sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Nossa divina comédia

A divina comédia humana! Canta o mestre Lira (Lirinha, ex-Cordel do Fogo Encantado) numa das suas magníficas canções. A divina comédia também é uma antiga obra literária de Dante e o nome de um disco dos Mutantes, umas das mais incríveis bandas musicais da história deste país. Escândalos, corrupção e confusão. Capa da Veja. Notícia do Jornal da Globo. Crença dos mais ingênuos, desavisados - ou estúpidos mesmo. Enquanto isso, vivemos ‘a ditadura perfeita’ (título de um baita filme do diretor mexicano Luis Estrada) conduzida pela indústria cultural (leia-se conceito em: Escola de Frankfurt), e/ou pela ideologia maniqueísta, privada, mercadológica, publicitária dos meios de comunicação de massa e seus financiadores. E assim vai. Eis nossa divina comédia, talvez, não tão humana. O ponto mais positivo de nosso primeiro governo de esquerda da história democrática, iniciado pelo presidente Lula e continuado pela presidenta Dilma, foi, como disse um dos grandes comediantes brasileiros da atualidade, a ‘democratização do capital’, no que eu diria, a ‘democratização dos espaços e acessos’. Pobre no shopping, no aeroporto, comprando, vivendo um tanto melhor, melhoria dos acessos e condições com os programas sociais (cotas, bolsas, Enem, novas universidades federais, etc.), geraram a revolta de uma ‘classe dita burguesa’ pelos marxistas, no que eu digo, uma ‘classe monopolista’ ou ‘elitista’ que não tolera ver ‘povo’ dividindo espaço consigo, e assim perdendo seu antes exclusivismo. Não que o governo atual não tenha seus furos, suas falhas (como todos os outros também tiveram), mas, o ‘anti-petismo’ traz como principal elemento esse ‘ódio de classe’ (por assim dizer). Coisa, não de país, mas de mentes subdesenvolvidas. E elas estão por aí, em todas as ‘classes’, mas principalmente na média, alta e média-alta. Por outro lado, a incapacidade do governo de fiscalizar mais de perto (e em algumas situações até de compactuar) as questões problemáticas do país (usurpações, corrupções, etc.), acaba facilitando a continuidade dessa cultura de desmantelamento da nação (se é que um dia já fomos uma). Governo fraco (neste sentido) e oposição elitista, vingativa e medíocre, e eis o resultado. Além da melhoria dos acessos com esta democratização a que me refiro, o governo deveria tratar de buscar a melhoria dos conteúdos. Ou seja, certos critérios que façam com que a indústria cultural e suas mídias realmente veiculem conteúdos que sejam diversificados, dinâmicos e abrangentes. Aí sim podemos sair deste ‘estado de comédia’ para entrar em um estado novo, onde os risos possam ser reais e sinceros.


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Demasiadamente humano

Queria estar por dentro da aventura das palavras que correm a frase. Queria compor o texto até o fim, linha após linha, parágrafo após parágrafo, para que quando terminasse, algum leitor dissesse baixinho: ‘Deve ter sofrido, mas terminou’. Um reconhecimento. Queria dizer coisas que não se dizem a qualquer circunstancia ou momento, a qualquer preço, por qualquer motivo. Dizer coisas importantes, grandes, inusitadas e de impacto. Mas só sei o óbvio. Alguém deve saber mais que isso, mas não se manifesta. Por quê? Gostaria de saber. Queria falar do pássaro bem-te-vi que canta toda manhã na janela da minha cozinha enquanto tomo meu Nescafé amargo. Queria ter a sensibilidade de falar do cão que passa triste todo dia às cinco da tarde em frente a minha casa, falar do dia e da noite, suas nuvens e suas estrelas, seus princípios e seus fins. Queria falar do mundo, do tudo e do nada, onde eles se encontram – deve ser na curva de algum lugar impossível. Queria entender a física quântica, Freud e a poesia do Mano Lima. Meu avô disse um dia que eu poderia falar, poderia escrever e me expressar sem objetivos, mas eu não acreditei. Hoje, ainda duvido. Queria beber cerveja comendo fritura no bar da esquina e, sentindo o cheiro da chuva chegando, alertar os que estão em volta: ‘Vai chover!’ – só para me achar alguém especial (mas não há nada de especial nisso). Queria falar aos meus alunos do problema ambiental sem precisar de tanto argumento, fazendo-me compreender facilmente. Mas não, estou aqui, parecendo um doido, no encosto de uma sombra diurna, sonhando com o que ainda não fiz e talvez nunca faça.
Contudo, eu devia estar satisfeito, conformado, com tudo. Mas não, prossigo insatisfeito. Procuro e não acho e quando acho já não quero mais. Minha vida é cheia de vontades e possibilidades, de limites e paixões e muitas negações. Minha vida é uma história e pode ser um conto, novela ou romance. Uma canção. Um dia, quem sabe, um poema.


