quarta-feira, 21 de agosto de 2019

O espírito cinza de um país que queima transtornado


A comemoração do governador do RJ, Wilson Witzel pela morte de um jovem negro, pobre e que cuidada da propriedade dos outros (era vigilante), no episódio do sequestro do ônibus sobre a ponte Rio-Niterói - comemoração esta também do atirador, jornalistas e outras pessoas que no local estavam (em casa também tiveram os que vibraram) - retrata a face de um país dissimulado, decadente e transtornado em seus valores morais. 

O mesmo governador, é aquele que, junto com a polícia, num helicóptero, participava de uma operação onde atiravam de fuzil contra a população negra e pobre de uma favela. O mesmo que sobre a morte de adolescentes negros e pobres dias atrás, disse que 'alguns vão morrer', acompanhando o discurso do presidente Jair Bolsonaro. O mesmo que, no ato da quebra da placa que homenageava Marielle Franco (mulher, negra e ativista dos Direitos Humanos), comemorou. Atitudes típicas do fascista, e que está no poder (como outros que neste momento atuam no país), sob os olhos e participação da 'justiça' brazileira e de muitos brazileiros que se esbaldam com a tragédia alheia.

Sim, o sequestrador colocou em risco outras vidas, e por isso teve sua vida encerrada. Até aí, o fato se explica e a ação da polícia se justifica. Agora, comemorar a morte é algo estupidamente depravado.
Vivemos um tempo de 'espetáculo' midiático, onde tudo se filma e se publica, seja pela rede social ou pela TV. Onde juiz, polícia, governador, presidente, etc., agem como 'pop-stars'.  Onde tudo se torna show, discurso, publicidade, espetáculo (leia-se ‘Sociedade do Espetáculo’ de Debord). Onde a moral, a discrição, o equilíbrio e o bom senso, dão lugar ao bizarro e ao discurso moralista da palavra e da imagem.

O sequestro em seu desfecho não foi trágico (não pelo menos para os sequestrados). Graças a ação acertada da polícia? Sim. Mas também ao caos. Ou seja, a circunstância. O sequestrador foi atestado com problemas psicológicos. Não feriu ninguém. Estava transtornado. Participou do 'espetáculo'. O trágico foi a atitude do governador, de alguns policiais, jornalistas, mídia e populares, que engrossaram o discurso de ódio ao 'preto-pobre-transtornado' ao comemorarem sua morte. Há quem diga que comemoraram o desfecho. Mas, o desfecho também foi a morte.

Num contexto maior, o jovem, também foi uma vítima (por estar nesta condição de transtorno mental e social), que fez outras vítimas, ambos frutos de uma sociedade transtornada - e espetacular, governada por demagogos e moralistas. Como num filme comercial e publicitário de Hollywood, Witzel, o governador, desce de um helicóptero, vibra como que comemorando um gol numa partida de futebol, e profere para a mídia televisiva um discurso típico do moralismo do cinema ideológico hollywoodiano.

Nossa realidade, nossa cultura, sofre de transtorno (numa concepção taoista, o ‘espírito deste tempo’), onde o ódio e o fetiche pela morte (do pobre-preto-transtornado) são o prazer dos dementes. É o fascismo demente brazileiro no seu ápice. Comemora-se, ri-se do paliativo enquanto o problema real continua. É acima do problema que eles, os bizarros e dementes que governam, fazem seus showzinhos e mantém-se em evidência. É o governo do bizarro. E as bizarrices continuam. Enquanto o país queima em cinzas e transtornos...




sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Indústria do espírito, controle da mente e do corpo...

O capitalista transforma tudo (ou quase tudo) em negócio. Isso é fácil para ele, devido a certa 'cultura das aparências' (leia-se 'sociedade do espetáculo' de Debord) que ignora as essências (o que é interno aos conteúdos). Discursos, retóricas, motivações de ordem ideológicas e publicitárias são mecanismos destes convencimentos, que fazem pessoas acreditarem e seguirem uma ideia fixa, determinista e reducionista e que, por sua vez, reproduzem estas condições, enchendo o mundo delas. Um exemplo disso é o McMindfullness.
"Filosofias e espiritualidades como o Taoismo e o Budismo, por exemplo, originalmente visam a libertação do ser humano. Mas o mercado (e a ideologia política e publicitária) pega isso, separa só o que interessa, coloca numa garrafinha com um rótulo bonitinho e vende como um produto capaz de aumentar sua atenção e te tornar um empregado melhor, mais obediente, menos questionador, mais produtivo e que reivindique menos melhores condições de trabalho ou salário. A exemplo do McMindfulness, que visa somente o lucro das empresas. Ele não tem a função social das filosofias ou tradições antigas citadas acima. Pelo contrário, ele pretende moldar mais escravos alienados e obedientes." (Flávio Ribeiro Tubino - intervenções minhas)
Essas novas tendências, estes 'modismos', pipocam por aí o tempo todo, onde muitos deles se utilizam da filosofia e da espiritualidade como elemento de convencimento e controle, induzindo os menos acordados a consumirem e reproduzirem deliberadamente - quando não, utilizam para condicionar pessoas num exército ideológico e dogmático, como é o caso do 'cristianismo' pentecostal no Brasil atual. 
Aos colegas praticantes, professores, trabalhadores/as das filosofias que relacionam-se com psicologia, energia e/ou espiritualidade (não necessariamente religião), e aos atuais 'coachs', uma indagação: 'Estamos ajudando as pessoas a se tornarem realmente melhores, ou apenas as ludibriando?'


