O herói voltou!


É, voltou com tudo. O ícone midiático contratado da empresa UFC que sobe aos ringues para dar ‘espetáculo’ no tal MMA (Artes Marciais Mistas – há quem afirme que isso não é ‘arte marcial’) venceu a luta do seu retorno ao estrelato, mas logo o resultado do exame de doping jogou novamente na lona o também chamado Spider. Parece que o ‘espetáculo midiático’, às vezes, tem seus momentos de ‘circo de horrores’, porém, até isso é cardápio para sua indústria de entretenimento que engorda a cada dia – espero que um dia morra de infarto (a ideologia da indústria cultural, não o ‘Aranha’, que fique claro, antes que algum lunático qualquer venha me maldizer). 


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó em 13/02.



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Leituras do Cotidiano, 06/02


Das inquietudes de ser homem e adulto

*  Para mulheres e homens, meninas e meninos
 
Fechei a boca para o pó não entrar. Os olhos para o sol não entrar. Os ouvidos para o som não entrar. As narinas para o cheiro não entrar. Antes, havia fechado as janelas e as portas, mas existem as frestas. Na minha casa há muitas frestas por onde o mundo lá de fora entra em pequenas quantias. Aos poucos ele enche minha casa com suas coisas, seus problemas, seus propósitos, suas demências, suas virtudes e suas notícias. Volta e meia algo de bom entra na minha casa, como o riso espontâneo de alguma criança que corre suja na rua. Como o canto distante de algum pássaro. Como um poema dito pela boca de algum vivente aluado ou como o ar fresco que sempre acontece depois da chuva. Tenho boca, olhos, ouvidos e narinas pra isso. Na minha casa, tenho frestas pra isso. O caminho é o mesmo. As frestas são as mesmas. Só o que entra é diferente. O mundo lá fora, ao mesmo tempo, é um lodaçal onde muitas pessoas se banham e é o mar azul onde muitas outras mergulham, com suas superficialidades e suas profundezas. Aqui dentro, na minha casa, correm rios. Rios sonoros e profundos. Rios que choram. Rios que descansam. Rios que cantam, gritam e sorriem. Rios de vida e rios de morte. Rios em que me refresco diariamente. Rios de águas turvas que de repente se aquietam e tornam meu mundo mais sereno, tranquilo. Tenho características de um homem bom. Só características, pois sou mau como todos os outros homens na minha idade. Mas logo, logo, sei que já estarei ficando bom de novo – ou pela primeira vez na vida - como as meninas da minha rua, tão pequenas e tão felizes! Daqui a pouco estarei mais velho. Nunca voltarei a ser este homem mau de meia idade, adulto, duro e metódico. As mulheres são mais sensíveis. Nem todas, eu sei, mas grande parte delas. Nós, homens, não temos este privilégio. As meninas cantam e dançam, enquanto os meninos gritam e correm. A natureza quis assim. Deus quis assim. E os dois, nos enganaram direitinho.


Entendendo o conflito como um todo

“Compreender a natureza do conflito exige não a compreensão do seu conflito particular como um indivíduo, mas o entendimento do conflito total como um ser humano – o conflito total, que inclui nacionalismo, diferença de classe, ambição, avareza, inveja, o desejo de posição, prestígio, todo o sentido de poder, dominação, medo, culpa, ansiedade, no qual está envolvida a morte, a meditação – o todo da vida. E para entender o todo da vida, deve-se ver, ouvir não fragmentariamente, mas observar o vasto mapa da vida. Uma de nossas dificuldades é, não é, que funcionamos fragmentariamente, funcionamos em seções, numa parte – você é um engenheiro, um artista, um cientista, um homem de negócios, um advogado, um físico e assim por diante – dividido, fragmentário. E cada fragmento está em luta com o outro fragmento, desprezando-o ou sentindo-se superior.”

(Jiddu Krishnamurti - The Collected Works vol XVI, pp 4-5)



* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.