O ato de escrever...

“O escritor é o arauto emocional de seu país e de sua classe, é seu ouvido, seus olhos e seu coração; é a voz de sua época. Deve saber tanto quanto seja possível, e quanto melhor conheça o passado melhor entenderá seu próprio tempo, (...)”.

(“Como aprendi a escrever” – Maximo Gorki).


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.




terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Vida - para além de um grito de gol...














"A grande virtude do Céu e da Terra chama-se vida" (‘I Ching, o Livro das Mutações’)

O ano começa no nosso calendário gregoriano-ocidental e continua no tempo livre da vida tal como ela é, cheia de natureza, caos e algumas ordens ou organizações próprias – além da organização sociocultural humana. Pois bem. Nós com a vida continuamos, sobreviventes em meio aos trâmites do tempo. O clima anda revolto, com tempestades e outras violências aumentadas pelo aquecimento global. A correria que o ‘homem civilizado atual, profissional e bem sucedido’ condiciona para a educação, cultura e modo de vida, reflete em outra corrida, a ‘corrida para a morte’. Sua morte. Nossa morte. A própria morte do homem que corre e nunca chega - pois já está. Essa, esta, isso e não aquilo é a vida. Sem tirar nem por. Assim mesmo. Quem segue o discurso idealista-reducionista de ‘se dar bem na vida’ já está automaticamente correndo, buscando, não a vida, mas a morte, pois é ela, a morte, a única que chega – a vida sempre está. Sim, tudo bem, pode ser. Se existir um ‘depois da morte’, aí, talvez então saibamos se existe algo como ‘outra vida’. Uma ‘vida pós-morte’ muito prometida pelas religiões. Seja no alcance do paraíso ou por encarnação, não temos esta ‘projeção de vida’, pois a vida que temos é esta, aqui e agora. Mas, todos realmente vivem esta vida? Ou alguns (ou muitos) apenas sobrevivem sobre ela? Acontece que, em várias situações desta vida, pessoas ‘escolhem’ coisas para fazer e então ser-estar que reduzem a potência das suas próprias condições de viventes. Ou seja, no leque de possibilidades que a vida é ou nos oferece, muitos ‘optam’ pelo ‘comum’ ou pelo que está na moda, ou ainda, pelo que lhes parece mais conveniente e/ou fácil, movidos por certa comodidade ou preguiça mental e física. Pior é que com isso, levam consigo outros, ou pelo menos, situações ou contextos se criam integrando outros devido a essa comodidade ou preguiça. Eis que muita coisa incoerente, bizarra, mesquinha, superficial acontece e toma boa parte do espaço daquilo que poderia ser grandioso ou pelo menos instigante para a vida e a organização sociocultural humana como um todo. Falo em ‘reflexo’. Ações, assim como palavras, refletem no mundo, na vida, tornando-se partes deles. E nisso, se integram as ‘escolhas’, as poucas que realmente nos aparecem como ‘oportunidades’ ou ‘possibilidades’, pois grande parte delas são induções ou alienações. Portanto, vivamos, para além das convenções...

 “Desta bagagem de valores convencionais é que o homem deve se descartar, primeiro que tudo, antes de poder ser livre.” (Chuang Tzu)


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

'Chapecó, onde tudo acontece...'