Um adeus à Francisco Gomes


Acordo cedo e cevo um mate em homenagem à Francisco Gomes, meu avô.
Seu Chico ou vô Chico, como também era chamado pelos seus, foi um grande homem, da raça dos campesinos colorados,
destes que o tempo esculpiu, com foice e enxada, na dura peleja da vida e lida da terra,
que foi seu sustento e da nossa família.
Noventa e dois invernos de história, destas que não figuram nos documentos oficiais, por não caberem neles.
Meu avô era Caboclo, destes que já não se nascem mais.
Grande mestre de conhecimentos passados que pouco vigoram nos programas de televisão, revistas, jornais
ou falatórios por aí,
mas que sustentam parte deste mundo feito a ferro e fogo...
e também alguns amores.
Seu Chico cresceu trajando bombacha, de facão na mão, cortador de erva-mate no interior do Rio Grande.
Foi com o vô Chico que aprendi algumas das maiores lições da minha vida: O amor e respeito pela terra e o pouco que sei da lida com ela, o amor pela literatura, pelas ‘estórias’, que aprendi ouvindo seus causos que me faziam sonhar, nas nossas prosas noturnas iluminadas pelo candeeiro,
nós e as mariposas que voejavam em roda.
Ah, foram dos melhores dias da minha vida àqueles, junto do meu avô!
E que bela infância eu tive por isso!
Nossas carteadas embaladas de risos e cachaça na ameixa,
antes dos mais deliciosos almoços do mundo, preparados pela minha avó no fogão a lenha.
Nenhuma rua ou prédio público levará seu nome. Nenhuma estátua será erguida em sua memória, pois isso tudo é muito pouco e não representa a importância de um homem e seu tempo, como meu avô.
Francisco Gomes, o vô Chico, um Caboclo, pediu para ser velado e sepultado vestido de bombacha e lenço vermelho.
A capelinha de madeira com a Santa Maria, antiga, ao lado.
Hoje o vô Chico descansa e seu riso me é eterno.
Enquanto escrevo estas linhas insuficientes para falar da sua grandeza, vou proseando e mateando com meu avô, com seu nobre espírito, sua energia presente, orgulhoso e honrado por ser herdeiro seu, da maior fortuna que pode existir: o amor pelas coisas simples e fundamentais da vida.
E ouço, serena, sua voz me dizendo: ‘Bombeie lá...’


Adeus Francisco Gomes, obrigado por tudo! E até mais ver...

* Bom descanso e boa transformação meu avô! Te amo!

08/08/2019.

 

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Um poema para ti, meu grande amigo

Partiste em silêncio, amigo meu
Deixaste um enorme vazio no pátio,
na casa, no peito
Mas também deixaste alegres lembranças
Seus pelos ainda estão por aqui
Vez em quando os vejo em alguma roupa ou cobertor,
em alguma parede, no chão
alguns até flutuando no ar
Ainda sinto seu cheiro
Seu latido grave ainda é música nos meus ouvidos, querido amigo
Os insetos que eram sua maior sisma, finalmente te deixaram em paz
não mais atordoarão seus ouvidos com seus voos ou zumbidos
Eu tenho orgulho de você, grande amigo!
Saudade das nossas caminhadas, da sua euforia na saída
e calmaria na chegada
Da satisfação na sua expressão quando eu escovava seus pelos
Seu choro fino se confundindo com o canto dos grilos
nas noites de lua
Sua pelagem esverdeada, sua calda grande, como você,
que me batia e acariciava, na demonstração da mais pura alegria
Seu amor inquestionável na troca de olhar
Você é parte da minha vida, da minha história
Memória de latidos, de abraços e lambidas diárias
De muita saudade que agora fica
junto a sua imagem
eternizada na parede da memória
num tempo em que fomos os melhores amigos
íntimos nas diferenças
Meu irmão-natureza, mais selvagem e espontâneo do que eu
Agora dorme seu sono canino, querido amigo,
e finalmente corra num campo vasto e sem impedimentos
No tempo em que tivemos juntos, foi bom estar contigo
Sua energia continua aqui
neste mundo e neste amigo que, nem sempre lhe compreendeu
mas te amou, profundamente
Obrigado meu grande amigo!
Hoje o céu tem um brilho novo
Dorme e descansa
E venha me visitar em sonhos
Rabisco este poema que não tem ponto final
Assim como nossa amizade, assim como nosso amor
E eu, por enquanto, continuo aqui
alimentado pelas felizes lembranças de ter vivido este tempo contigo
Esperando um dia lhe reencontrar
Para, novamente,
sermos grandes amigos...