Degradação a motor

A degradação sociocultural a partir do combustível e do automóvel particular



Um país, uma sociedade, um mundo avançado, desenvolvido, 'melhorado', preza pelo transporte público e de qualidade: ônibus, trem, metrô, ciclovia, etc. Muitas das nossas cidades estão quase intransitáveis, principalmente para pedestres e transportes alternativos - e até para carros. Isso se dá devido ao alto consumo e uso particular de automóveis. O combustível é danoso e sustenta parte de um sistema socioeconômico degradante humanamente falando, como é o nosso. Nesta ‘organização social’ tem mais vez o automóvel do que o pedestre. Os espaços parecem ser projetados para carros, não para gente. E isso tudo tem um preço (alto, diga-se de passagem) a ser pago. Sei da ‘necessidade’ do transporte e do combustível nisso – e além disso, na economia como um todo. Mas, a questão é que, não existe só este tipo de economia (ligada ao petróleo e suas integrações). Portanto, já é passada a hora de repensar, rever e partir para outras ‘soluções’. Caso contrário, estaremos destinados a ‘não transitar’, ‘não estar’ e ‘não ser’. Enfim. O combustível está caro? Mas nem só de combustível vive o homem, a sociedade, a cidade! Então, paremos de choramingar e pensemos e agimos maior. Para um mundo maior de possibilidades e não determinismos.

* também publicado no jornal Folha do Bairro, 06/02.



sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Cansaço...

As pessoas que transitam eufóricas pela rua me cansam o olhar. Os doutos das academias que tratam o mundo como algo pequeno, me cansam a razão. As palavras vomitadas pelos telejornais me cansam a audição. Os discursos de ódio reproduzidos na rede social me cansam a humanidade. A corrida pelo ouro que é o pão que o diabo amassou, a corrida contra o outro, o status social, a disputa pessoal, tudo isso me cansa. Por isso é que vivo cansado, num cansaço só meu, que não é o mesmo cansaço de todo mundo. E o mundo cansa um dia. A natureza, vítima de tudo isso, anda bem cansada. Hora dessas, nos cospe para fora de seu planeta. Os jogos de poder nos bastidores da política oficial me cansam a dignidade. O choro da criança faminta me cansa o sentimento. O corpo malhado na academia sem conteúdo em cima e sem sensibilidade me cansa o movimento. A falta de bom senso, a intolerância, a mediocridade, tudo isso me cansa. E por tudo isso eu vivo cansado. Mas meu cansaço é um cansaço de cangaço. Cansaço de Lampião e Maria Bonita. Cansaço de Zapata e Vallejo que transformo em vontade de potência e força bélica. Meu cansaço tem gosto, odor e vibração. Vinho, vinagre e pimenta. Um cansaço que nutre e faz viver. Quando não morro deste cansaço, me fortaleço! (em analogia ao meu amigo bigodudo). Viver cansado, às vezes, tem sua poesia.



















* também publicado no jornal Folha do Bairro, 30/01.



Leituras do Cotidiano, 30/01

Sim, o brasileiro paga muito imposto! Mas você sabe o motivo?

"No Brasil, o rico paga menos imposto do que o pobre. Dos 513 Deputados Federais, 250 são grandes empresários, 160 são ruralistas donos de grandes fazendas, 60 são pastores e apenas 43 estão ligados aos trabalhadores."

Reformas urgentes!


'Guerra' ou 'combate às drogas', a maior falácia da história...

Desde que existe a humanidade, existem as drogas e o seu consumo. A questão é a 'forma' em que o consumo e o que existe em torno dele se dá, e não a 'droga' em si.


'Sertanejo Universitário' é 'Pop-Rock' com outro nome... ou vice-versa...

O chamado 'sertanejo universitário' não tem nada de 'sertão'. É um também chamado 'pop-rock', só que com outro nome. Ou é o 'pop-rock' um 'sertanejo universitário' disfarçado que não tem nada de 'sertão'? Nem de rock... Ambos com 'apelo romântico' e 'melódico'. 'Irmãos gêmeos' paridos pela mesma 'mãe': a 'Indústria Cultural'. É só ouvir bandas como Malta e similares e ouvir Luan's Santana's e/ou similares para perceber isso. Facinho!


Cansei de ser underground. Agora vou ser pop-star... em tudo...