“O pensamento ocidental está fixado no hiato entre o que é e o que deveria ser.” ('constatação' taoista)

A 'inteligência' xapecuína (no caso, do seu poder público e de parte da população: comerciantes, empresários, 'artoridades', etc.), mais uma vez vem á tona. E as culpadas são 'Elas', as árvores. E sempre Ela, a Natureza. E o homem, imbecializado com sua crença e status de cunho judaico-cristão-cartesiano-eurocentrista-eurocêntrico, mais uma vez prova sua mediocridade e estupidez. Acredita piamente (ou se convenceu, se enganando hipocritamente) que controla ou domina, ou pode controlar ou dominar a natureza, assim como reza sua crença ou seus interesses que dizem que 'a natureza foi feita por um deus - com características humano-masculinas, é claro - para servir ao homem'. 'Homem-divino' que, imbecilmente, à medida que constrói, destrói sua própria vida, em nome de um pretenso progresso admitido em um tempo linear, que também não passa de uma estúpida crença, naquilo que insiste também imbecilmente de chamar de desenvolvimento. E são Elas, as queridas, suntuosas, fundamentais Árvores as 'culpadas' - e que são vítimas desta medíocre crença e deplorável atitude 'humana-civilizada' (e besta!). Sim, tempestades e vendavais acontecem. Sim, Árvores caem. Assim como o concreto (telhas, tijolos, vidros...). Assim como os impérios, as máscaras, os homens. E, a exemplo, não foi nenhuma Árvore que caiu sobre o meu carro na mais recente tempestade que aconteceu por aqui. Foram destroços de 'construções humanas'. E aí, vão derrubar casas e prédios comerciais e habitacionais por isso? Vão derrubar suas empresas e a prefeitura? Então, porque as culpadas são as Árvores? Por que a causa de todo mal é a Natureza? Eim, seus caricatos vestidos de inteligência e racionalidade?! Algumas Árvores com mais de 20 anos, outras bem novas, que passaram e resistiram neste tempo todo por várias tempestades, e só agora, este pretexto, esta desculpa ou justificativa. O que há? Elas também estão 'atrapalhando' a exposição das mercadorias nas 'vitrinas' das lojas do centro?

Uma imagem deprimente pela televisão: um casal de idosos de uma cidade vizinha e pequena, assistindo a derrubada das Árvores no centro, enquanto abrigavam-se na mísera sombra de um poste. Eis a imagem do seu desenvolvimento, do seu progresso, da sua 'inteligência', sendo que, o clima está como está devido justamente a isso, a esta arrogância e estupidez do homem supostamente desenvolvido e dominador da natureza. Enfim... 'Não é Efapi, nem Expoeste. Mas é espetacular!'

 “Céu e terra não têm atributos e não estabelecem diferenças: tratam miríades de criaturas como cachorros de palha” (Lao-tsé, Tao Te Ching)



* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.




terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Evangelicalização da cultura e política brasileiras