* Obrigado Pancho, meu/nosso amigão! E boa transformação... 🙏🐹🌳☯️
- em memória do Pancho - 24/07/2019.

Herman Silvani e Liza Bueno.




quinta-feira, 30 de maio de 2019

O país do faz-de-conta


brazil 2019, um faz-de-conta que é nação. 

Um país em que o presidente da república faz-de-conta que é presidente, faz-de-conta que governa, faz-de-conta que é competente, inteligente e informado,  faz-de-conta que é engraçado. Mas, como diria alguém que li ou ouvi por aí: ‘O presidente governa o país como se estivesse num churrasco com os amigos’. Um país onde o guru do presidente e de seu governo, faz-de-conta que é filósofo ou intelectual, entendido das questões mais profundas do país que mal conhece - e nem habita. Um país em que, o ministro da educação não é educador nem professor, não entende de educação, detrata Paulo Freire e confunde Franz Kafka – sim, tudo isso, mas faz-de-conta que não. A ministra dos Direitos Humanos é preconceituosa e não é humanizada, distorce a realidade conforme seu fanatismo religioso e devaneio pessoal, mas, como os outros, faz-de-conta.  O ministro das Relações Exteriores, num faz-de-conta sem precedentes, justifica que o aumento da temperatura global se deu porque ‘agora os termostatos que medem a temperatura estão mais perto do asfalto’. Onde alguns grandes empresários e fazendeiros financiadores deste estado de coisas bizarras, fazem-de-conta que são cidadãos de boa índole, que dignificam o país pagando seus impostos, pensando no bem nele, que respeitam o trabalhador e são os maiores produtores da nossa riqueza. Um país dominado hoje, por terraplanistas, onde o presidente foi eleito pelas fake news e whatsapp, onde parte da população que o elegeu, na rede social ou na rua, faz-de-conta que é contra a corrupção, e que este é maior problema da nação (junto a previdência - isso não sei se é faz-de-conta ou ignorância), que são pessoas íntegras e que suas opções eleitorais são de boa fé, de bom senso e por motivos morais – etc, etc, etc... Enfim, neste faz-de-conta, eu que ainda me equilibro sobre a realidade, faço a conta, e o resultado é a ‘pós-verdade’ - é só olhar para os lados. E eis-nos aqui!



domingo, 19 de maio de 2019

Mentalidades, práticas, contradições, classe social e o motor da história


Olhando para a história (como vivente e professor de humanas e sociais), me parece que, em grossas linhas, a sociedade e/ou cultura humana sempre se dividiu em dois modos de atuar na vida, que também se tornaram concepções.  Enquanto alguns criam, trabalharam, desenvolvem, caminham para simplesmente viver, de forma equilibrada e/ou livre, tendo em vista a natureza e o outro, outros fazem praticamente o oposto. Vivem para controlar, dominar, escravizar (e tem também os que somam nisso, reproduzindo estes valores). A partir de conversas com conhecidos e dos vários exemplos de mazelas que acontecem pelo mundo, tendo em vista o tempo atual, que é do predomínio da informação e das tecnologias, muitos seguem reproduzindo uma mentalidade escravocrata, discriminatória, segregadora, seja consciente ou inconscientemente. Já ouviram, dialogaram, discutiram, leram, assistiram e até viveram fatos que teriam de tudo para mudarem suas concepções e atitudes perante o mundo, a sociedade, a natureza, o outro, a vida. Porém, isso não aconteceu. Seguem na mesma, o que me leva a crer que, a tão sonhada consciência de classe pensada por Karl Marx, como algo a ser alcançado, nunca vai acontecer, pois por falta de exemplos, fatos, diálogos, avisos, críticas, discussões, conteúdos, que estas pessoas não mudam seu olhar, suas concepções, visões e passos, não é. Então, infelizmente, a realidade nua e crua, penso que seja esta. Ou seja, este dualismo entre pensamentos e atitudes, continuará. A partir disso, penso que a contradição é o motor da história, e não a luta de classes como preconizou também Marx. Meus amigos marxistas me desculpem, mas, até então, ao longo da história, isso foi o que vigorou. Quem realmente vê ou pensa classe? Quem realmente busca esta consciência, este estado de ser-estar? Nem muitos ditos marxistas ou da esquerda fazem isso, quem dirá quem não é. O fato é que existe uma estagnação na percepção, no olhar, na sensibilidade de muitas pessoas que, envelhecem sem ter acesso ou possibilidade de acessar certos conhecimentos, certas práticas que as façam avançar no pensamento, na visão ou olhar, e assim, refinar suas ações existenciais e culturais. E é isso que concreta parte da construção social que, por sua vez, poderia ser móvel.


E a esquerda brasileira, onde está nisso tudo?