Gravar discos e vídeo-clips com minhas bandas através de um produtor que nos fabrique e venda. Assim vou tocar nas FM's mais badaladas do sul do país e ter o tão desejado status. Vou escrever um livro de filosofia e algum romance para vender junto com os livros do Luiz Pondé e Stephenie Meyer em bancas de supermercados e virar best-seler. Vou comprar super-lentes e um super programa de computador para fotografar e manipular as imagens vendendo-as ao gosto publicitário, fotoshopado e plástico do mercado e dos olhos viciados midiaticamente. Vou largar o Kung Fu e montar uma academia que mistura artes marciais, vendendo a ideia de 'melhoramento' da arte marcial, discursando uma suposta 'defesa-pessoal' também para quem quiser. Mas também terá espaço para competidores. Daqui um pouco serei sócio da empresa UFC e de produtoras de filmes 'espetaculosos' do gênero. Muita musculação para ficar bombado. 'Fisiculturismo' será minha nova 'saúde', minha nova 'imagem'. Largarei das Crônicas para me dedicar ao horóscopo e as dicas de bem estar e auto-ajuda. Enfim... Ninguém mais me segura! Se a regra é competir, eis um competidor! Minha empresa já tem até nome: 'Fracassos S/A'. Sejam todos bem vindos a este novo 'Eu'!


"Ladrões e roubos estão referidos à consciência e à energia da pessoa, que são roubados pela natureza ou por outros seres através do esforço constante e excessivo que ela faz para atender aos interesses do seu ego". (Wu Jyh Cherng - mestre taoista comentando a partir do 'Tao Te Ching' de Lao Tse)


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Qual violência é pior?

Meu título de hoje é o refrão de uma canção da banda de rock Cólera. Banda punk que ouvia muito em meados dos anos 90 (e ainda ouço). Até quando ‘esta violência’ visível, televisionada, vulgarizada, banalizada, consumida e consumidora vai ser um dos grandes ‘alimentos’ do ‘espetáculo nosso de cada dia’? E qual violência é a pior? A física? A moral? Socioeconômica? Cultural/educacional? Psicológica? Na TV: ‘Menina de 4 anos é vítima de bala perdida! Agricultor é vítima de latrocínio! Surfista é vítima de policial!’ Etc., etc., etc. Tudo tem um fundo. Um começo. Mas não necessariamente um fim. No meio do tiroteio: Traficantes e Estado (polícia) fazem vítimas inocentes. ‘Combate às drogas?’. Piada? Hipocrisia? Ou burrice mesmo? Vale mesmo a pena? Porque se rouba, porque se mata? Simplesmente por opção? Maldade? Tudo é pessoal? E a sociedade, a cultura, o modo de vida, como ele é, tem uma ‘moral’ a altura para cobrar ou exigir ou falar em ‘paz’? Ou tem parte nessas ‘violências’? E nós, seres históricos, presentes, vivos, ‘o que somos’ ou ‘quem somos’ ou ‘onde estamos’ nisso? ‘Pessoas de bem’? Até quando e por quê? É o sangue? A raça? Religião? ‘A propriedade é um roubo!’, diria um velho utópico. (Obs: sujeito a ‘interpretações’): “Queremos, exigimos segurança em um modo de vida, em uma cultura, insegura”. 


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 25/01.



Leituras do Cotidiano, 25/01

Segurança? Quando? Onde? Pra quem?