Cultura e política brasileiras convertidas e doutrinadas. No Estado brasileiro dito ‘laico’, deputados-pastores, alguns deles investigados por corrupção (leia-se Eduardo Cunha, presidente do Congresso Nacional e principal nome na tentativa de processo de Impeachment da presidenta Dilma, processado por não declarar seus milhões ilícitos depositados na Suíça), promovem cultos antes das sessões da câmara. Em Chapecó, uma imagem opulenta de Jesus no pano de fundo da câmara dos vereadores onde discussões e aprovações ou não de projetos acontecem sob o olhar ‘justiçador’ do Cristo. Ídolos midiáticos como jogadores de futebol, lutadores de MMA, apresentadores de telejornais e programas de auditório, duplas de sertanejo universitário, entre outros atletas e ‘artistas’, todos convertidos, motivados e justificados nas suas carreiras ‘profissionais’ privadas pela religião. Ícones da nossa cultura midiática sempre que iniciam um jogo de futebol ou uma luta de MMA, ou quando fazem um gol ou ganham alguma luta, apontam o dedo indicador para o céu num gesto típico dos convertidos, algo muito comum de se ver atualmente por aí. O ‘drama’ (ou ‘trama’) da separação Joelma e Chimbinha (banda Calipso), caso regado de acusações, espetáculos e violências. Antes desta ‘novela’, reportagens sobre a vida idealizada, cercada de riquezas e uma forjada ‘simplicidade’ e cumplicidade amorosa entre o casal que, declaravam-se em bom e alto tom serem evangélicos. Até suas intimidades com o pastor da sua igreja e sua família protagonizaram cenas deste espetáculo regado a discursos emotivos midiáticos e fé, muita fé (ou uma encenação religiosa dela). Todos justificam seus ganhos ou sucessos pessoais atribuindo estes à deus. “Não tomarás o nome do senhor teu Deus em vão; porque o senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.” (Êxodo 20:7). É o que diz o texto bíblico. Não que eu ache que tudo o que vem da religião seja ruim, não é isso (ou pelo menos, simplesmente assim), mas a questão é que, esta ‘evangelicalização’ da cultura e política brasileiras acaba submetendo a própria cultura e política ao discurso e aos trâmites da religião, em que, seus preceitos antigos (historicamente, em grande parte, desatualizados ou arcaicos) e subjetivos, usados de forma ideológica por muitos ‘líderes religiosos’ e políticos, servem à interesses privados. Isso não é um ‘achismo’ meu, mas uma constatação (leia-se o que acontece no nosso Congresso Nacional hoje com a dita bancada cristã votando em massa conforme seus interesses religiosos particulares). Esta ‘evangelicalização’ acaba criando uma cultura atrelada à determinada ‘crença’ (discurso), onde o limite é, justamente, o que é permitido, abençoado ou não pela religião, melhor, pelos interesses dos seus líderes. E neste caso, é a religião quem se converte em política ideológica. 


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó



sábado, 2 de janeiro de 2016

Rock e saudosismo: uma reflexão de hoje sobre o ontem e para o amanhã...

Quando comecei a ouvir rock, lá no final dos anos oitenta, tinha o mesmo sonho que muitos roqueiros novos hoje também têm. E eu era uma criança. Incrível como hoje isso ainda existe! Em menor grau, mas existe. Uma febre. Vendo aqueles rock-stars, com seus glamoures, guitarras e equipamentos caros, carrões e alguns que tinham até aviões, cercados de belas mulheres, roupas e posturas extravagantes, etc. Tudo resumido no discurso midiático do velho e reducionista clichê: ‘sexo, drogas e rock’and’roll’. Era tudo. Uma ‘rebeldia’ incontida e meio sem causa – ou bastante! (hoje vejo mais como uma ‘pseudo-rebeldia’, pois é algo bem individual e privado). Cresci assistindo filmes do Elvis e comecei no rock ouvindo rock’n’roll’50, depois jovem guarda, hard rock, algo de progressivo e psicodélico. Mas o tempo passou e eu cresci, não tanto em tamanho físico-corporal, mas mentalmente. Naquela época tive sorte ou sei lá o que, pois esta ilusão de status ‘rock-star’ em mim, durou muito pouco. Devido, talvez, a minha timidez, além da educação um tanto rígida que recebi do meu pai e por minhas leituras em literatura, poesia e filosofia. Ou seja, o ‘sonho’ ou ilusão de rock-star pra mim foi um flash. Logo comecei a produzir e compor. Montei minha primeira banda no início dos anos noventa, ainda muito jovem. Comecei com bandas punk. Alguns anos depois, voltei ao ‘rock clássico’, ao garage rock e ao psicodélico. Fui para o rock progressivo com nuances psicodélicas, até assumir de vez o garage rock e o psicodélico. Aos poucos estes títulos ou estilos passaram a se fundirem e geraram o som que faço hoje com meus companheiros/as de bandas. O ‘estilo’ já não é tão mais importante, mas a música e a sinceridade em fazê-la, é. Uma necessidade existencial e artística (de expressão), onde a ideia ou desejo de ‘sucesso’ e/ou ‘fama’ típico do ‘rock-star’ não faz a diferença.