O que a esquerda não fez o suficiente durante seus anos de governo foi investir mais em arte/cultura e educação, no sentido de ampliar espaços livres para isso. Muitas pessoas com capacidade, com conteúdo, habilidades, conhecimentos artísticos, conceituais, filosóficos, estiveram (e estão) país adentro atuando, muitas vezes de forma independente (muitas sofrem para terem uma vida minimamente digna). Pessoas que a esquerda em vários aspectos negligenciou (viciada que é nossa política no jogo do poder e da narrativa). Ao invés de chamar este povo, com projetos sólidos e investimentos coerentes e dignos, preferiu ou teve que abraçar seus afins partidários, além dos que devia favores políticos, mesmo estes não tendo condições para modificar a realidade a partir de seus conhecimentos e práticas socioculturais. Assim, um grande número de agentes culturais e sociais, com grande capacidade e conhecimento, manteve-se (e mantém-se) produzindo para sobreviver, fazendo o que sempre fez, ou seja, movimentar a sociedade a partir dos próprios esforços. Enquanto isso, o governo da esquerda alimentava o status em torno do carro a motor individual, facilitou para os bancos, deixou a grande mídia privada deitar e rolar. Viagens de avião e consumos no shopping não trazem consciência de classe nem valores sociais ligados a igualdade e diversidade sociocultural. Houveram sim, nestes anos, avanços nas áreas social, cultural e econômica, sob o governo da esquerda, mais do que todos os outros governos anteriores (e posteriores, até então), mas, infelizmente, não o suficiente, sob tudo no âmbito cultural e educacional. Não, pelo menos, para acompanhar o avanço econômico e de consumo. E aí é que foi o grande problema. Pior é que alguns cabeças pensantes desta esquerda, continuam a não olhar para isso. Por isso também do limite de ação e transformação social da própria esquerda e seus projetos de governo.

Em suma, se um dia tivermos a tal consciência de classe, esta consciência, sob tudo, passa pela educação e cultura. O fator econômico não cria consciência de classe (como, equivocadamente alguns muitos marxistas interpretaram – ou é a teoria que diz isso?), nem de si mesmo e sua relação com o outro e o mundo. É a sensibilidade das artes, a educação de cunho filosófica ou reflexiva e certas práticas de vida ligadas a natureza que criam isso. Simplicidade, naturalidade e equilíbrio são os fatores que devem ser priorizados, não a oportunidade ou incentivo para se atingir status social e econômico. São duas formas claras de se viver e constituir um mundo, uma sociedade, uma cultura: a da simplicidade e equilíbrio (que prioriza a diversidade) ou a da desigualdade e dos excessos (que prioriza o domínio de um sobre o outro). A primeira, na sua efetividade, essa sim, é uma sociedade sem classes. A segunda, bem, a segunda é isso aí que todos estamos vendo/vivendo...





quinta-feira, 14 de março de 2019

A "sociedade dos excessos" e nossos massacres cotidianos...

"Vivemos um tipo de exaustão humana, (...) somada à exaustão ambiental vivemos a exaustão do modelo racional de humano que criamos ao longo de nossa história. (...) abismo civilizatório." (Viviane Mosé, em Nietzsche hoje)

Alguns pensadores nomearam a sociedade platônica judaico-cristã patriarcal branca contemporânea. Nisso, vivemos a 'sociedade do espetáculo' (leia-se Debord) e do 'hiperespetáculo' (leia-se Juremir Machado), onde quase tudo é influenciado pelo espetáculo midiático-publicitário-ideológico (TV, rede social com seus likes, mercado, discursos de sucesso pessoal, etc.) e se torna um 'valor'. E assim também é com a violência.

Também vivemos a 'sociedade do cansaço' e do 'desempenho' (leia-se Byung-Chul Han), ou como diria Viviane Mosé, a partir de Nietzsche, a 'sociedade da exaustão', onde 'a vida perdeu o valor', e onde tudo tem que ser 'produtivo' (principalmente no sentido mercadológico), e o tempo deve ser preenchido com 'qualquer coisa' (as crianças e adolescentes são as grandes vítimas disso), o que alterou a velocidade dos acontecimentos, que já não acompanhamos (incoerência, incompatibilidade, desequilíbrio), e a tecnologia, o progresso ou desenvolvimento técnico, que viriam para 'facilitar' e 'melhorar' a condição humana, acabaram a mecanizando ainda mais, tornando o ser humano mais frio, imediato, conturbado, confuso, doente e menos reflexivo, sensível e empático. Doenças de 'ordem mental/emocional' (ansiedade, angústia, estresse, depressão, ou seja, transtornos mentais) são hoje as doenças mais comuns nesta sociedade. Quase todo mundo está doente. Esta sociedade, esta cultura estão doentes.