'Segurança', palavrinha safada. Político fanfarrão adora ela, só ‘esquece’ de mencionar o detalhe: Segurança não se faz com a simples 'punição' ou de ‘arma na mão’. Segurança deste jeito, não passa de 'discurso' – e a ‘prevenção’? Uma cidade, uma sociedade, uma cultura que não oferece condições sócio-culturais e 'educacionais' descentes (espaços, projetos, fomentos, conteúdos, etc., como ‘prioridades’ e não mero ‘lazer’, ‘entretenimento’ e/ou ‘interesse’) aos seus habitantes (principalmente os mais vulneráveis, sócio-culturalmente e economicamente falando) tem este tipo de resultado: ‘Violências’ (no plural). Coerência com certa realidade 'desenvolvimentista' que concentra, elitiza, segmenta e não compreende o todo. Nosso 'avanço' é material e não humano (prioritariamente), resultado de uma 'cultura' medíocre, apelativa, que individualiza, segmenta e fragmenta, alimento do ‘espetáculo televisivo nosso de cada dia’. Eis a 'coerência' com a realidade. Por isso é que acontece o que acontece – para além do bem e do mal. Crescemos em materialidade, mas não em mentalidade (altos prédios, carros do ano, bens de consumo e confortos – olhe ao seu redor), mas, e 'artisticamente'? E 'intelectualmente'? Estes 'outros' crescimentos não acompanham o primeiro – eis o desequilíbrio. Não que não exista conteúdo, produção, meios e espaços. Mas, como eles são ocupados? E a questão 'pública'? E a 'educação'? O que é essencial de privatiza e é privativo, ou no mínimo, restrito. Como são ou andam as 'escolas'? Os espaços sócio-culturais? Onde a periferia é valorizada neste contexto? E as pessoas? Vejo carros, vejo vitrines e seus produtos. Vejo pessoas que se movem e se esbatem pelas ruas, correndo, atrás de que? Enfim... NINGUÉM ESTÁ SEGURO NUM MODO DE VIDA, NUMA CULTURA, NUM MUNDO INSEGURO - e o mundo é o que fazemos dele, conste.


Mais violência! Só que...

Em dois dias cinco inocentes assassinados pela polícia. Dentre estes, três crianças.


Spray de pimenta...
Governo Dilma veta correção da tabela de imposto de renda.

Só pra engrossar o caldo amargo da realidade.


Refletir...

"Nos tornaremos cada vez mais indiferentes quando alcançarmos um conhecimento suficiente da superficialidade e da futilidade dos pensamentos, da limitação dos conceitos, da pequenez dos sentimentos, da absurdez das opiniões e do número de erros na maioria das cabeças." (Arthur Schopenhauer)

"É muito fácil continuar a repetir as rotinas, fazer as coisas como têm sido feitas, como todo mundo faz. As rotinas e repetições têm um curioso efeito sobre o pensamento: elas o paralisam." (Rubem Alves)

"O Mestre disse: 'Sou fadado a, mesmo enquanto caminho na companhia de dois homens quaisquer, aprender com eles. Imito as qualidades de um; os defeitos do outro, corrijo-os em mim mesmo". (Confúcio)



* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Fundamentalismo

“Deus está morto”. Frase chocante do filósofo moderno alemão Nietzsche, principalmente quando descontextualizada ou mal interpretada. Mas quem matou deus? O próprio homem monoteísta-moderno. Politeísmo (crença em mais de um deus) e humanismo (valor no homem) são duas características da Idade Antiga. Monoteísmo (crença em um deus único) e teocentrismo (deus como centro de tudo) são duas características da Idade Média. Chegamos a Modernidade. Aqui, no chamado ‘mundo moderno’, desde o Renascimento e com o Iluminismo, o humanismo retorna, mas se mantém a crença (ou ‘discurso’? - sob tudo ocidental) em um ‘deus único e absoluto’. O politeísmo no ocidente ficou na antiguidade. Hoje temos um mundo, em sua maioria, ‘monoteísta’ e ‘humanista’, onde se pensa, acredita e se prega ‘um só deus’ e se ‘valoriza’ o homem como ‘centro’ das atenções nesta ‘modernidade’. Eis o ‘sentido’ da frase ‘chocante’ inicial de Nietzsche. O ‘deus morto’ é o deus que perdeu muito da sua ‘importância’ na modernidade, onde a ‘ciência’ passa a dividir com este ‘deus’ a crença e confiança da maioria das pessoas. Segundo Nietzsche, ‘o homem construiu uma imagem de si muito superior do que ele consegue ser’, colocando deus como sua ‘imagem e semelhança’. E o homem monoteísta-moderno continua matando em nome de ‘seu deus’. Deus que ele próprio matou.


* também publicado no jornal Folha do Bairro, 16/01.