Os anos se passaram e tive boas oportunidades e bons contatos que me trouxeram muito conhecimento musical. Tive acesso e aproveitei. Tanto que tenho uma ‘coleção’ de sons considerável (em rock e muitos outros estilos musicais, além de conhecer outros tantos). Nisso, confesso que também tive minha ‘febre’ saudosista. E ainda bem que para mim foi apenas mais uma ‘febre’, mais um flash. É fato que os anos de 60 e 70 produziram muito do que é significativo, historicamente falando, em rock. Porém, isso também é relativo, pois tivemos muita coisa boa nos anos 50, 80, 90, como temos agora nos 2000. Talvez, a maioria do que ouço em rock data dos anos 60, 70 e 2000. Em menor escala dos anos 90. Por fim, 80 e 50 (não necessariamente nesta ordem). Mas, também é fato (não reconhecido ou concebido por muitos, principalmente pelos chamados ‘saudosistas’) que hoje, em 2016, encontramos bandas e discos tão bons quanto foi nos anos 60 e 70. Só não aceita isso quem é mesmo ‘saudosista’ ou não pesquisa o suficiente, ou ainda, não abre a cabeça (e os ouvidos) para o que de bom (muito bom!) está sendo composto, produzido e lançado em disco por aí. Saudosistas são viciados. Viciados no tempo que passou. Olham para trás toda vez que precisam encarar o tempo atual (presente), buscando recuperar aquilo que não volta mais – o tempo. Não que o tempo, o mundo ou a vida, sejam algo linear como quiseram algumas (e predominantes – infelizmente) teorias filosóficas modernas relacionadas ao tempo, mas, o tempo não para e não volta em existência. Ainda bem que os registros do passado existem e continuam ecoando, inspirando e servindo de referências para o novo. Mais que isso, falamos em cópia ou plágio. Algo nada autêntico ou sincero. Nisso, o tempo de atuar, compor, produzir é hoje. É agora! Mas no saudosismo idealista dos saudosistas, geralmente esta realidade não é aceita. 

Para compor e fazer ecoar algo sincero e autêntico hoje, não é nada fácil. O que mais existe por aí é reprodução e caricatura do que já foi. Ter aquilo que A. Alvarez em seu livro ‘A voz do escritor’ chama de ‘voz própria’, seja em literatura quanto em música (ou outras linguagens artísticas), não é nada fácil nem para todo mundo. Mas, também não é impossível. Para os saudosistas, desistentes da autenticidade e da busca pela ‘voz própria’, sim, ser ‘autêntico’ atualmente é impossível, já que vivem dos ‘sonhos’ (ilusões) e ‘louros’ de um passado já morto. A história continua, pois ao contrário do que pensa o ‘senso comum’, ela não é só passado. Vivemos sempre o presente, e é nele também que a história é escrita e, portanto, vivida. Ou seja, sim, a história continua, e junto dela, continuam as criações e os seres criativos que se atualizam sem precisar desprezar o passado (também tendo-o como referência), mas vivendo o hoje com toda sua intensidade e suas condições. A prova disso está na força das obras artísticas e musicais que hoje, em pleno 2016, mantém vivo um cenário artístico e musical real, ativo, vivo, presente, atual! Aos saudosistas que acreditam religiosamente numa ‘verdade’ sonhada por eles próprios e discursada pelos meios de comunicação de massa que quer manter certo status acima dos nomes mortos (mas que ecoam através de seus belíssimos e importantes trabalhos) que ainda lhes rende muita notícia (e lucros), posso dizer que a história ainda é escrita, registrada, gravada, vivida, e que, belíssimas obras estão por aí, algumas mais conhecidas que outras, porém, ambas expressivas e com intensidade, e que serão boas e contundentes referências para futuros artistas, músicos, compositores e suas bandas, seus discos, suas obras.


Enfim... Não há fim!



sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Leituras do Cotidiano

Onde chega a incoerência, a imoralidade e falta de ética na política nacional?

Oposição (PSDB, DEM, PP, assim como membros do PMDB e PSD, que em tese são aliados na base do governo) quer o impeachment da presidenta Dilma por ainda não terem aceitado a derrota nas urnas, além da elite econômica da qual são representantes que sempre foi contra os programas sociais do governo atual. Um ato típico, medíocre e covarde de 'vingança', na estratégia mesquinha do 'quando pior melhor'. Um atentado contra a democracia.