A partir de certa concepção taoista, chamo esta sociedade de 'sociedade dos excessos', onde grande parte do que criamos nos tornou seres desequilibrados, insensíveis, mecânicos, egoístas, tristes (mesmo sendo alegres no espetáculo das aparências publicadas nas redes sociais), e transtornados, devido aos excessos de ter/possuir e de informações (muitas desconexas e inúteis), e a velocidade dos chamados 'dias úteis' que nos massacra cotidianamente. Assim, nos tornamos loucos e impulsivos, doentes mentais, onde muito do que vivemos é artificial, superficial, ou seja, anti-natural. Assim, a vida se tornou insignificante para muitos, que já nem vivem ela em sua intensidade ou profundidade. Copiam-se os exemplos errados. O massacre de crianças e adolescentes na escola pública em Suzano/SP por um adolescente e um adulto (jovem), é um exemplo deste tempo de excessos e falta de sentido. 

Em suma, são os excessos e a artificialidade que nos adoece, que nos mata e nos faz matar os outros, seja direta ou indiretamente. Nisso, é preciso voltar-se ao simples, ao tempo natural das coisas, se reaproximar da natureza, do que é natural em nosso entorno, e retomar a necessidade, e não nos cercarmos do que é excessivo. Seguir o fluxo, buscar equilíbrio, com menos metas, menos correria e mais ar, mais relaxamento, mais simplicidade, mais VIDA...

"O projeto moderno de consertar o mundo, de humanizá-lo, nos deixou como legado uma verdadeira revolução tecnológica, mas deixou também o meio ambiente e o ser humano em exaustão. O modelo racional de humano, do qual tanto já nos orgulhamos, nos levou também a situações de extrema brutalidade tanto individuais quanto coletivas, além de estar levando os recursos naturais do planeta à exaustão." 
(Viviane Mosé - Nietzsche hoje)



Herman Silvani (professor de humanas e sociais - filosofia, história, sociologia - e linguagens, de Chi Kung e Wing Tjun Kung Fu)


quinta-feira, 31 de maio de 2018

O vício e o poder das cúpulas que governam


Baixada um tanto da poeira, é hora de olhar para o ‘fenômeno’ com mais calma, o que gera maior consciência e amplia o olhar sobre. Me refiro a paralisação dos caminhoneiros dos últimos dias, que contou com a participação de ‘intervencionistas’ e donos de empresas de transportes (entre outros grandes empresários). Movimentos sociais, na maioria dos casos, foram impedidos e/ou não quiseram participar, por dois motivos. O primeiro, foi por causa da tendência ‘apartidária’ do movimento de paralisação que, discursando isso, quase não se esforçou para afastar os partidários da ‘ditadura militar’ e da elite (grande empresários). Ou seja, a ‘direita’ nacional fomentou e alimentou discursos dentro deste contexto. Oportunismo não faltou, até perderem o controle da situação, em em muitos casos, voltarem-se contra a paralisação. Mas, a sobra seguiu atuando, e com violência. Me refiro aos ‘intervencionistas’. O segundo motivo da não participação dos movimentos sociais, foi por causa dos próprios movimentos que, na maioria dos casos, comandados por ‘cúpulas partidárias’, não se coçaram para ir até os paralisados dialogar, a modo de tentar dar um rumo mais social, nacional trabalhista e fomentarem a ‘consciência de classe’ (leia-se Marx) para o movimento. Falo isso por conhecimento e experiência própria.

A maioria das instituições (assim como muitos movimentos sociais) são comandados por cúpulas, e na maioria dos casos, partidárias. Nada contra partidos políticos ou organização, mas sim, contra a ‘cultura de cúpula’ (ou elite). Nossa história enquanto democracia e movimento social, quase sempre teve este aspecto, o de concentração de poder em alguns nomes e siglas, onde que, quem não pertence a este grupo seleto ou não se submete as filiações partidárias, acaba, muitas vezes, ficando como ‘instrumento’ dessas cúpulas ou elites de esquerda. “Ah, olha só, o Herman endireitou!”. Não, não é nada disso. Apenas me permito fazer a análise ou crítica, a partir de, como já falei, certo conhecimento de causa. Quanto a direita, acho que nem é preciso eu dizer que, são os reis em concentrar poder e agir como casta. Mas a esquerda institucional, poderia mudar neste sentido. Ou seja, sair um pouco da redoma dos interesses partidários e ser mais democrática ou libertária. Mas, como já foi dito aqui, nossa cultura política foi constituída com este aspecto que é histórico. E isso acaba atrapalhando a própria esquerda em se mover com mais inteligência e rumo à uma real e potente transformação social, cultural e política. Mas, chego a pensar que as cúpulas não querem – ou é a própria esquerda e suas entidades que não conseguem? Por quais motivos? Lhes faltam novas perspectivas? Outras referências? Sim, penso que seja isso (além do vício no ‘modo de vida burguês’).