Em entrevista na TV o presidente do PSDB nem disfarçou e, descaradamente disse que 'se o presidente do congresso Eduardo Cunha levasse adiante o pedido de impeachment da presidenta, seu partido votaria contra sua cassação, no processo de acusação de dinheiro ilícito de Cunha na Suíça, caso contrário, votaria a favor'. Ou seja, uma proposta 'indecente' dita em bom e alto tom publicamente. Falta de ética e moral, falta de vergonha na cara destes 'ilustres engravatados'. Enquanto isso, parte do PMDB, também descaradamente propôs que o PT aliviasse o lado de Cunha, em troca, também aliviariam no caso do processo de impeachment de Dilma.

E como pode Cunha, sofrendo um processo de cassação ter tal 'poder'? Cadê a coerência nisso?

Urgentemente é necessária certa 'moralização' e coerência na política institucional oficial brasileira, talvez algumas boas aulas de ética. Caso contrário, continuaremos reféns desta jogatina pelo poder a qualquer custo.

A carta

A carta de Temer para Dilma (lida em alto tom e muitas aspas no jornal da Globo), entrega que o pedido de Impeachment é mesmo um golpe. Me desculpem, mas agora só não vê quem sofre de 'miopia' ou não quer ver...

Crime organizado contra a democracia

Cunha, Aécio, Temer e Paulinho da 'fraqueza sindical': união do 'crime organizado' contra o Estado Democrático de Direito. E o golpe sendo dado...

Cunha-ram o golpe...


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.





sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Leituras do Cotidiano

Professor explorado: educação mal tratada e medíocre

Enquanto governos, polícia e Estado reprimem violentamente estudantes e professores dentro das escolas (leia-se São Paulo) e nas ruas (leia-se Paraná), não valorizando devidamente o trabalho dos professores, parte significativa do setor privado (escolas particulares) representadas pelo SINEPE (seu sindicato em SC) exploram o trabalho do professor. Como?

Passar horas corrigindo e elaborando avaliações, recuperações, exames, etc., em casa, madrugada à dentro ou em finais de semana, e o SINEPE, nas negociações entre sindicatos, faz pouco caso, ignorando esta exploração, não querendo nem ouvir falar em 'hora-atividade' (tempo pago ao professor para bem avaliar e produzir materiais que servirão ao aluno e à escola).

Este é modo com que se faz uma educação de qualidade? Educação que vá além do mercado e das burocracias, além da disputa besta que ainda são os vestibulares, concursos e afins? Essa é a educação que querem os pais, as escolas, os professores, os alunos? Alguém já perguntou a estes últimos se é isso mesmo e desta forma que deve ser?

Por isso e por outras é que o país, a educação e a cultura (de uma forma geral) estão como estão, são o que são. O que mais existem são pretextos, justificativas, desculpas. Agora ‘a culpa é da crise'. E antes, era de quem?

De uma forma geral, o número de estudantes matriculados na rede particular de ensino aumentou, assim como aumentaram o número de escolas, cursos e faculdades neste terreno, e - assim como aumentam as mensalidades pagas pelos alunos/pais. Mas, e o salário do professor? A hora-atividade? A dignidade dos principais agentes da educação (os professores) porque não acompanham estes 'aumentos'? Eim SINEPE?!

O que ainda salva um tanto da educação, da dignidade que ainda resta nela, são justamente, alguns mestres ou professores (trabalhadores da educação), além de alguns projetos, os que não são valorizados e, portanto, dignificados na sua missão (que vai muito além da profissão). Enfim.

Enquanto assim for ou continuar, teremos isso, o que todos estão vendo e muitos fingem não ver e desconversam: Uma educação (que compõem a cultura) capenga, mesquinha e/ou medíocre de uma maneira geral, e uma cultura e realidade violentas, corruptas, estúpidas ou débeis, nas suas formas de pensar, agir ou ser...


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Leituras do Cotidiano

Dos discursos e contradições

A 'esquerda' latino-americana perde um importante espaço político com a derrota de uma aliada ‘centro-esquerda’ na presidência da república. Enquanto isso, na espetaculosa medíocre mídia brasileira, comemoração em tom cínico. O novo presidente argentino em discurso eleitoral disse que vai governar 'sem ideologia', mas na sua primeira fala pós-eleição também disse que vai pedir a retirada da Venezuela do MERCOSUL. Grande ‘coerência’, não?! O sonho da esquerda em unificar a América Latina como soberana frente aos interesses imperialistas capitaneados pelos EUA, vai desfalecendo, enquanto o ‘velho’ neoliberalismo que assombrou os anos’90 vai sorrindo novamente.

Um erro da teoria economicista?

A melhoria da condição econômica da população brasileira e, consequentemente, o aumento do consumo, não acompanhados na mesma proporção de um aprofundamento cultural e educacional, gerou um aumento significativo da intolerância, da violência (física e simbólica), assim como da manifestação da ignorância em muitos níveis sociais e políticos. Isso comprova que, não é só a ‘economia’ quem determina o meio e a cultura, como proferem alguns interpretes do marxismo e seu aspecto ‘economicista’. Erro teórico? (se é que isso existe, pois toda teoria quando apontada para o futuro como um caminho de tempo linear-progressista que promove uma crença idealista de progresso, é apenas uma perspectiva, uma projeção, uma crença, e não uma verdade ou realidade), ou erro de interpretação? Em todo caso, além de teorias, leituras e interpretações, é necessário perceber as transformações históricas e suas contradições, para além da crença e da perspectiva ou intenção. Toda teoria não deve ser concebida como um receituário, bula ou religião, mas apenas como possibilidade. Os avanços sociais que o Brasil teve nestes últimos anos com os governos Lula e Dilma vão balançando com isso – por isso.

Novo romance místico?

Eduardo Cunha alivia sua investida no processo de impeachment da presidenta Dilma. Em troca, do outro lado, parte significativa do PT alivia o processo de cassação de Cunha. É o jogo amigos! Um jogo, sob tudo, obediente a uma estrutura de poder que, historicamente, tem como forma as negociações, as trocas de interesses e de benefícios. Tudo em pró de um poder que quase não se sustenta, onde a realidade se torna uma ironia do destino, jogada, como dizem, a toda sorte, como bem fabulam certos discursos místicos. Enquanto isso, a realidade nua e crua de alguns muitos brasileiros continua sendo um carma.


‘O bolsonarismo é o despertar do neonazismo a brasileira’.


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Leituras do Cotidiano

Da lama ao pó

"Céu e terra não têm atributos e não estabelecem diferenças: tratam as miríades de criaturas como cachorros de palha." (Lao-Tsé)

Anos e anos de exploração. Exploração do trabalho, humana e da natureza. A velha crença monoteísta judaico-cristã e liberal-capitalista que diz que ‘deus fez a natureza para ela servir ao homem’, e que ‘a natureza é uma fonte de recursos inesgotáveis’. Para o taoismo, homem e bicho ou qualquer outra forma de vida, tem o mesmo valor (nações indígenas brasileiras também tem esta relação com a natureza). Todos são parte de um só. ‘Mas aqui não é a China, Herman!’ – alguém me diz. ‘Sim, eu sei. Mas aqui também não é a França’. Nisso, também temos nossas próprias tragédias e sofremos com terrorismos variados. Um deles encobriu parte das Minhas Gerais a poucos dias, matando bichos, gente, plantas e o rio. Não, não foi um ‘acidente’ como noticiaram alguns meios de comunicação. Foi um ato terrorista. Ato que não foi feito pelo tal Estado islâmico, mas sim pelo Estado brasileiro e seu desleixo, aliado ao setor privado da economia. Ato acumulativo. Ato terrorista-histórico. Sugaram o que puderam dos minérios da região. Extraíram riquezas do solo com a mão de obra pobre, barata, explorada até o talo. Europeus enriqueceram com esta colonização de exploração, com nossos ouros, diamantes e exploração do trabalho. ‘Levaram o outro e deixaram a lama’, disse um morador de Mariana. A Vale do Rio Doce (agora só ‘Vale’) matando a vida no Vale do Rio Doce. Que ironia! Da lama política institucional oficial ao pó do bom senso, da razão e da sensibilidade – tudo sujo, contaminado, poluído e soprado a toda sorte. Um pó que, quando soprado, forma uma nuvem que atrapalha a visão... Para continuar com nossa miopia sociocultural.