O ‘velho modo’ já não cabe mais. Grande parte dos movimentos sociais e instituições da esquerda, se afastaram, em algum sentido, da sua base, por não mais estarem no mesmo plano, na mesma realidade, na mesma condição ou status. A baixa adesão de trabalhadores em Greves organizadas ou chamadas pela esquerda, é uma prova disso. Muitos trabalhadores não se sentem representados. Por isso, é preciso reler, repensar, e partir para práticas diferentes de atuação e de viver o cotidiano. Não há mais fundamento em ser apenas teórico (aliás, nunca teve) e agir só dentro das instituições do Estado. É preciso desconstruir as cúpulas, as elites, as castas, esta hierarquia ideológica que sobrepõe a necessidade e a coerência das ações.

Enfim. A esquerda, o trabalhador, perdeu mais essa. Ou alguém acha que a direita, a elite econômica foi quem perdeu? Deixamos, mais uma vez de fazer nosso dever de casa, e agora vamos amargar mais alguns retrocessos.

Parabéns para nós brasileiros! Parabéns para vocês que, lá do alto, não enxergam o que está embaixo, por estarem, justamente, além do que muitas vezes discursam. Como ‘homem de fronteira’ (e taoista), vivo no meio (buscando certo equilíbrio e naturalidade), e assim consigo enxergar ambos – ‘equilibrista a prova de territorialidades’. Venham visitar nossa aldeia de vez enquanto, assim, talvez, possam realmente enxergar, e quem sabe, mudar seus olhares, suas posturas e atitudes, voltando-se para ‘o simples’, e assim, mudar a realidade para uma onde as cúpulas, elites, castas, onde a concentração de poder (seu status e vícios) não tenha nem mais sombra.




quinta-feira, 24 de maio de 2018

Combustível do Golpe


A paralisação passada dos caminhoneiros (ou dos empresários, donos das transportadoras?) foi um combustível do golpe. Nela, além da redução do preço do diesel e aumento no valor do frete, os trabalhadores pediam (muitas vezes em tom estúpido ou violento) a saída da ex-presidenta Dilma e do PT do governo, seguindo o discurso do seus patrões. Nisso, conseguiram duas vitórias significativas (não para os trabalhadores, mas para os patrões): uma, o impeachment de Dilma, outra, a liberação do peso da carga transportada nas rodovias. A primeira, todos já devem saber no  que resultou (não e?). A segunda, o aumento do perigo nas estradas (rodovias mais esburacadas pelo excesso de peso e menos controle na direção dos caminhões, trânsito mais pesado e menos fluente) e por isso, mais gastos públicos (do Estado) em pró do maior lucro particular (do empresário) pelo excesso de peso dos caminhões. Conste que na época, o combustível estava menos de R$ 3,00 o litro.  

Chegamos na ‘segunda paralisação’, desta vez, já sem Dilma e o PT (o que alguns caminhoneiros, acompanhando o coro ignóbil da massa reprodutora das ideologias e interesses da ‘classe dominante’, chamavam de ‘comunistas’). Nesta, novamente, tocados por um aspecto ‘individual’ da categoria, ou seja, os preços do combustível e do frete, agora com um agravante: o combustível está beirando os R$ 5,00. Mas as manifestações não são iguais. E eis a questão! Na paralisação atual, ainda não vi faixas e pedidos de ‘Fora Temer, PSDB, Golpistas, MDB’, etc. Menos ainda, vejo a tal ‘consciência de classe’. Vejo uma manifestação individualizada (no sentido dos ‘interesses’, que não me parecem nacionais) que, pelo que parece, não está querendo a presença de movimentos sociais (sindicatos de trabalhadores e outros) na mobilização, mas aceitam a participação dos empresários ou patrões (além de certo caráter ‘conservador’ em alguns discursos).

Em torno destes dois ‘sentidos’ ou aspectos que levando aqui, de minha parte, sou favorável ao aumento dos combustíveis. ‘Sim! Que aumentem para R$ 10,00 o litro!’ Talvez, assim, o Estado (com seus políticos), os empresários e trabalhadores, passem a mexer seus esforços para implantar transportes mais abrangentes, coletivos, democráticos, socialmente viáveis, ecologicamente e culturalmente necessários, e a sociedade deixe de depender, de ser escrava do caminhão. Trens (e ferrovias), transportes hídricos, bicicleta (e ciclovias), transportes realmente públicos e de qualidade, no lugar dos caminhões e carros particulares que são agentes de uma ‘ditadura’, a ‘ditadura dos poluentes’: do petróleo e do carro/transporte a motor por combustão. Esta ‘ditadura’ (‘cultura’), influencia na mentalidade e comportamento das pessoas (status e hábitos), além do trânsito. E, esta é a grande questão. Enfim.

Pós-problematização, deixo a pergunta: ‘Qual é o real objetivo e para quem serve esta paralisação?’


Paralisação passada
















Hoje


Amanhã? ...




domingo, 8 de abril de 2018

Certa realidade que muitos não querem ver, para além das ideologias (no contexto do Brasil atual, em torno da prisão de Lula)

Não sou PeTista. Aliás, não sou filiado a partido algum. Se bem que, volta e meia, aparece um rotulador ignorante 'me filiando'. Tenho minhas críticas ao PT e seus governos. Quem acompanha meus textos e postagens sabe disso. Sou taoista (filosoficamente falando), e no ocidente me relaciono filosoficamente com Nietzsche, Hakim Bey e mais recentemente com Agamben (entre outros do timbre). Estive na fala de posse do Lula na sua primeira eleição como vitorioso, no FSM (Fórum Social Mundial) em Porto Alegre/RS, no meio de uma multidão, no período, de em torno de 200 mil pessoas. Já estudava e vivia 'política e filosofia, sociologia e história' (além das artes) na época. Assim como já participava de movimentações culturais-artísticas e sociais-políticas. E por isso tenho certa propriedade e consciência do que falo.



foto que fiz no FSM, na beira do Guaíba, POA/RS, Brasil, 2003, discurso de Lula (posse), onde palestinos e israelenses, juntos, levantavam suas bandeias.
Do final dos anos 80 até hoje, foi nos anos do governo da 'esquerda' (com todos seus erros, falhas e integração com o jogo liberal-capitalista-burguês) que tive, como estudante, profissional (professor) e cidadão, meus melhores momentos sociais e econômicos, minhas maiores oportunidades de acesso ao que necessito para viver. E assim foi com todo o país praticamente. Pobres puderam avançar para certa condição de vida melhorada, tendo mais acessos. A miséria foi quase totalmente abatida (ou totalmente). A dita 'classe média' ascendeu como nunca, e os ricos, estes também puderam ficar ainda mais ricos. Tudo isso num tempo de mais ou menos 15 anos. Os 15 anos mais 'equilibrados', 'competentes' e 'justos' da história deste país (falando de uma forma 'geral'). Ou seja, com todos os erros e perdições no jogo político-ideológico que a 'esquerda' teve neste tempo, Lula e Dilma estiveram na cabeça do melhor período social, econômico e cultural da história do Brasil, independente do meu gosto, crença ou posição política. Sim, como eu já disse, tiveram muitos erros, se deixaram contaminar em alguns sentidos, mas, o que nos afeta realmente, é a condição existencial, econômica, social, o 'básico' para se estar vivo com certa dignidade. E isso, o 'governo de esquerda' propiciou. Não foi o 'ideal', o 'totalmente justo' e 'equilibrado', mas foi a 'melhor realidade social' que tivemos na história até então. E é isso que é 'realidade', para além dos ideais ou dos discursos ideológicos. O mais, vem depois. Sem o básico, não existe o aprimorado. Sem a condição mínima, não se pode chegar numa dignidade humana de ser-estar, ao 'equilíbrio' social, econômico, cultural e político-ideológico. E é disso que se tratam minhas reflexões e posições. Simples! (para alguns, acho que não). E hoje, tristemente, vejo Lula (o maior presidente que o Brasil já teve neste sentido e contexto, com todos seus acertos e erros), ser preso por uma elite monopolista que nunca lutou (nem se quer viveu com consciência) por esta 'realidade' ou 'condição' mínima e básica de que me refiro. A mesma elite que não gosta de pobre, preto, puta, operário, que tem preconceito contra semi-analfabetos, diferentes, livres, pessoas de verdade e que lutam para sobreviver com todas as desigualdades e injustiças ao seu redor. E Lula, representa um pouco esta gente. E eu, pertenço a esta realidade, pertenço a esta gente. Lula, independente do que eu ache, do que você ache ou pense, é povo, coisa que Eles (elite), não são.






Julgar é fácil quando se está em situação privilegiada. Mas, longe dos ternos e gravatas, das togas, da frieza das leis, da proteção das mansões e carrões e seguranças privados, da vida privada e 'blindada' elitista, do poder que isso tudo 'garante' (até a morte ou o acidente ou o Caos chegar para um abraço), nas quebradas escuras das ruas, onde vivem as gentes, estas pessoas (elites privilegiadas) são frágeis criaturas sem poder algum. Mais frágeis do que eu - e você. Portanto senhores e senhoras, aconteça o que acontecer, estes 'dominantes enfeitados' e sua 'justiça afetada', não passam de uma grande 'mentira'. Pois, ao cair na rua, nos dias e realidades dos 'comuns', eles tornam-se presas fáceis de um sistema que eles mesmos tem culpa de ser. Enfim. Eles terão suas 'recompensas', assim como seus ignóbeis reprodutores...

domingo, 25 de março de 2018

Lula de passagem - abaixo de chuva líquida e sólida...

Debaixo de muita chuva, a passagem de Lula por Xapecó com sua caravana nacional, foi motivo de uma grande reunião popular na praça central, mas também de muita confusão e violência gerada por ‘opositores’ que gritavam palavras de ódio, exibiam faixas pró-ditadura militar e Bolsonaro. No momento do comício, além de água, choveu ovo, lata, garrafa, pedra e fogos de artifício em cima da cabeça da população, entre crianças e idosos, que foram assistir e ouvir Lula e outras lideranças políticas e sociais falarem.