"Que o homem é a mais nobre das criaturas pode ser inferido do fato de que nenhuma outra jamais contestou essa pretensão." (G. C. Lichtenberg)


Entre o sangue e o sagrado

A França sangra. A Síria e o Iraque sangram. Meu olho e nariz sangram. Parte dos meus pensamentos são feitos a sangue e suor. A Igualdade, Liberdade e Fraternidade ocidentais são uma ficção. De um lado bombardeios aéreos, de outro, homens bomba. Dos dois lados vítimas inocentes desta ‘barbárie’ contemporânea. Primeiro a cristianização do mundo, agora, sua islamização. Ambas crenças e práticas monoteístas, cada uma a seu modo, pregam uma única e absoluta verdade, irredutíveis. Ditadura da palavra sobre o corpo, da crença sobre a realidade. Mas no fim, é a realidade quem dita. Vida no além, uma crença, uma perspectiva ou hipótese. Morte no aqui-agora, uma realidade. A realidade é nua e crua e não pergunta se se acredita ou não nela. Só acontece. A resposta nada inteligente e moral do ocidente ao terrorismo: bombardeios e mais mortes. A vida humana nestas condições já não é tão importante assim, como se pensa a partir dos livros sagrados das religiões em questão. De sagrados para sangrados, livros e territórios. Mas ainda há o petróleo, a conveniência e uma pseudo-razão. Todos se acham bons e os preferidos de deus. Mas nenhum é. Nem um. Ninguém.



* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.



quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Leituras do Cotidiano

Saúdo o mundo ao meu redor. As pessoas passam sem me notar. Não enxergam ou fingem não ver. Parece que não há mais poesia pelas ruas. Carros e seus motoristas afobados entopem o trânsito e atropelam cães, gatos, velhos e crianças. E eu observo tudo bem de perto. Tento dizer algo, mas minha voz não chega aos ouvidos ocupados desses cidadãos trabalhadores e ordeiros. Correm. Como eles correm! Deixam seus filhos na escola para algum professor cuidar e no final do mês receber uma miséria por isso. Em casa, empurram seus filhos para o vídeo game ou internet. Uma mão na direção outra no celular. Assim conduzem seus veículos pelas ruas destruídas desta cidade com pouca memória. Construções históricas dão lugar a prédios retos e brancos, quando não, para estacionamentos. Carros e mais carros. E a vida passa sem sinalização que a faça ir mais devagar. Já está na hora de ir. Recolho meus apetrechos. Cobertor e chapéu velhos, minha garrafa de canha, meu rádio de pilha. O dia foi longo e cansativo. Algumas moedas vão garantir meu jantar e o trago. Amanhã procuro outro ponto da cidade para ganhar a vida e observar a corrida deste mundo louco. Minha cidade já foi mais bonita e tranquila. As coisas mudaram. Algumas não. A vida continua sendo um apanhado de contradições humanas...


"Chapecó, aqui tudo acontece (?)"

Desvio de merenda escolar por deputado e secretária da educação, vereador morto misteriosamente (leia-se caso Chiarello), caso de privilegio fraudulento na contratação de serviço entre poder público e empresa promovedora de eventos (leia-se caso Efapi), assim como no transporte público, entre outros. É, aqui tudo acontece mesmo.


‘Caminhoneiros' ou 'empresas de transporte'?

Li uma matéria na internet que dizia que 'caminhoneiros autônomos' iriam iniciar greve. Mas na televisão vi/ouvi um grande empresário dos transportes falando. Será mais uma dessas 'greves' motivadas pelo patrão? Como a 'greve' anterior que conseguiu liberar ainda mais o aumento de peso de cargas (interesse das empresas de transporte). Uma 'greve' quem tem como uma das pautas a renúncia da presidenta. Os trabalhadores tem seus motivos e direitos de greve, de fato. Porém, algumas questões envolvidas acabam distorcendo alguns propósitos dignos deste ato. Nesta moita tem lobo e neste pasto tem ovelha...


* também publicado no jornal Gazeta de Chapecó.