Passei a tarde de sábado ministrando um curso de Linguagens Poéticas junto a escritores locais, do Estado e do sul, também com alunos e colegas de trabalho e de arte. Depois disso, mesmo resfriado e com a garganta dolorida, peguei minha câmera fotográfica e fui pra praça, debaixo de chuva, a modo de registrar aspectos do evento. Chegando lá me deparei com gritos de ódio, frases racistas proferidos por uma ‘minoria’ de pessoas (‘de bem’) que se pronunciavam a favor da ditadura militar e de Bolsonaro do outro lado da avenida Getúlio Vargas. Certo momento ouvi cantarem: ‘Amamos a polícia militar’. E, por detrás da barreira humana que a PM montou, eram arremessados os objetos que, acabaram atingindo pessoas que estavam em frente a igreja matriz. Uma delas fui eu (levemente, mas doeu, inchou e arrochou meu dedo). Mas outros, não tiveram a mesma sorte. Vi pessoas sangrando passar.

Enquanto objetos voavam sobre as cabeças dos que, pacificamente estavam ouvindo as falas, a PM imóvel, sendo que, os arremessos saiam de perto, por detrás dos policiais. Precisou alguma revidação e alguém falar no microfone em bom e alto tom, cobrando alguma atitude da PM para que tomassem alguma atitude. Pelo menos foi isso que vi acontecer. E foi tomada, principalmente quando o Lula foi anunciado no palco, pois foi quando alguns enfurecidos tentaram passar para o lado da praça. Olhando tudo atentamente, vish!, vi que, a meia dúzia de ‘corajosos’ iria levar um pau. Alguns até entraram, mas foram empurrados pra fora do cerco montado para garantir integridade dos que estavam ali para ouvir.

Me perguntei, da onde tanto ódio? Porque a PM demorou tanto para agir contra os agressores? Ali, como já falei, haviam muitas crianças, idosos, professores, jovens. Só não deu merda maior, porque o número de opositores era pequeno, e do outro lado, a grande maioria era população, não militante, e a maioria da militância era ‘pacífica’ (talvez tenha sido também orientada para não reagir a nível). Frente a isso, João Pedro Sdédile, líder nacional do MST, deu seu recado. Fernando Haddad também. Lula, acabou silenciando os enfurecidos da oposição, fazendo com que, até eles o ouvissem. Sem paixão alguma (não sou entusiasta nem filiado ao PT, apenas tenho noção política e histórica), vi, mais uma vez, o poder de oratória e retórica do Lula, um dos elementos que o fez ser tão ‘popular’. Havia já visto uma fala sua em 2002 ou 2003, numa das edições do FSM (Fórum Social Mundial). Fala da sua posse como ‘primeiro presidente popular da história do Brasil’, gostem(os) ou não dele. Na época, já percebi um dos motivos por assim ele ser considerado. E neste sábado, onde o ódio transparecia nos gritos de uma ‘oposição’ violenta, arremessados em objetos e palavras, novamente esta percepção (e lembrança) me veio à tona.

Por fim, fiz alguns poucos e encharcados registros. Mas não tive condições de ficar até o final, pois além do cansaço de um dia magnífico de literatura, no meio de bons espíritos, somado à garganta e ao resfriado, que somaram-se por sua vez com a dor latejante do meu dedo atingido por algum objeto lançado por um ignóbil que age sem pensar, peguei o rumo de casa. Mas, no caminho, mais um fato estúpido. Fomos levar um casal de amigos (a professora que ministra comigo o curso de Linguagens Poéticas) de carro até seu veículo que ficara estacionado atrás do hotel Bertaso, para que eles não corressem riscos de serem violentados por aquele povo que tinha ‘sangue nos olhos’. Mas acontece que, sem imaginar tamanha estupidez (violência), estes amigos deixaram o carro estacionado bem pro lado onde se concentraram os furiosos opositores. Chegando lá, muita polícia fortemente armada, com cães, em meio a garoa, e marmanjos sendo revistados. Além das lixeiras derrubadas, detritos e coisas quebradas, o para-brisa do carro dos amigos atingido. Resultado do descontrole emocional-intelectual que o ‘ódio’ criado neste país por certos discursos e ideologias promove.

Depois fiquei sabendo que foi feito um cordão humano pelo povo ali presente, que cercou Lula e o conduziu a pé até o hotel, protegendo assim sua integridade física. Nisso tudo, alguns que gritavam por ditadura militar, tiveram o seu momento com a ação tardia, mas de fato, da PM. Provavelmente não gostaram, mas, quem pede, às vezes recebe, não é? Agora, minha vida segue, entre poesia, fotografia e alguma pancada que vem de não sei aonde. A resistência a toda esta violência e falta de equilíbrio está naquilo que é a prática da sensibilidade, da serenidade, do olhar para a vida e para o outro, e não para o ódio.























Cordão da PM enquanto objetos e fogos eram lançados contra a população




                    Meu dedo roxo-inchado, lesionado pelo ódio alheio que nem me conhece


e segue o baile...